
"Eu sou novo aqui", brinca no título de seu novo álbum Gil Scott-Heron. Perto de completar 61 anos - ele nasceu em 1º de abril de 1949, em Chicago -, o cantor, poeta e pianista, que é pioneiro do rap e já foi chamado de "o Bob Dylan negro", está completando 40 anos de uma carreira discográfica inovadora e influente, mas também irregular, praticamente ausente nas duas últimas décadas.
Scott-Heron estreou em disco em 1970 e nessa primeira década lançou seus trabalhos mais marcantes, incluindo o clássico "The revolution will not be televised" (1974), no qual conjugou qualidade artística e discurso político, fazendo uma aguda crônica da sociedade americana. A partir dos anos 1990, no entanto, iniciou uma descida ao inferno, enfrentando problemas com a cocaína e o crack. Ou com a Justiça, já que, entre 2001 e 2007, entrou e saiu de prisões e programas de reabilitação.
Voz está mais rascante e letras são autobiográficas
"I'm new here" prova que, poética e musicalmente, Scott-Heron está inteiraço. Mesmo que seu timbre de barítono soe rascante, detonado pelos anos de abuso. Mas, para o tipo de música que faz, entre o canto e a fala, essa rouquidão adiciona um charme extra, como se ouve na regravação de "Me and the devil". O tema de Robert Johnson, com participação nos teclados de Damon Albarn (dos grupos Blur e Gorillaz), ganha conotação autobiográfica, em referência ao passado recente de Scott-Heron. Há mais duas regravações, a faixa-título (Bill Callahan) e a devastadora balada soul "I'll take care of you" (Brook Benton).
O "avô" do rap voltou aos estúdios graças ao apoio de um fã de longa data, o inglês Richard Russell, que trabalhava como DJ de hip-hop antes de criar a XL Recordings, gravadora que, atualmente, também abriga bandas como Radiohead e The White Stripes. Russell - que assina a produção do disco e ainda é parceiro em três faixas, fornecendo as melodias de "Your soul and mine", "Running" e "The crutch" - visitou-o, em junho de 2006, na prisão de Rikers Island, onde o artista passava férias forçadas. As 15 faixas de "I'm new here" mostram que o esforço para trazer Scott-Heron de volta ao mundo da música foi recompensado.



