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poesia

O lobo solitário da canção

Com suas letras poéticas e pungentes, Bob Dylan tocou fundo os corações e mentes dos anos 60

Manuscrito original da canção “The Times They Are A-Changin’”: dilemas existenciais sintetizados em canções aparentemente simples | Reprodução
Manuscrito original da canção “The Times They Are A-Changin’”: dilemas existenciais sintetizados em canções aparentemente simples (Foto: Reprodução)

"How does it feel, to be on your own, with no direction home, like a complete unknown, like a rolling stone?"

A tradução trairá sempre, mas basicamente quer dizer: "O que é que você sente, sozinho na rua, sem o caminho de casa, um desconhecido completo, uma pedra que rola?"

Nem os textos mais intelectualizados — A Náusea de Sartre, O Estrangeiro de Camus, A Metamorfose de Kafka; The Outsider de Colin Wilson; The Lonely Crowd de David Riesman; The Divided Self: an Existential Study in Sanity and Madness de Ronald D. Laing; e compêndios de Althusser, Barthes, Foucault, Lacan e Marcuse — foram capazes de expressar tão admiravelmente a sensação de estranhamento do homem do século 20 como estes versos.

Quem conseguiu o prodígio de sintetizar nosso dilema existencial em canções aparentemente simples e universais foi Robert Allen Zimmerman, neto de imigrantes judeus russos, nascido há 70 anos num buraco no centro-norte dos Estados Unidos — Duluth, Minnesotta. Com o codinome de Bob Dylan — quem ia querer ouvir Bob Zimmerman? — ele conseguiu isso com sua guitarra e sua voz, mais precisamente com o poder de suas palavras.

Se "Like a Rolling Stone" foi o hino do jovem alienado, "Ballad of a Thin Man" foi o retrato crucial do homem moderno isolado: "Because something is happening here/But you don’t know what it is/Do you, Mr. Jones?/Porque tem algo acontecendo aqui/Mas você não sabe o que é/Não é, Mr. Jones?" Chega a lembrar o depoimento mais literário de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot, com seu famoso final: "This is the way the world ends/Not with a bang, but with a whimper./Assim acaba o mundo/Não com uma explosão, mas com uma lamúria." O Apocalipse de Dylan — escrito 38 depois do poema de Eliot e 18 anos depois de Hiroshima — é também irônico, mas muito mais duro, em "A Hard Rain’s A-Gonna Fall": "I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin’,/Heard the roar of a wave that could drown the whole world./Ouvi o som de um trovão, esbravejando um aviso,/Ouvi o bramido de uma onda que seria capaz de afogar o mundo inteiro." E ainda nem se conheciam os tsunamis...

[pop]poesia

O notável na [pop]poesia de Dylan é que ela funde vários elementos da experiência humana: o amoroso, o apocalíptico, o político, o social, o surreal. E, ao mesmo tempo, é às vezes extremamente autobiográfica. Não surpreende que uma de suas primeiras canções foi composta para Brigitte Bardot. Na época, todo garoto era apaixonado por BB. E Dylan era um garoto normal, que queria fazer rock ‘n’ roll, como Elvis. Mas algo o puxava para outro tipo de música. Em Hibbing, outro buraco, desta vez real, para onde a família se mudou — os habitantes locais chamavam a cidade, que vivia da mineração de ferro, de "o maior buraco já feito pelo homem", Bob passava horas sentado à beira dos trilhos pensando nas histórias que ouvia, de velhos vagabundos cortando a América em trens fantasmas. Quando ouviu Woody Guthrie – o ídolo folk que entalhou a canivete no violão a frase "Essa máquina mata fascistas" – Dylan escolheu o que ia fazer na vida: uma fusão do rock que estava nas paradas com a mensagem social e justiceira do folk. Vemos já o toque autobiográfico em "Song to Woody", de 1962: "I’m seein’ your world of people and things,/Your paupers and peasants and princes and kings."/"Estou vendo seu mundo de pessoas e coisas,/Seus pobres, camponeses, príncipes e reis." Do mesmo ano, "My Life in a Stolen Moment" pode ser adotada até pela mídia como um press release do músico: "Hibbing’s a good ol’ town/I ran away from it when I was 10, 12, 13, 15, 15¹/², 17 an’ 18/I been caught an’ brought back all but once/ (…) I started smoking at 11 years old an’ only stopped once to catch my breath./"Hibbing é uma cidade legal/Fugi dela aos 10, 12, 13, 15, 15¹/², 17 e 18 anos/Me pegaram e me levaram de volta todas as vezes, menos a última/(...) Comecei a fumar aos 11 anos e só parei uma vez para tomar fôlego."

Daria para escrever uma enciclopédia, várias teses de doutorado sobre a poesia de Dylan. Melhor curtir suas canções, na sua própria voz. O bardo, mesmo aos 70 anos, prossegue com sua Never Ending Tour, que em 7 de junho completa 23 anos na estrada, com a prodigiosa média de cem apresentações anuais. Vamos torcer para que esta sua Turnê Interminável passe, uma vez mais, pelo Brasil.

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