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LANÇAMENTO

Leonard Cohen, que também merece o Nobel de Literatura, lança novo álbum

Aos 82 anos, o canadense faz sua reentrada na cena com ‘You want it darker’, coleção de oito canções

Leonard Cohen: três álbuns nos últimos quatro anos | Mario Anzuoni/Reuters
Leonard Cohen: três álbuns nos últimos quatro anos (Foto: Mario Anzuoni/Reuters)

Uma semana depois dos incontáveis debates sobre literatura e canção suscitados pelo Prêmio Nobel concedido a Bob Dylan, o mundo pop voltou a ser chacoalhado com o lançamento do disco de inéditas de um reconhecido poeta que encontrou a imortalidade no campo da música popular. Aos 82 anos, o canadense Leonard Cohen faz sua reentrada na cena com ‘You want it darker’, coleção de oito canções (mais uma faixa orquestral, feita em cima da composição ‘Treaty’). É o 14° álbum de uma carreira iniciada em 1967 com ‘Songs of Leonard Cohen’ (quando ele já era um premiado poeta, bem passado dos 30 anos) e o terceiro de um surto tardio de criatividade (e de atividade nos palcos) que se seguiu à descoberta de que suas economias haviam sido dilapidadas pela ex-empresária.

Assim como ‘Old ideas’ (2012) e ‘Popular problems’ (2014), ‘You want it darker’ é um disco em que o instrumental mínimo e os temas musicais simples e hipnóticos estão ali para destacar a escura e cavernosa voz de Cohen e a sua poesia, sempre afiada e rigorosa. O coral da Montreal’s Shaar Hashomayim, a sinagoga que o artista frequentava na juventude, responde pelo primeiro som que se ouve na faixa-título. Uma pulsação de baixo, bateria e órgão à la Massive Attack se inicia pouco depois, preparando o clima para os primeiros e arrepiantes versos do disco, ditos naquele tom soturno que influenciou Nick Cave e tantos outros trovadores dark: “Se você é o carteador, eu estou fora do jogo/ se você é o curandeiro, isso significa que eu estou quebrado e esfarrapado/ se a tua é a glória, então a minha deve ser a vergonha/ você quer mais escuro/ apagamos a chama”.

Referências bíblicas

A participação do coral da sinagoga e as referências bíblicas na faixa levaram, na semana passada, em uma coletiva de imprensa, a que fossem feitas perguntas acerca da religiosidade de Cohen (que, aliás, na década de 1990 chegou a passar cinco anos recluso em um templo budista). “Nunca pensei em mim mesmo como uma pessoa religiosa. Eventualmente, senti a graça de uma outra presença na minha vida, mas não pude elaborar qualquer tipo de estrutura espiritual a partir disso”, garantiu. “Essa paisagem bíblica é muito familiar para mim, e é natural que eu use esse marco como referência. Houve um tempo em que essas referências eram universais e todos as entendiam, sabiam delas e conseguiam localizá-las. Não é mais o caso nos dias de hoje, mas essa ainda é a minha paisagem.”

Um pouco de melodia se insinua na voz de Cohen na segunda faixa do disco, a balada de piano ‘Treaty’, em que ele confessa: “Queria que houvesse um acordo, queria que houvesse um acordo entre o seu amor e o meu”. Vocais soul dão um certo colorido a ‘On the level’, que trata do velho embate entre o desejo e a renúncia (“virei as costas para o demônio/ virei as costas para o meu anjo também”). E ‘Leaving the table’ funciona bem como faixa de encerramento do lado A de um LP: um rock lento, anos 1950, cantado por um homem de 82, entre o melancólico e o conformado: “Estou deixando a mesa/ estou fora do jogo”.

Um lado mais solar (no quanto isso é possível em um disco de Leonard Cohen) se faz presente na quinta faixa de ‘You want it darker’: ‘If I didn’t have your love’, canção de amor ornada por órgão soul, na qual a voz destroçada escala versos como “se o sol perdesse sua luz/ e vivêssemos uma noite sem fim/ e não houvesse mais nada que você pudesse sentir/ assim é que seria/ assim que minha vida ia parecer/ se eu não tivesse seu amor para torná-la real”. Em seguida, com toques italianos de bandolim, violino, piano elétrico e coros femininos, “Traveling light” roça o blues e beija a solidão com uma voz mais enterrada na lama do que de costume.

O coro da sinagoga volta em uma das melhores faixas do disco, ‘Seemed the better way’, outra das canções de um homem em seu crepúsculo, na qual emergem referências bíblicas: “Parecia o melhor jeito/ quando o ouvi falar pela primeira vez/ mas agora é muito tarde/ para dar a outra face”. Já ‘Steer your way’ (penúltima faixa do disco, que encerra com a versão orquestral de ‘Treaty’ e a frase de Cohen “queria que houvesse um acordo que pudéssemos assinar”) é outra em que a melodia quer abrir caminho para um coração que se move na escuridão: “Dirija através da dor que é muito mais real do que você/ que quebrou o modelo cósmico, que cegou cada visão/ e por favor, não me faça ir lá, haja ou não um Deus”.

A fábrica de Cohen continua aberta, mas não espere outro disco tão cedo. “Sou muito lento. E a canção vem meio que por pingos e gotas”, disse, na coletiva. “Algumas pessoas são agraciadas com um fluxo. Algumas pessoas são agraciadas com algo menos que um fluxo. Sou uma dessas.”

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