| Foto: Arquivo / Gazeta do Povo/ Arte: Osvalter Urbinati

"Já fui guia de cego, secretário de aleijado, varredor no mercado. Já cuidei de cachorro, fui enchedor de linguiça, tou cheinho de preguiça... Já fui biscateiro, olheiro de bicheiro, ajudante de lixeiro, fiscal de banheiro, aprendiz de feiticeiro, catador de papel e fritador de pastel." Esta é descrição de Zequinha, o personagem das figurinhas que embalavam as balas criadas pelos Irmãos Sobânia, na década de 1920 do século 20, feita pelo escritor Valêncio Xavier. A fabriqueta criou 200 figurinhas com ilustrações diferentes do personagem, representado por um palhaço. Valêncio escreveu o ensaio "Desembrulhando as Balas Zequinha" para o primeiro Boletim Informativo da Fundação Cultural de Curitiba, publicado em 1974.

CARREGANDO :)

Apaixonado pela imagem e seus desdobramentos na arte, no cinema e na literatura, Valêncio não hesitou em estudar um tema menor. Assim como Walter Benjamim estudou temas desprezados pela crítica, como a astrologia, Valêncio se aventurou em pesquisar temas depreciados, como o carnaval curitibano, as histórias em quadrinhos (escreveu o ensaio "A Revolução Silenciosa", para o livreto Gibi É Coisa Séria", publicado em 1973, quando o tema ainda não estava na moda), crimes policiais (alguns publicados na revista curitibana Panorama e reaproveitados no livro Crimes à Moda Antiga", 2004), e muitas histórias e mitos populares, como os do monge José Maria, figura emblemática da Guerra do Contestado, lobisomens, benzedeiras, e asssim por diante.

Valêncio, admirável escritor de invenção, criou, além de O Mez da Grippe" (1981) – ficção em torno da epidemia de gripe espanhola que assolou o Brasil, na época da Primeira Guerra Mundial – outras histórias contundentes e mágicas, como Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentido (2001), misto de diário e autobiografia e Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua (2006), crítica feroz à banalização da violência pela mídia. Todos os seus livros têm, como característica, o fato de unir a literatura às artes visuais.

Publicidade

Até para montar uma biografia – como os livros Curitiba, de Nós (1975) e Poty, Trilhas e Traços (1994), ambas biografias do amigo Napoleon Potyguara Lazzarotto, Valêncio inovou. Em vez de um discurso logocêntrico, usou várias ilustrações – fotos, desenhos, ilustrações de gibis, bilhetes – e também falas do biografado. As intervenções iconográficas borram a ideia canônica de literatura como arte da palavra. Ele mesmo dizia que gostava de "imagens e das imagens da palavra".

Por isso, o estudo sobre as Balas Zequinha traz uma chave para desvendar a obra de Valêncio. A começar pelo personagem representado, inspirado no palhaço Chic-chic. O palhaço é um personagem ambulante, leva vida de picadeiro, mambembe e instável, presente em muitas de suas narrativas: o tipo enigmático que se esgueira entre as casas da cidade deserta em O Mez da Grippe e nos contos 13 Mistérios e o Mistério da Porta Aberta; o que se perde nos labirintos de um hotel em O Minotauro e em O Mistério da Prostituta Japonesa; o menino desorientado na grande cidade em O Menino Mentido.

Para Valêncio, a verdade histórica é ficção e a ficção, verdade histórica. Por isso, os temas do palhaço, do circo, da magia e do mistério são nucleares em seu imaginário. "Estou no lugar de onde eu vim e é para lá que eu vou", diz, em Curitiba de Nós. Valêncio não teorizava. Grande pesquisador da história de Curitiba, toda sua obra é um diálogo com a cidade. Seus vídeos (Caro Signore Fellini, 1979, O Corvo, 1983, e O Pão Negro, 1993) retratam a história do Paraná. Apesar de ter nascido em São Paulo, no dia 21 de março de 1933 – se vivo (morreu em novembro de 2008), completaria 80 anos em 2013 – seu tema de fundo foi o Paraná, e em especial, sua aldeia, Curitiba. Como seus mitos, Poty e Dalton Trevisan, cantava a terra natal e aqui se divertia e gozou da vida e da morte.