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Antes da abertura do Festival do Rio, na noite de quinta-feira (23), Arnaldo Jabor subiu ao palco do Cine Odeon com a equipe para, além de agradecer, apresentar A suprema felicidade, sua volta ao cinema após duas décadas afastado da sétima arte. Argumentou que fez o filme com o assunto que ele mais conhecia: ele mesmo. E não poderia estar mais correto.

Em suas crônicas, quando não fala mal do governo — qualquer governo —, Jabor relembra o passado. Nos seus relatos, as mulheres têm mais mistérios, o Rio tinha mais encanto e era cheio de personagens curiosos, como vendedores de pipoca que contam suas histórias de conquistas sexuais, ou onde a pornografia inexistia e o mundo era mais inocente.

Vez por outra, o colunista também costuma falar de como o dramaturgo Nelson Rodrigues o influenciou e de como ele gosta de cinema, mas do cinema feito à moda antiga, como o de Fellini. Tudo isso está em "A suprema felicidade".

O longa vai e volta no tempo para mostrar Paulo (ou Paulinho para os familiares e íntimos), uma espécie de alterego do próprio Jabor, em três momentos, quando é criança (8 anos), ainda adolescente (13 anos), e recém-adulto, com 19 anos (interpretado nessa fase por Jayme Matarazzo).

Vemos como o menino vai ao colégio, com professores-padres (interpretado por Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, e Ary Fontoura) que, apesar de engraçados, não perdem a oportunidade de passar uma lição de moral para seus alunos. Ou, quando na adolescência (o momento menos impactante do filme), começa a questionar a autoridade religiosa e fazer as primeiras indagações filosóficas. Mas é no início da "maioridade" que Jabor tem mais a contar. Suas descobertas sexuais e amorosas, as bebedeiras, a violência das ruas, a dualidade do ser humano, que nunca é só bom ou só ruim.

Nostalgias

Jabor colocou na tela todas as suas nostalgias. Para começar, suas mulheres sofrem, independentemente de quem sejam. Podem até amar e descobrirem o amor, mas elas são coadjuvantes dos homens, os verdadeiros donos da história. É o pai Marcos (Dan Stulbach), o avô Noel (Marco Nanini, o melhor personagem do filme), o próprio Paulo quem mandam.

Marcos, por exemplo, ama sua mulher Sofia (Mariana Lima). Ama demais, é ciumento, quer que ela dependa dele, não a deixa trabalhar. Sai à noite e deixa Sofia imaginando que ele tem uma amante. Os dois brigam, são ríspidos, cruéis, tudo na presença do filho. E ele recorre ao avô, um homem que se diz alegre, não feliz, e que ensina como é viver, sem lições prontas, ao neto.

No início, Noel é um músico boêmio, apaixonado pela vida, que leva Paulinho para as casas onde se apresenta. Com o tempo, ele vai percebendo a iminência da morte e se preocupa de não poder mais aproveitar o que lhe dá prazer. Percebemos essa mudança de humor, com uma sutileza que poucos, como Nanini, conseguiriam passar. Ele nunca fica ácido, mas pensativo. Conta histórias do seu passado, dá conselhos amorosos, se transforma na referência.

Mais que um filme sobre o amadurecimento, "A suprema felicidade" é uma homenagem a esse personagem que tanto marcou a vida de Jabor.

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