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Erasmo Carlos segue na ativa prestes a completar 76 anos de idade | Cesar Ovalle/Divulgação/
Erasmo Carlos segue na ativa prestes a completar 76 anos de idade| Foto: Cesar Ovalle/Divulgação/

Devo ser careta em muitas coisas. Só que não me importo em nada com esses rótulos, que são preconceituosos. Obrigam você a estar no politicamente correto.

Erasmo Carlos cantor.

“Ouço do jeito moderno”, conta Erasmo Carlos sobre o motivo da aposentadoria de sua coleção de vinis. “MP3?”, aposta esta anacrônica repórter. “Meu bem, eu faço playlists! ”, corrige rapidamente, tão astuto agora, perto de completar 76 anos, quanto na época em que formou o ‘conjunto’ Os Snakes na Tijuca. Nesta segunda-feira (27), o Gigante Gentil apresenta repertório baseado no álbum homônimo no Psicodália, em Rio Negrinho (SC), e exibe sua experiência em eventos do tipo, onde a música disputa a atenção com os muitos estímulos do entorno.

“As pessoas vão lá para ouvir música, para se divertir, para azarar... Em alguns festivais, para fazer amor, por que não? Vão procurando a mais completa paz que a música pode transmitir. É um espetáculo sempre maravilhoso”, empolga-se o compositor.

Em 1985, o Tremendão enfrentou as vaias dos fãs do rock na primeira edição do Rock in Rio, em 1985. “Abriu”, em duas noites diferentes, para atrações como Queen, Iron Maiden, Whitesnake, AC/DC, Scorpions e Ozzy Osbourne. Mas nada que se compare às experiências na década anterior. “Ih, eu toquei em uns antes. Nos amadores”, relata. “Porque antes, no tempo da ditadura, isso era impossível ter no Brasil, um festival deste naipe. Nos anos 1970 houve os pioneiros, que começaram com essa ousadia”, diz Erasmo, citando os festivais de Águas Claras, no interior de São Paulo e de Guarapari, no Espírito do Santo. Este último, realizado em 1971, pretendia ser a resposta brasuca a Woodstock, que aconteceu dois anos antes.

O próprio Erasmo comprova alguma semelhança com o evento norte-americano, realizado no interior de Nova York. “Tinha até bebês antigamente. Na fase hippie, tiveram muitas passagens maravilhosas: as pessoas na rede, tomando banho, na lama, vendendo artesanato, a dificuldade da alimentação, tudo isso tornou uma aventura maravilhosa, linda e inesquecível”, romantiza.

Careta

Considerado um cara moderno há tantos anos, o Tremendão não se lembra de ter sido acusado de ‘careta’ em nenhuma época, mas mesmo assim desconfia de que nem ele está imune a esse julgamento. “Devo ser careta em muitas coisas, mas não sei qual são. Só que não me importo em nada com esses rótulos, que são preconceituosos, inclusive. Obrigam você a estar no politicamente correto. Eu detesto essas coisas todas”, afirma.

O psicanalista diário é o travesseiro, diz ele. E a terapia fica por conta das composições. Ele diz não se policiar muito. “Já me expus em muitas músicas. ‘Maria Joana’ (do disco ‘Carlos, Erasmo’, de 1971), por exemplo, que fala sobre maconha. Foi censurada, banida das rádios e dos shows. Estou sujeito a críticas. Mas não penso nisso porque tolheria minha criação. A autocensura é pior do que a externa”, relata.

Bossa nova e rock n’ roll

Se a caretice não é um crime do qual ele possa ser acusado, ele segue um conservador no que se refere às músicas que lhe seguem significativas. Todas gravadas até os anos 1970. “Quando eu quero ouvir música em casa, eu vou no meu baú. São coisas que eu curto mesmo, que me arrepiam, que me fazem chorar, sabe? Dos anos 1970 pra cá nada mais me arrepiou, nada mais me comoveu tanto. Ouço novas coisas por aí, até como informação. Mas, arrepio, nunca mais eu tive, não”, relata.

Tom Jobim, que ele considera o maior compositor ‘da face da Terra”, continua na lista. “Tudo dele soa inédito para mim, nada me deixa enjoado”, diz. No rock, ele segue fiel a Elvis Presley, Little Richard, Fats Domino, Jerry Lee Lewis, Creedence Clearwater e às estrelas da gravadora Motown, como Ray Charles e Aretha Franklin.

A coleção de vinil, citada acima, gira hoje em torno de 1.000 bolachas, diminuída após “uma grande peneira”, que ele pretende repetir até reduzir a discoteca a mais ou menos 300 discos, já que a praticidade do streaming o fisgou de vez. “Facilita. Não preciso ficar levantando e trocando, levantando e trocando”, diz.

O álbum “Gigante Gentil” (2014), batizado com o apelido que ganhou da cantora Lucinha Turnbull, foi produzido pelo músico Kassin, que tem trabalhado com nomes da geração contemporânea como Marcelo Jeneci, Vanessa da Mata e Clarice Falcão. Mas o encontro não demandou grandes. “A gente entra no estúdio, dá o tom da música e vai fazendo. Não pensamos em fazer uma ‘sonoridade nova’. A gente faz o que sente. Essas mudanças são os novos que fazem. Os estabelecidos não criam mais. Eu faço músicas, mas novas sonoridades ficam com as próximas gerações. Fiz minha parte na minha época.”

Minha Fama de Mau

A adaptação para o cinema da autobiografia “Minha Fama de Mau”, dirigida por Lui Farias, deve finalmente estrear nos cinemas em 2017. O Tremendão, porém, preferiu não se envolver na produção. “A única coisa que eu fiz foi escrever o livro. Não dei palpite nenhum. Me consultaram algumas vezes para o roteiro, mas não encontrei o elenco e não quis ver nada. Vou ver junto com você”, afirma ele, que, na ficção, é interpretado por Chay Suede.

Para 2017, outra estreia tem mexido mais com Erasmo. A de poeta. Está previsto para o fim do ano o lançamento de seu livro de poesias, produzidas no último um ano e meio. “Eu fui descobrindo isso agora, eu não sei ainda qual é a minha linguagem. São mais ‘crônicas poéticas do que poesia pura. Sou um cronista da vida, eu conto histórias da minha vida”, diz ,e conclui: “Meu estilo, de repente, é esse. Eu não consigo fugir disso”.

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