Julie Sokolowski vive o papel de uma jovem religiosa cujo fervor é questionado | Divulgação
Julie Sokolowski vive o papel de uma jovem religiosa cujo fervor é questionado| Foto: Divulgação

Opinião

Mergulho na religiosidade

Paulo Camargo, editor do Caderno G

O cinema de Bruno Dumont não é dos mais palatáveis. Ele não busca, de forma alguma, oferecer entretenimento fácil aos espectadores. Pelo contrário. Seus filmes são experiências densas, reflexivas, sem serem exatamente herméticos ou inacessíveis. Hadewijch não foge a essa regra.

A jornada empreendida pela personagem central, Céline, uma garota rica, filha de um diplomata, que decide se tornar noviça em um convento isolado, é uma viagem ao mesmo tempo intensa e introspectiva de alguém que não consegue compreender a própria fé em Deus. Esse fervor provoca desconfianças nas outras religiosas, sobretudo na madre superiora, que nele enxerga fanatismo, subversão e doença. Justamente por destoar da devoção comportada e metódica das demais integrantes da ordem.

Dumont foi buscar no mito de uma jovem religiosa do século 13, que viveu na região entre a Bélgica e a Holanda, um tema palpitante nos dias atuais: até onde se pode chegar na adoração de um Deus, na entrega à fé? Não à toa, quando Céline, reencarnação da monja Hadewijch, sai do convento, ela acaba se envolvendo com jovens seguidores do Islã, com quem estabelece uma conexão.

Com fortes traços do cinema de Robert Bresson, que trabalhava com não-atores, Hadewijch faz lembrar filmes como Mouchette, uma das obras-primas do diretor francês. Não é para todos, mas merece ser visto por quem busca desafios. GGG

Rio de Janeiro - Julie Sokolowski não sabe se quer ser atriz ou não. Em entrevista concedida no último fim de semana no Rio de Janeiro, na sacada do Hotel Sofitel, no bairro de Copacabana, a jovem estrela de Hadwjitch, filme do cineasta francês Bruno Dumont, que será exibido hoje no Festival Varilux, confessa não ter certeza de sua vocação dramática. Apesar de ter adorado trabalhar com o diretor de A Vida de Jesus, A Humanidade e Flandres.

"Preciso ver o que acontece sob a direção de outros realizadores, para saber se é isso mesmo que desejo fazer da vida", confessou Julie, que, aos 22 anos, anda viajando mundo afora, apresentando Hadwjitch em eventos de cinema como o Varilux, que acontece até quinta-feira em várias capitais brasileiras, incluindo Curitiba, onde as projeções ocorrem no Unibanco Crystal.

Dumont, considerado um dos diretores mais autorais da produção francesa contemporânea, conheceu Julie no lançamento de Flandres, há pouco mais de três anos. Viu na garota, que jamais havia atuado, a atriz que procurava para Hadwjitch. O filme se apropria da história verídica de uma religiosa do século 13, na região de Flandres (atual Bélgica), cuja entrega de corpo e alma à fé e ao seu amor por Jesus Cristo a fazia escrever poemas, entrar em estado delirante e jejuar por dias a fio. Esse fervor foi visto na época como uma manifestação demoníaca.

Na releitura século 21 desse mito, Dumont conta a história de Céline, personagem de Julie, que tinha 19 anos quando rodou o filme. Aspirante a noviça em um convento de freiras no norte da França, ela acaba provocando a própria expulsão da ordem com suas ardentes manifestações de fé. A madre superiora pede que ela vá ao mundo, mergulhe na vida real, na tentativa de encontrar sua verdade.

Julie contou à reportagem da Gazeta do Povo que, ao contrário do resto da equipe do filme, não teve acesso ao roteiro de Hadwjitch. Dumont fornecia as falas, explicava-lhe as situações a serem filmadas dia a dia. "Tínhamos longas discussões nas quais procurávamos encontrar a emoção da personagem. Por vezes rodávamos longas falas e apenas uma pequena porção acabava sendo utilizada na edição. Minha expressão facial, minhas emoções com frequência o interessavam mais do que o script que ele havia escrito."

Ainda sem convites para outros filmes, Julie sabe que precisa retornar ao "mundo de verdade", trabalhar, ganhar dinheiro. Talvez volte a trabalhar como garçonete na sua cidade natal, Lille. Ou vá para os Estados Unidos rodar um curta-metragem que tem na cabeça. Mas são apenas planos. Por enquanto.

Serviço

Hadwjitch. França. 2009. Direção de Bruno Dumont. Festival Varilux de Cinema Francês. Unibanco Crystal, às 21h30.

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