
Evandro Affonso Ferreira escreveu um livro quase sem história. Eleito pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) como melhor romance de 2010, Minha Mãe Se Matou Sem Dizer Adeus é, como o próprio autor confirma, um ensaio sobre a decrepitude.
Um senhor de 80 anos senta em uma confeitaria de shopping em um domingo chuvoso infinito. Observa os outros frequentadores sempre remoendo o pensamento de que a vida é ruim e de que sua mãe se matou sem dizer adeus. O senhor de 80 anos nada mais faz a não ser esperar a morte e escrever um livro, justamente o livro que estamos lendo. Não há a certeza de que a obra terá fim, diferente do que se sabe sobre o velho-narrador.
Ao contrário do que se possa imaginar, Minha Mãe... não se torna um relatório melancólico e pessimista. Isso porque o autor se vale de uma linguagem única, cheia de velocidade, marcas de sua prosa afiada, recheada de frases certeiras. Já em seu primeiro livro, Grogotó, onomatopeias, neologismos e palavras bizarras surgiam para colorir os contos. É o que encontra em seu tesouro escondido, embora parado no tempo: um dicionário de palavras sonoras, singularidade que é revertida em sua narrativa, fato que o credencia como um dos escritores contemporâneos mais interessantes do país.
Por e-mail, o autor conversou com a reportagem (vale notar a maneira peculiar com que pontua as suas frases). E disse que escreve porque é um fracasso na vida real.
O que o motivou a escrever um livro que, do começo ao fim, insiste em dizer que a vida é ruim?
Para o meu personagem, a vida é ruim, ou foi ruim, nem eu mesmo sei se ele ainda vive pelas mesas de confeitarias paulistanas; tenho outro livro que ainda não foi publicado cuja primeira frase é: "os piores dias de minha vida foram todos". É meu narrador quem diz isso. Eu, o escritor, claro que nesses 65 anos de vida já tive algumas semanas felizes.
Por que a escolha de uma confeitaria de shopping como cenário? Para você, é um ambiente triste?
No livro, o narrador fala que está num templo moderno; mas claro que é um shopping. Escolhi escrever todo o romance numa confeitaria para falar da decrepitude. Foi uma escolha proposital num shopping frequentado por muitas pessoas já idosas feito eu por exemplo. A decrepitude sempre me inquietou; a morte também; a solidão também.
O narrador do livro tem 80 anos, perdeu a mãe, que se suicidou, e está apenas aguardando a morte. Você tem 65. Há alguma semelhança, neste caso, entre criação e criatura?
Minha mãe já morreu há muitos anos. Morte natural. Mas é evidente que todo livro tem muita coisa em comum com o escritor. Vide Madame Bovary , de Flaubert.
A narrativa acontece em um domingo chuvoso, modorrento. Domingos são dias ruins para você?
Para mim não mas para o narrador foi possivelmente o último dia da vida dele. E chuvoso demais.
Alguns críticos apontam que você se utiliza do estilo frases inspiradas, velocidade da linguagem e neologismos para camuflar a falta de conteúdo. O que pensa disso?
Nunca li ninguém falando isso não. Mas se alguém falou possivelmente esteja certo quanto à minha primeira fase. Agora a partir do Minha Mãe Se Matou Sem Dizer Adeus estou mais reflexivo. Coisas da velhice talvez.
Você tem o que chamou de "dicionário particular de palavras sonoras". Como é esse livro? Ele continua sendo atualizado?
Não. Tudo isso pertence a tal primeira fase. Cataloguei ao longo de 15 anos mais de 3 mil palavras sonoras. Hoje nem abro este meu dicionário particular. Abandonei-o de vez.
No livro, há algumas referências muito perceptíveis, outras nem tanto. Você cita, por exemplo, um autor de Praga (Kafka?) e repete que "a mãe que se matou" gostava de Billie Holiday. Essas figuras são importantes para você? Quem o inspira hoje?
Billie está em quase todos os meus livros. Gosto dela, sim. Tenho meus autores preferidos que vivo citando ad nauseam: Cornelio Penna, Samuel Rawet, Bruno Schulz, Hermann Broch, Musil, e tantos outros.
Por que você escreve?
Sou um fracasso na vida real; lanço mão da ficção para ratificar minha bancarrota.
Arte combina com rotina? Você tem uma?
Nunca tive mas agora nos últimos três livros que assinei com a Record estabeleci uma rotina escrevendo-os todos os dias das 10h ao meio dia e das 16h às 18h numa mesa de café qualquer. Gostei da ideia de escrever à mão num ambiente aberto cheio de gente.
Como recebeu a notícia de que havia ganho o Prêmio da APCA? Tinha expectativa em vencê-lo?
Nem imaginava isso. Gostei sim; é sempre bom ganhar um prêmio. Nós escritores vivemos de tapinhas nas costas. Somos todos vaidosos. Uns mais, outros menos.
Quais os seus projetos futuros? Há um novo livro em andamento?
Sim: dois. O próximo vai sair em março de 2012 O Mendigo Que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotherdam, e o outro, VIM VI PERDI. Fechando a digamos trilogia que assinei com a Record.
Serviço: Minha Mãe Se Matou Sem Dizer Adeus, de Evandro Affonso Ferreira. Record, 128 págs., R$ 27,90.







