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Virada do século

Quando dois gênios vienenses se encontraram

Mahler tinha um amor abosessivo pela esposa, Alma, que também foi compositora | Ilustrações: Osvalter Urbinati
Mahler tinha um amor abosessivo pela esposa, Alma, que também foi compositora (Foto: Ilustrações: Osvalter Urbinati)
Sigmund Freud definiu Mahler como

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Sigmund Freud definiu Mahler como

No verão de 1910, Gustav Mahler teve um dos encontros mais importantes de sua vida. O compositor, que completava 50 anos, vinha passando por uma longa crise existencial. Sua filha Maria havia morrido em 1907, quando começou uma série de infortúnios. Mahler acabou demitido de seu posto na Ópera de Viena, onde já vinha sofrendo perseguições pelo fato de ser judeu. Mas não era tudo. Mahler estava doente e acabara de descobrir que sua mulher, Alma, estava apaixonada por outro. Foi quando Mahler encontrou Sigmund Freud.

O diagnóstico da doença havia vindo apenas dois dias depois da morte de Maria, uma criança de cinco anos que morreu de difteria. Mahler tentou animar a mulher pedindo que o médico dissesse a ela como seu coração estava forte. Após escutá-lo, o médico disse que, na verdade, não era bem assim. Mahler morreria do coração em 1911, pouco antes de fazer 51 anos.

A possibilidade de que Alma pudesse deixá-lo era igualmente terrível para Mahler. Os dois tinham uma diferença de idade de 19 anos. E quando Alma conheceu Walter Gropius, que mais tarde seria um nome importante da Bauhaus, quatro anos mais jovem do que ela, os medos dele passaram a fazer sentido. Num dia de 1910, ele recebeu uma carta de Gropius que, por erro, estava endereçada a Mahler, e não à esposa. Basicamente, era um pedido para que Alma deixasse o marido para ficar com Gropius.

Tudo isso levou Mahler a aceitar o conselho de amigos e ir encontrar Freud. Os dois se encontraram em Leyden e tiveram uma única consulta – mas o próprio Freud diria mais tarde que, se podia confiar no que lhe diziam, havia atingido "grandes avanços" com Mahler, que foi definido por ele como "um homem de gênio".

Mahler sempre havia sido um homem cheio de aflições e dúvidas. Filho de uma família pobre, judeu, dizia ser sempre um estrangeiro onde quer que estivesse. Dizia que, para os austríacos, era um boêmio. Para o mundo inteiro, era um judeu. Por outro lado, sempre foi agressivo. Sua direção na ópera de Viena mostrava isso: gerava pelo menos um escândalo por semana comandando os músicos com mão de ferro.

Mahler jamais aceitou o diagnóstico de Freud de que ele cultivava uma obsessão pela mãe. Mas respeitou todo o restante da análise. Já no caminho de volta, Mahler escreveu, ainda no trem para Viena, um poema em que dizia que "uma voz" o havia feito ver a verdadeira situação dele com Alma. Parecia mais calmo, tranquilizado.

A conversa com Freud talvez tenha sido o grande momento de conforto de Mahler em meio à série de tragédias que o cercava. Um ano depois, ele morreria. Sua esposa casaria com Gropius apenas depois de enviuvar. Antes disso, os dois ganharam, em parte graças à conversa daquela tarde em Leyden, uma segunda chance para tentar viverem juntos e em paz.

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