
Entre as qualidades de um artista cultuado costuma-se listar a originalidade. ("Ai! Ele inventa cada coisa!") Mas a capacidade de surgir com algo novo hoje em dia é, no mínimo, difícil e pensadores de diversos ramos das artes acreditam que seja até impossível. Se existe ou não algo de novo debaixo do Sol não interessa aos artistas e teóricos ouvidos pela Gazeta do Povo, e sim a complexidade da obra em si. E mais: cresce o número de críticos que veem na abundância de referências ao passado uma das principais qualidades de qualquer obra.
"A literatura não se caracteriza por ser original e por isso boa, e sim se constrói em um ambiente de diálogo", acredita o professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) João Cézar de Castro Rocha.
Apesar disso, ganham cada vez mais mídia as conferências com escritores, que as editoras gostam de incensar como novos gênios. O enfoque na personalidade do artista e a busca pela genialidade única remete à visão romântica de criador posição combatida no fim dos anos 1960 por teóricos de peso como Michel Foucault e Roland Barthes. A efervescência estudantil que armou barricadas e destronou poderes minou também o conceito de conhecimento tradicional, que incluía a ideia de um autor genial. Em 1967, Julia Kristeva propõe num ensaio o conceito de intertextualidade: um único parágrafo pode conter séculos de referências e isso é bom.
No ano seguinte, Barthes publica o artigo A Morte do Autor, pelo qual substitui o foco do Autor, com "A" maiúsculo, para a linguagem da obra em questão. Inconscientemente, cada autor, com "a" minúsculo, ou scriptor, como prefere Barthes, estaria dando voz a uma miríade de memórias artísticas.
Para arrematar, Foucault entra na discussão e profere uma conferência, em 1969, na qual questiona o que é um autor e que importância ele tem: na mira, estava o artista idealizado. O pensador francês também demonstrava no texto que, na Antiguidade, a autoria não era relevante, só passando a importar com o surgimento da prensa e a possibilidade de se punir alguém por transgressões escritas.
Subjetividade
O autor, com "a" minúsculo, não só está vivo como tem usado experiências próprias para criar obras potentes. Entre os exemplos citados pelo professor Rocha Castro estão o paulista Ricardo Lisias, que, em O Céu dos Suicidas, parte da morte de um amigo; Bernardo Carvalho, que em Nove Noites fala de um jornalista que entrevista Claude Lévi-Strauss, fato ocorrido com ele; e Miguel Sanches Neto, que no livro de contos Então Você Quer Ser Escritor? parte de seus próprios questionamentos profissionais.
"Depois das primeiras páginas, a ligação com a realidade pouco importa. O que realmente importa é o próprio romance", defende Rocha.
Citar a si mesmo não deve ser entendido como síndrome de Narciso, e sim mais um elemento no saudável diálogo que a literatura brasileira vem sabendo estabelecer a começar por Machado de Assis.
Em seu novo livro, Machado de Assis: Por Uma Poética da Emulação, que Rocha lançará no Teatro da Reitoria, no dia 10 de setembro (confira o serviço nesta página), o crítico defende que a competição com Eça de Queirós fez bem a nosso maior realista, ajudando-o a dar o passo, na década de 1880, rumo a uma literatura mais madura, do calibre de Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas neste último, Machado cita, só nas primeira páginas, o Pentateuco, Édipo Rei, Hamlet e Stendhal.
"O que Barthes escreve em 1968, Machado já havia intuído em 1880", brinca Rocha. Falando em originalidade...
Conceito de "gênio pintor" é contestado
Nas artes visuais, é possível dizer que, assim como na literatura, o mito da originalidade é perpetuado até por um interesse comercial: o inédito vende melhor. "Me recuso a pensar que algo único surge do nada", discorda o professor de Artes Visuais da UFPR Paulo Reis.
Com as devidas láureas a movimentos revolucionários como o cubismo de Picasso e Georges Braque, ele lembra que coleções de livros como Gênios da Pintura se baseiam no ideal do artista romântico. "Não considero nenhum artista um gênio. Todos produzem dentro de um processo, sem uma importância hierárquica."
As referências a obras de artistas anteriores são comuns nas visuais também. É o caso do trabalho do norte-americano Robert Rauschenberg De Kooning Apagado, de 1953, em que ele expôs um desenho do colega holandês Willem De Kooning em que só restavam as marcas após o uso da borracha.








