
Considerado um dos mais importantes comentaristas de música erudita hoje, o britânico Norman Lebrecht lançou no ano passado um livro sobre Mahler. Em Por que Mahler? Como um Homem e Dez Sinfonias Mudaram o Mundo, o crítico procura explicar a recente popularidade do compositor e quais os motivos de sua influência.
O livro de Lebrecht, ainda não publicado no Brasil, foi bem recebido pelos mahlerianos, mas criticado por parte da imprensa por ser francamente a obra de um fã segundo o New York Times, Lebrecht comete certos exageros nas comparações que faz entre Mahler e outros compositores, por exemplo.
Em entrevista por e-mail à Gazeta do Povo, Lebrecht chega a dizer que Mahler tirou Beethoven do centro do cânone sinfônico. E comenta outros pontos da obra do compositor. Confira:
Por que o senhor decidiu escrever um livro sobre Mahler?
Eu vinha pensando nessa pergunta por 30 anos, antes de eu decider escrever sobre isso. Por que Mahler? Nunca na história da música um compositor desprezado durante a sua vida e negligenciado ainda por décadas mais tarde voltou para tirar Beethoven do centro da cultura sinfônica. Então por que isso aconteceu com esse homem, com essa música?
O que aconteceu para que "o tempo de Mahler" finalmente chegasse? A indústria fonográfica foi importante para isso?
É claro que o tempo dele chegou. Ele é mais tocado do que qualquer outro compositor sinfônico do século 20. Os discos foram importantes nesse processo em algum ponto do passado. Mas, hoje, não é mais assim.
O senhor defende que Mahler inventou alguns elementos comuns hoje na música clássica, como séries de concertos com assinaturas, programação temática e "tours" de orquestras. Ele foi tão importante como empresário quanto foi como músico?
Em Viena [como diretor da ópera local], Mahler inventou o que nós hoje reconhecemos como sendo "produção de ópera". Em Nova York ele tentou convencer os norte-americanos de que a música era mais do que mero entretenimento era algo capaz de mudar a sociedade.
O sentimento de Mahler de ser um "estrangeiro" (por ser judeu e boêmio na Áustria) definiu a música dele?
Foi um fator essencial. O "outsider" [aquele que está do lado de fora] sempre tem uma melhor perspectiva da sociedade do que aquele que está em seu meio.
Mahler dizia que uma sinfonia devia "conter todo o mundo". Isso antecipa a mescla de gêneros que ocorreria mais frequentemente no século 20?
Eu não percebo essa ligação. Ele tentou mostrar que a música absoluta [sem voz] pode refletir questões sociais e políticas importantes de uma época, e que a música não pode ser ouvida sem que se leve em consideração o mundo que está a sua volta.
O senhor nega as críticas das feministas de que Mahler foi machista ao proibir Alma, sua esposa de compor. E também defende que ela fosse uma boa compositora.
Eu não consigo encontrar uma única linha original em qualquer das peças de música que ela escreveu. Ela mesma não estava certa de que ela queria ser uma compositora.
Qual é a mensagem da obra de Mahler?
Que a música não está nas notas. É preciso ir mais a fundo.
Serviço
Why Mahler? How a Man and Ten Symphonies Changed the World ainda não está disponível em português, mas pode ser importado. Na Amazon.com, o preço é de US$ 18,45.



