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“A literatura existe quando um conteúdo e uma forma criam um universo único, governado pelas próprias leis”, diz Jon Fosse. | Jarvin (Jarle Vines)/Wikimedia Commons
“A literatura existe quando um conteúdo e uma forma criam um universo único, governado pelas próprias leis”, diz Jon Fosse.| Foto: Jarvin (Jarle Vines)/Wikimedia Commons

O norueguês Jon Fosse é constantemente lembrado como virtual vencedor do prêmio Nobel de literatura – poeta e ficcionista, o escritor de 56 anos é hábil em descrever cenas desprovidas de ação, em que a conjugação dos verbos parece ser a única pista para distinguir passado e presente. Também dramaturgo, Fosse é um dos autores mais encenados na Europa, graças a peças em que, muitas vezes, os diálogos são rarefeitos e marcam a repetição incessante de ideias.

No Brasil, Fosse já teve diversos espetáculos montados, como “Noturnos”, “Sonho de Outono”, “Alguém Vai Vir”, “Um Dia No Verão”, “O Nome”. Agora, é a vez da literatura, com o romance “Melancolia”, publicado há pouco pela Tordesilhas. Aqui, ele parte de um personagem real, o pintor Lars Hertervig (1830-1902), para oferecer um instigante retrato da mente perturbada de um artista.

De origem pobre e vivendo no interior da Noruega, Hertervig é logo descoberto por um mecenas como um pintor de talento, o que lhe garante a chance de estudar belas-artes na Alemanha. O tranquilo caminho de sucesso se transforma em um trajeto tortuoso, graças às terríveis inseguranças e delírios incapacitantes do jovem artista.

Com uma prosa detalhada nas minúcias, Fosse descreve um dia da crise de Hertervig e como isso vai repercutir na sua vida e na de sua irmã.

Os silêncios pesados e os diálogos fragmentados remetem a autores como Samuel Beckett e Harold Pinter. “Beckett é mais ou menos meu pai literário, juntamente com o escritor norueguês Tarjei Vesaas. E, como é frequente, você se rebela contra seu pai”, diz Fosse. “Minhas pausas e as pausas de Beckett são muito diferentes, minhas pausas com frequência dizem o oposto. Pinter nunca foi uma influência, uma vez que nunca li ou assisti a qualquer das suas peças quando comecei a escrever para o teatro.”

Livro

“Melancolia”

Jon Fosse. Tradução de Marcelo Rondinelli. Tordesilhas, 408 pp., R$ 48.

Para Fosse, a única obrigação do escritor é “escrever bem”, e do modo mais autêntico possível. Adicionar desígnios morais, religiosos e políticos é contrário aos elementos fundamentais da arte: isso tem de acontecer como uma dádiva. “Escrever mal não é só isso, é falta de moral, de certa maneira, um pecado”, diz.

Entrevista

A seguir, o escritor norueguês Jon Fosse, com frequência apontado como favorito para o Prêmio Nobel de Literatura, fala sobre a relação entre ficção, fatos, jornalismo e história.

Hoje, o jornalismo narrativo americano se assemelha muito à ficção nos livros e extrai sua inspiração do arco narrativo clássico. O senhor acha que ainda haverá lugar para a escrita de ficção deliberadamente literária?

Essa mistura do ficcional com o factual é muito comercial e um modo impróprio de escrever. Não simpatizo com isto. Ou você escreve como artista, e cria, ou escreve como um estudioso, um historiador, um jornalista. Existe um elemento de ficção em tudo o que é escrito, mas, no jornalismo, o indivíduo tem de tentar limitar isso o máximo possível. Naturalmente, existe um futuro para a literatura como arte. Prosa, poesia, drama. Mas duvido que exista um futuro, ou um futuro honesto, em mentir, fingir que é verdade. É uma mentira. A literatura é mentir de maneira que seja verdade.

Em que aspectos o senhor acha que a narrativa literária deve se afastar ou mudar quando se trata de fazer jornalismo?

Jornalismo é jornalismo. Literatura é literatura. Essa distinção sempre existirá e estou certo de que veremos a diferença de modo mais claro no futuro.

Hoje, a História está muito interessada em detalhes. A literatura está assumindo seu lugar?

Acho que a História tem de se preocupar com os detalhes, é preciso se concentrar no que realmente aconteceu e fazer uma representação do fato. Naturalmente, isso implica interpretação, um pouco de ficção, se preferir, mas o historiador terá de ser o mais acurado possível. A História é necessária, o jornalismo é necessário, como também a literatura. Mas não são absolutamente a mesma coisa. E, para mim, o chamado romance histórico é uma mentira, uma impostura. E me desagrada muito.

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