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Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura: sempre buscando lugares novos. | Pedro Serápio/Gazeta do Povo
Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura: sempre buscando lugares novos.| Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo

O Sepultura não é mais o mesmo. E a grande verdade, por mais altos que sejam os protestos de alguns saudosistas, é que, em 32 anos de supremacia dentro do metal brasileiro e tendo conquistado reverência inconteste no cenário mundial, a banda nunca pretendeu se cristalizar em uma única identidade. E são essas múltiplas facetas que os fãs vão poder reviver durante o show da turnê comemorativa “Sepultura 30 years”, que acontece no palco do Trésor Eventos, nesta sexta-feira (16).

Prestes a lançar um disco novo - o “Machine Messiah”, que está previsto para o dia 13 de janeiro, com produção de Jens Bogren - a banda esquenta os motores revisitando as raízes, mas indo muito além delas. O repertório dessa apresentação abrange desde a crueza explosiva dos primórdios de “Morbid Visions” (com “Troops of Doom”) até o preciosismo técnico e o groove de “Sepultura Under My Skin”, passando por clássicos como “Desperate Cry”, “Territory” e “Roots Bloody Roots”.

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A banda demonstra em seu habitat natural porque marcou para sempre, com fogo e “chaos”, seu nome na história da música, expandindo os horizontes de um gênero marcado pelo conservadorismo. Para os céticos, basta ir atrás de qualquer lista dos álbuns mais relevantes da história do metal de todos os tempos e perceber que, nada menos que quatro álbuns da discografia da banda costumam garantir seu lugar: “Beneath the Remains”, “Chaos A.D.”, “Arise” e “Roots”, quase que invariavelmente.

Andreas Kisser, guitarrista desde 1987, ao lado do baixista Paulo Jr. – único membro remanescente da formação original –, do americano Derrick Green, que assumiu o vocal com a saída de Max Cavalera, e do baterista Eloy Casagrande, sustenta um dos mais icônicos nomes da cena extrema. Os trinta anos de estrada, cheios de projetos como o 13º disco de estúdio (previsto para 2017), um documentário e turnê conjunta com Lobão mostram que os esqueletos do passado já não rangem tão alto na sepultura.

Confira a entrevista completa que o guitarrista concedeu à Gazeta do Povo:

Trinta (e dois) anos de estrada. O que motiva uma banda como o Sepultura (que já conquistou tanto reconhecimento) a se manter consistente em um cenário tão exigente como o do metal?

Sem dúvida não é fácil. O Sepultura está chegando a 32 anos de carreira. São 76 países que a gente já visitou esses anos todos. Vimos várias mudanças – tanto de formação quanto de gêneros surgindo (new metal, grunge) como da própria indústria como a passagem do vinil para o CD e depois para o download – mas a gente tá aqui porque tem um sentimento puro por aquilo que a gente faz. Estamos sempre buscando lugares novos, bandas novas e é daí que vem as ideias novas, sem ficar preso no passado. Outro ponto é a força dos fãs. Lógico que a gente perdeu e ganhou fãs ao longo desses 32 anos, mas a gente tem uma base de fãs muito sólida que mantém a lenda viva, como motivação para criar.

Esse ano, inclusive, os fãs tem muitos motivos para comemorar. Além de estar rolando a turnê comemorativa de 30 anos de banda, também tivemos em fevereiro o aniversário de 20 anos do “Roots”, um dos discos essenciais do metal mundial. Como é para a banda saber que contribui de maneira tão consistente para a história da música?

Serviço

Sepultura 30 Years

Local: Trésor Eventos (R. Des. Westphalen, 4000, Rebouças)

Data: 16/12/2016, às 23h59

Ingressos: Entre R$ 40 e R$ 140

www.diskingressos.com.br

Isso é fantástico. Dentro da arte existem esses ciclos de influência com uma banda influenciando outras. Nós fomos influenciados por bandas que vieram antes e acabamos influenciando elas. O Glenn Tipton [guitarrista do Judas Priest] falou que o “Chaos A.D.” foi uma influência pra ele. Isso significa que a gente tá mostrando algo novo no cenário. O fato de a gente ter vindo do Brasil e levado para a música esses elementos do nosso cotidiano e da nossa cultura trouxe uma alquimia diferente para o nosso som e acabou mostrando outras possibilidades para a música pesada.

O “Roots” é um disco fantástico. Depois de 20 anos ainda existem muitas bandas que o colocam como influência fundamental. As músicas são muito fortes, com a busca por equipamentos mais vintage sem ficar preso aos computadores para conseguir aquela sonoridade. Sem dúvida, um disco ainda muito atual. Agora que a gente vai lançar o disco novo [o “Machine Messiah”] é bom olhar pra trás e ter essa motivação de ter feito coisas tão relevantes para a música.

A história da banda é marcada pelo experimentalismo. E já que vocês estão com esse olhar lá no futuro, o que falta para o Sepultura experimentar ainda?

Na música as oportunidades vão aparecendo, isso não faz parte de um plano. O objetivo é sempre explorar influências novas, colocar pra fora a criatividade e ser o mais honesto possível com o que a gente acredita, sem procurar copiar fórmulas do passado na tentativa de recriar coisas que não estão mais aqui. Respeitando isso a gente pode levar a música para qualquer lugar. Pode ser que a gente ouça críticas – e os fãs sempre crescem junto com a gente – mas a gente não está aqui para agradar todo mundo, o lance é se comunicar com quem está aberto a isso. E curtir, porque no final das contas é isso: cantar as letras, suar, mosh pit...

Foi difícil condensar 30 anos em um setlist?

Com a qualidade de repertório que a gente tem nas mãos, esse é o menor dos problemas [risos]. A gente consegue diversificar entre coisas mais rápidas, com percussão ou mesmo acústicas, mais “groovadas”, mais melódicas, a parte boa é que já experimentamos de tudo. Esse processo lembra um pouco o de composição, é importante deixar as coisas de maneira fluida. Um bom exemplo é abrir o show com “Troops Of Doom” [do álbum “Morbid Visions”]. Ela causa aquele impacto logo no início, que funciona como a própria intro do show. A gente traz o público mais nostálgico pra perto, e ganha a participação dele já no começo, depois deixa fluir.

Recentemente o Jonathan Davis, vocalista do Korn, declarou que o “Roots” seria uma “cópia descarada” do disco de estreia da banda dele, devido à atuação de Ross Robinson nos dois trabalhos. Como você recebeu essa declaração?

O “Roots” é muito mais do que a influência do Korn. Ele tem a influência da música brasileira. Uma música como “Attitude”, por exemplo, não caberia num disco do Korn. O groove que uma “Roots Bloody Roots” tem é natural, o Korn não tem, porque é uma coisa brasileira.

Claro que o perfil do produtor tem influência se você pegar um disco do Alice Cooper produzido pelo Bob Ezrin e comparar com outro do Kiss, com quem ele também trabalhou. Você vai encontrar ali uma espécie de assinatura, que vem do jeito como ele entende a música, a sonoridade... Principalmente naquela época. Eu achei um pouco exagerada a declaração, a gente nunca negou nossas referências, mas temos outras como Chico Science e Raimundos, que o Korn nem deve conhecer. Ele participou do disco, estava lá com a gente e na época não me pareceu que fosse algo que o incomodasse.

Além dos shows, está rolando a produção de um documentário que pretende contar a história da banda. Como está o andamento? Podemos esperar pela participação dos irmãos Cavalera?

Tá em fase final de edição. Tudo indica que o filme vá sair ano que vem, não sei o mês ao certo. São quase seis anos pesquisando nossa história, com todos os altos e baixos. Sobre a participação deles [Max e Igor, membros da formação original que, devido a desentendimentos partiram para carreira solo], o diretor tentou várias vezes o contato, mas decidiram não participar. A intenção nunca seria de lavar roupa suja, até porque seria necessário um juiz pra dizer o que foi verdade ou não, mas pra gente não interessa esse ponto. A ideia era mostrar os projetos atuais deles, mesmo assim decidiram não participar, eu respeito a decisão deles.

E essa turnê conjunta com o Lobão?

O Sepultura está acostumado a fazer coisas assim, como o show com o Zé Ramalho, com grupos percussivos, além de uma versão de “Ciranda Cirandinha” para televisão e até a apresentação com Carlinhos Brown no carnaval do Rio. É uma possibilidade de aproximar os públicos e fazer algo diferente.

Pra fechar, que banda da nova safra do metal você enxerga com potencial de perdurar por 30 anos assim como o Sepultura?

Eu acho que todas. Depende muito do dia a dia e da paixão por aquilo que se faz. Uma carreira longeva é mais questão de respeito com seus parceiros, com o público, e de trabalhar muito, conhecer o business e se preparar o máximo possível para uma carreira como essa do que qualquer outra coisa. O próprio Krisiun, por exemplo, é uma banda super organizada, são três irmãos que se respeitam muito e conseguem fazer disso uma banda de sucesso. Não sai da estrada, toca no mundo todo e tá aumentando sempre sua base de fãs. Acredito que seja uma banda que tenha esse potencial de chegar muito longe.

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