
Quando eu tinha 18 anos, em uma visita ao meu tio paulistano, ganhei dele uma fita cassete gravada. De um lado, Lou Reed. De outro, Bob Dylan, Desire (1976). "One more cup of coffee for ago". Eu aguardava ansioso essa música quando saía com meu Gol prateado. Passei a garimpar vinis dele. Meus amigos, meus irmãos também, e minha namorada, não compreendiam a fascinação crescente. Ele tinha uma voz esquisita, tocava gaita estranhamente e, de verdade, não esboçava a simpatia desses assimilados velhos ídolos do rock-and-roll era apenas um velhote.
Mas em toda festa na casa de meus pais, fazia questão de colocar pra correr os vinis dele, o primeiro disco, Bob Dylan (1962), com "Man of Constant Sorrow", "Song to Woody", e também o New Morning (1970) , era uma belezinha alaranjada, sorte das sortes, comprada em um discos usados em uma galeria próxima ao Museu de Arte Contemporânea. Pensava: meu deus, um judeu preto, uma estrela na constelação dominada pelos negões. Bob Dylan, o ímpar.
Certa vez, em uma loja de camisetas de banda de rock, perguntei se tinha uma que estampasse o nome dele e eu já era um velho de mais de 20 anos, mas não tinha medo de ficar com cara de bocó andando com uma camiseta de rock e o vendedor prontamente me respondeu: Tem do Bob Marley, serve? Devia servir, mas não me interessava.
Aliás, nada mais sobre ele me comove. Livros, textos, shows filmados, documentários, biografias, poesias, sua vida ou este texto aqui: tudo é uma grande porcaria! Peguei certa ojeriza a isso. Parece que hoje, qualquer coisa que possa emergir é diabolicamente acompanhada de entulhos, devidamente apreciados pelo jornalismo cultural. Depois ainda a obra é classificada, simplificada, categorizada e contextualizada. Por isso Bergman, Kurosawa e Fellini foram morar na ilha do silêncio, não? Você vibra com a vida moderna?
"Its Alright, Ma", de Bringing It All Back Home (1964). Pegue um desses dias bem frios em Curitiba, céu azul ok, pode estar nublado um fim de tarde, começo da noite, acenda um cigarro não light, ligue esta música em seu fone, dê longas tragadas para que a nicotina acerte em cheio. E ande a pé por um bom tempo, em direção a lugar algum. A música dele tem materialidade, é áspera. É doce!
Qualquer canção dele ou tocada por ele me parece levar a uma reminiscência de um grande amor de todas, destaque para aquela do primeiro disco, que fala que ele dirá tchau ao Colorado, que seu rosto jamais ele verá, mas que ele a encontrará no paraíso dourado. Mas o destinatário das músicas dele me surpreende até hoje. Ele fala a um Outro que não esse que me lê, que dificilmente poderia se alcançar juntando letras em palavras e palavras em frases: não tente cantar junto, Bob Dylan é apenas e tão-somente para ouvir.
Quando ele se for, não sei o que será da arte. A música acabou faz tempo, alguém duvida disso? Ficou isso que vocês estão vendo. Quanto menor o atrito, maior a velocidade de circulação. Aos que restarem, agarrem os últimos vinis, resquícios daquela antiga civilização. Um dia perguntei ao Luiz Calanca, na Galeria do Rock, em São Paulo, se poderia me indicar novos sons: Não. Estou nos anos 1960, caminhando para trás.
A arte de Dylan contrasta com a arte feita sob demanda e com a liberdade como a capacidade de escolher. Afinal, a liberdade nada teria a ver com possibilidades, ou com a livre-escolha. Ela tem a ver com tentar realizar sem trégua nossa própria essência, "um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões", como disse Guimarães Rosa. Isso, na trajetória e nas músicas de Dylan, é evidente: a luta para seguir sendo um sujeito desejante! Sim, existe diferença entre o homem e a mulher. Sim, sempre coube ao Homem deixar seus rastros, não olhar para trás, perder o endereço de casa, perseguir uma Outra coisa.
As palavras têm muito mais de um sentido, elas comportam todas as outras. E mais do que isso. Comportam algo muito além do sentido. Elas não denotam nada! São um caco de espelho, um fragmento da complexa ordem psíquica de um sujeito desejante. Viva Freud! Ouça Dylan!



