A escritora Ana Paula Maia é apontada como uma das mais importantes vozes da nova literatura brasileira| Foto: Marcelo Correa / Divulgação

A escritora carioca Ana Paula Maia é a convidada da próxima edição do Paiol Literário, que acontece hoje no Teatro do Paiol a partir das 20 horas. Com mediação de Rogério Pereira, editor da revista literária Rascunho e diretor da Biblioteca Pública do Paraná, a autora dos romances O Habitante das Falhas Subterrâneas, A Guerra dos Bastardos e Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos fala sobre a importância da literatura no mundo e responde perguntas da plateia. Ana Paula também participará amanhã do projeto Um Escritor na Biblioteca, evento promovido pela Biblioteca Pública do Paraná que convida autores a contar suas experiências como leitores e sobre a importância das bibliotecas em suas formações culturais.

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Apontada como uma das principais escritoras da nova geração, Ana Paula tem contos publicados nas antologias 25 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira e na italiana Sex ‘n’ Bossa. Em uma entrevista por telefone concedida com exclusividade para a Gazeta do Povo, a escritora fala das principais características de sua obra, além de suas preferências literárias.

Você é considerada uma das maiores vozes da literatura feminina contemporânea. A que você atribui esse sucesso?

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Eu acho que uma das características da minha literatura – e eu sou a primeira a reconhecer isso – é uma diferença de temática. O universo pelo qual eu transito é completamente diferente do das minhas colegas. Acho também que há uma diferenciação em termos de linguagem. É um texto mais cartesiano, mais objetivo e mais descritivo. Eu não trabalho muito na dimensão do pensamento, não há muitos subterfúgios. Eu acabo mostrando mais do que insinuando. Por isso as pessoas frequentemente relacionam a linguagem dos meus livros com o cinema.

Uma das maiores críticas que se faz a respeito da literatura feminina, em geral, é não conseguir entrar no universo psicológico masculino. Você, por outro lado, é reconhecida justamente por ter sucesso nesse aspecto. Qual é o segredo?

Acho que o segredo é a empatia com esse mundo. Não existe uma pesquisa nem nada do que você faça que gere esse tipo de entendimento. Eu faço pesquisas para coisas técnicas, mas esse espectro sentimental eu só descobri mesmo quando eu comecei a escrever: só saía uma voz masculina. Sei que sempre me senti bem aceita nesse universo, acho que isso contribuiu também.

Eu tenho uma impossibilidade de escrever na voz de outras mulheres porque sempre há um distanciamento muito grande entre a minha vida e as coisas sobre as quais eu escrevo. Não uso a literatura para resolver os meus problemas. Vou ali para investigar. A morte tratada na literatura, por exemplo, geralmente tem um aspecto metafísico e é narrada por alguém do ponto de vista da perda, seja por alguém que está morrendo ou por alguém que fica. Eu prefiro tratar do universo físico, de tratar da morte material. Descortinar esse tipo de coisa é uma algo que incomoda às vezes, porque falta o hábito de ler coisas assim. Alguns autores gostam de maquiar a morte e o suicídio de uma maneira muito poética. A literatura assim, ganha o poder de encobrir, ao invés de mostrar.

Você gosta de pesquisar sobre os assuntos que escreve. A ficção, para você, é uma extensão ou uma extrapolação da realidade?

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Eu acho que ela pode funcionar das duas formas. Em geral, ela é uma extensão da realidade, mas eu gosto de extrapolar, gosto de ir até o ponto máximo, até o limite. Mas eu não faço uma literatura do absurdo, não saio do plano real. Extrapolo a realidade ao mostrar às pessoas o que elas não têm o hábito de ver. A literatura coloca uma lente de aumento em cima do que está sendo tratado, e quando você tira esse véu, o assunto se torna muito maior.

Existe alguma escritora que você admire hoje? Quais são suas principais referências literárias?

Uma autora de quem eu gosto bastante é a Lygia Fagundes Telles. E a patrícia Mello é muito boa também. Mas eu li muito pouca literatura feita por mulher. Eu li Clarice [Lispector], por exemplo, e gosto do texto, mas a história simplesmente não me leva por ser muito pouco objetiva.

Hoje em dia eu gosto do Campos de Carvalho, descobri ele há uns 3 anos e hoje a literatura dele tem uma influência muito grande no que eu faço. Ele caminha pro lado do abusrdo, que é algo de que eu fujo, mas eu gosto de autor que tem humor, mesmo que seja um humor negro. Dostoievski, John Fante, Campos de Carvalho, Julio Verne, são autores de quem eu gosto muito por esse fator. Ter um pouco de humor dentro desse universo muito pouco favorável ao riso é uma tendência do meu texto também.

Serviço

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Paiol Literário – Ana Paula Maia. Teatro do Paiol (Lgo. Guido Viaro, s/n.º), (41) 3213-1340. Dia 5, às 20 horas. Entrada franca.