“Idiotas”, de 1991: figuras tristes e apáticas em um mundo cruel| Foto: Reprodução

Biografia

Gaúcho da interiorana Restinga Seca, Iberê Camargo nasceu em novembro de 1914 e morreu em Porto Alegre, em agosto de 1994. Passou grande parte de sua vida no Rio de Janeiro.

Legado

O artista deixou mais de 7 mil peças. A parte legada à sua esposa, Maria Camargo, foi incorporada ao acervo da Fundação Iberê Camargo.

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Agora que está bem abrigado em uma fundação à altura de sua grandiosidade, o acervo de mais de 4 mil obras deixado pelo artista gaúcho Iberê Camargo (1914 – 1994) à sua viúva, Maria Camargo, pode viajar pelo Brasil. E Curitiba é o ponto de partida da itinerância.

A mostra Iberê Camargo – Moderno no Limite está aberta no Museu Oscar Niemeyer (MON) – não houve abertura oficial da mostra por problemas de agenda dos curadores, que não puderam vir à cidade.

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A exposição é a mesma que inaugurou a Fundação Iberê Camargo, em junho deste ano, um edifício de R$ 40 milhões, às margens do Rio Guaíba, em Porto Alegre, assinado pelo arquiteto português Álvaro Siza. No entanto, chega a Curitiba mais enxuta – estão no MON 62 das 89 obras selecionadas pelos curadores Mônica Zielinsky, Sônia Salztein e Paulo Sérgio Duarte para compor o panorama inaugural da fundação.

Sem uma preocupação cronológica, a mostra apresenta desenhos e gravuras de todas as fases da trajetória artística de Iberê, do início da década de 1940 a meados dos anos 1990. A maior parte das obras pertence à Fundação Iberê Camargo, mas alguns trabalhos foram emprestados por colecionadores e instituições públicas de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Na juventude, o artista retratava paisagens em pinturas, desenhos e gravuras, em um período em que a arte ainda estava muito ligada aos modelos europeus, especialmente ao impressionismo e às questões acadêmicas. "Entretanto, Iberê apresenta, desde o princípio, uma obra agitada, que traz a nervosidade da pintura. Os desenhos magníficos, talvez, merecessem uma exposição à parte", afirma Mônica Zielinsky.

A curadoria procurou selecionar peças de momentos cruciais que atestam o vigor e a contundência com que o pintor respondeu às grandes transformações do século 20. Os trabalhos também expressam a exasperação e a incomunicabilidade do artista isolado – Iberê nunca se filiou a correntes ou movimentos, mostrando-se atraído por personalidades independentes como Guignard e Goeldi.

O artista gaúcho é conhecido principalmente pela recorrência obsessiva de signos nas suas séries de carretéis, ciclistas e idiotas. "Iberê obstinadamente buscou arrancar o carretel da condição de coisa. De certo modo, o objeto está presente na obra inteira do artista de diversas maneiras", salienta Mônica.

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Bicicletas e idiotas

A figura humana torna-se central na obra de Iberê a partir do início da década de 1980. O significado do carretel, no entanto, foi transferido para uma bicicleta jogada ao chão, uma escada pairando no vazio ou mesmo nos corpos inertes de suas figuras tristes.

As séries "Os Ciclistas", dos anos 1980, e "As Idiotas", do início da década de 1990, representam a fase final da obra de Iberê, que morreu de câncer aos 79 anos. São figuras tristes, com expressão de abandono e apatia, que materializam a tragicidade expressa em toda a sua obra.

"O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida", disse o pintor.