Sharon Jones em ação após se tratar do câncer: cantora dizia que quando se apresentava no palco, a dor desaparecia.| Foto:

Sharon Jones morreu aos 60 anos em 18 de novembro do ano passado, após uma longa luta contra o câncer, e deixou um legado fundamental para a música norte-americana. Antes disso, a premiada cineasta Barbara Kopple (vencedora do Oscar de melhor documentário por “Harlan Country, U.S.A”, de 1976 e “American Dream”, de 1990) reuniu uma parte de sua história no documentário “Miss Sharon Jones!”, disponível na Netflix.

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O filme retrata o período entre o tratamento da doença, descoberta em 2013, e o retorno da cantora aos palcos. Ao lado da banda The Dap-Kings, Sharon lançou discos que já podem ser considerados clássicos do soul e R&B, como “I Learn the Hard Way”, de 2010.

No depoimento de abertura, um empresário e amigo relata as primeiras percepções de que algo não ia bem com a saúde da cantora. Na época, a banda se preparava para o álbum “Give the People What They Want”, gravado em 2014. Depois dos exames, veio a confirmação de um câncer no pâncreas. A sequência do documentário é forte: sessões de quimioterapia, discussões sobre o cancelamento de turnês.

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No dia em que raspou o cabelo, por causa do efeito dos medicamentos, Sharon Jones chorou segurando as pequenas tranças nas mãos. Depois, disse para o cabeleireiro: “Se puder, procure no Google ‘Sharon Jones and The Dap-Kings’. Você vai ver o que eu faço”. Apesar de ser uma grande artista com muitos fãs espalhados pelo mundo, ela não tinha grandes sucessos no rádio, e vinha da Daptone Records, uma pequena e renomada gravadora no Brooklyn.

Uma batalha de 30 anos

A trajetória de Sharon até se consolidar com os Dap-Kings não foi fácil. Foram mais de 30 anos de batalha, em que cantou em bandas de casamento e trabalhou como agente penitenciária. Na década de 1980, ela ouviu do executivo de uma grande gravadora que era “escura demais e baixa demais” para ser uma estrela da música. Grande fã de James Brown, nunca fez aulas de canto e, ainda assim, tinha uma das vozes mais valiosas do soul.

Ela se referia aos colegas de banda como uma família – os próprios parentes da cantora pouco aparecem no documentário. Os Dap-Kings estavam preocupados com a amiga debilitada, mas também com os shows – fundamentais para sustentar uma gravadora pequena – que precisaram ser cancelados. O filme é bastante íntimo, o que causa até certo desconforto em algumas situações, por mostrar tão de perto momentos críticos do tratamento.

Após essa etapa registrada no documentário, em setembro de 2015 Sharon revelou que a doença havia voltado. Sua morte, pouco mais de um ano depois, causou uma comoção que nem mesmo a banda esperava ser tão grande. Gabe Roth, um dos fundadores da Daptone Records, divulgou em dezembro uma carta de agradecimento pela enxurrada de mensagens de carinho que chegou à gravadora depois da notícia, e se mostrou surpreso com a quantidade de encomendas na sua loja online desde então, num volume que eles nunca haviam visto.

Pelo menos dois momentos fazem valer o filme: um deles mostra Sharon cantando o hino gospel “His Eye is on the Sparrow” em uma pequena igreja. O outro é um registro precioso da artista no palco para a primeira apresentação depois da cura, em Nova York. Ainda insegura sobre seus limites físicos, mas completamente entregue ao que mais amava fazer. Além da potência vocal, Sharon entra para a história pela performance. Ela esteve em Curitiba em maio de 2015, com um show que deixou todo mundo cansado de tanto dançar – menos ela, enérgica até o final, com seus passos fortes no palco do Teatro Guaíra. Normal para quem dizia que, quando se apresentava, a dor desaparecia.

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