Genialidade natural: músico pernambucano faz muito com pouco| Foto: Felipe Campal/ Divulgação

Nata

A terceira edição do Pelotas Jazz Festival contou com apresentações de Richard Galliano, João Bosco, Trio Corrente, Egberto Gismonti, Naná Vascocelos, Hermeto Pascoal e Arismar do Espírito Santo.

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Rua do jazz

No Centro da cidade, um palco foi montado e, no seu entorno, barraquinhas de comida e de cerveja artesanal ajudavam no clima de festa democrática. Bacana ver como uma música entendida como "difícil" pode se oferecer de maneira tão natural.

Havaianas

Arismar do Espírito Santo é uma figuraça e o improviso é sua marca, até mesmo nas vestimentas: quando subiu ao palco principal na companhia de uma flautista e de um jovem bandolinista, calçava uma havaiana preta no pé direito, e outra branca no esquerdo.

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Sapatilha vermelha, xale amarelo, camisa branca. Naná Vasconcelos está sentado à direita de uma mesa de frutas, e à esquerda de uma porção generosa de queijos e salaminhos. Com o berimbau na mão em posição vertical e seu olhar vidrado e profundo, o pernambucano parece arremedar, na verdade, um mago na companhia de seu cetro. Os jornalistas presentes na informal coletiva de imprensa do músico teriam a certeza disso momentos depois do show xamânico que o percussionista realizou no último sábado, em Pelotas (RS), na noite de encerramento do Pelotas Jazz Festival.

Vamos lá. Naná, com oito Grammys na estante de casa, é o cara que tocou com o guitarrista Pat Metheny, com o violinista Jean-Luc Ponty, com o Talking Heads de David Byrne. Naná gravou com B.B King e fez trilha sonora tanto para o cult Jim Jarmusch (Down by Law) quanto para Hollywood (Procura-se Susan Desesperadamente). Jazz e pop. Para todos os efeitos e para além dos rótulos, Naná é música, simplesmente. Porque não faz sentido encaixotar um sujeito que coloca o berimbau (um dos símbolos da cultura folclórica do Brasil) como instrumento solo de numa orquestra (reduto da erudição).

O que o tornou tão requisitado e o inacreditável de seu show O Bater do Coração, derradeiro evento que o Theatro Guarany viu no festival, é a naturalidade com que Naná consegue criar um universo próprio de forma quase instantânea. E sozinho no palco.

Só com o berimbau, demonstra uma versatilidade incomum para um ser humano normal. Como se não bastasse, não se trata somente de talento genuíno e singular. Porque Naná usa com maestria o reverb do microfone, fazendo suas inserções vocais – ora guturais, ora melódicas – construírem um esqueleto moderno num corpo de poesia e ancestralidade.

Não foram poucas as vezes em que o percussionista invocou entidades de outros mundos e citou amigos músicos da África e de terras longínquas. Seu sincretismo musical é tamanho que Naná conseguiu até mesmo utilizar a própria plateia como instrumento melódico-percussivo – André Abujamra volta e meia se utiliza do recurso, mas em tom de entretenimento. Então, a pedidos do maestro, o Theatro Guarany virou o Rio Amazonas com a ajuda de assovios, esganiços, chiados e palmas pontuais.

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Naná explora o potencial visual da música. Quando mudava de instrumento – havia uma porção deles espalhados num tapete colorido –, era como se a cor do mundo também se alterasse. Para Naná, não se trata de quem toca mais rápido – estratagema recorrente na música instrumental. E não é preciso explicar nada para ninguém porque ninguém perguntou.

Ao fim do espetáculo, após citar Villa-Lobos no berimbau, uma plateia embasbacada tentava encontrar o rumo das coisas nesse mundo de verdade, sem esquecer daquele outro, naturalmente sobrenatural que haviam acabado de visitar.

O jornalista viajou a convite da Tim.