Peças
O Que Você Está Olhando Teatro (1913-1920)
Gertrude Stein. Tradução de Luci Collin e Dirce Waltrick do Amarante. Iluminuras, 184 págs., R$ 38.
Gertrude Stein (1874-1946) foi um dínamo. Capaz de escrever, com a mesma desenvoltura e força de invenção, poemas, textos de ficção e peças teatrais. Sua produção dramatúrgica, no entanto, é ainda muito pouco conhecida no Brasil, onde a maior parte das peças criadas por ela jamais foi encenada, ou sequer havia sido traduzida até muito pouco tempo atrás.
Para preencher essa lacuna, tanto nos palcos como nas estantes, a editora Iluminuras acaba de lançar o livro O Que Você Está Olhando Teatro (1913-1920), reunião de 18 peças de Stein, pela primeira vez traduzidas para o português.
O trabalho ficou sob a responsabilidade das pesquisadoras Luci Collin, doutora em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Dirce Waltrick do Amarante, doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde também é docente dos cursos de Artes Cênicas e do programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução.
As duas estudiosas assinam textos de apresentação no livro, falando dos desafios enfrentados no complexo processo de tradução.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Luci, que mora em Curitiba e também é escritora, com vários livros publicados, de prosa e poesia, conta que as peças incluídas na antologia lançada pela Iluminuras foram reunidas pela primeira vez no título Geography and Plays, de 1922, disponível nos Estados Unidos em edição com capa dura, publicado pela University of Wisconsin Press, e em versão brochura, da CreateSpace Independent Publishing Platform, que também pode ser encontrada em versão digital para Kindle, no site Amazon.com.
A obra, nunca publicada no Brasil, engloba textos escritos na fase mais experimental da autora norte-americana, produzidos logo após a sua chegada à França, onde ela se estabeleceu em 1903.
Vanguarda
Nas peças reunidas em O Que Você Está Olhando, percebe-se, salienta Luci, o caráter radical e vanguardista de Stein, que rompe com muitas das convenções do chamado teatro dramático.
A tradutora diz que Gertrude desconstruiu noções de narrativa, de trama, com as quais grande parte do público está habituada. As peças também descartam a construção de personagens, que até estão lá, por vezes têm nomes, mas não obedecem à definição mais convencional. "Ela os trata como performers, dispositivos de movimento, que existem apenas no tempo presente", diz Luci, que defendeu, em 2003, a tese de doutorado A Composição em Movimento: a Dinâmica Temporal e Visual nos Retratos Literários de Gertrude Stein.
Quanto às orientações à direção em possíveis montagens das peças, não há tampouco rubricas, indicações do que os atores devem fazer em cena, como devem se movimentar e fazer no palco (ou espaço de encenação). "Talvez por isso que muitos acreditavam que os textos não poderiam jamais ser encenados", afirma Dirce. Justamente por escapar às noções do teatro dramático mais convencionais.
Paris
Para melhor compreender o contexto histórico e cultural no qual os textos de Stein foram produzidos, é preciso resgatar o momento no qual a autora se muda para Paris, no início do século 20. Em 1908, ela inicia um relacionamento amoroso com a também norte-americana Alice Toklas, e as duas, em sua casa, na Rue de Fleurus, passam a receber, entre os anos 1910 e 20, alguns dos nomes emergentes do mundo das artes do período, muitos deles figuras emblemáticas do movimento modernista, assim como do abstracionismo, do futurismo, do surrealismo, do cubismo e de outras escolas surgidas no período.
Passaram pelo salão da casa de Gertrude e Alice grandes escritores, como os norte-americanos Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, John Dos Passos e (o poeta) Ezra Pound, e pintores, como Matisse, Braque e Picasso, grande amigo de Gertrude, com quem compartilhava a paixão pelo boxe, esporte que ela praticava.
O longa-metragem Meia-Noite em Paris (2011), de Woody Allen, no qual Stein é interpretada por Kathy Bates (de Louca Obsessão), retrata, de maneira lúdica, justamente esse momento na vida da autora.
Para Luci, o teatro de Stein tem muito a ver com o que se passava na de sua sala, cujas paredes eram cobertas de obras de arte. Nasce do contato direto com linguagens artísticas em ebulição, e da necessidade de experimentar de forma mais radical. "Os textos refletem esse momento, e fazem da cena nas peças um espaço de convivência disso tudo, propondo uma ruptura com a ordem previsível e autoritária do discurso, da retórica."
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