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Novo museu trata da memória do Brasil

Espaço Olavo Setubal, inaugurado pelo Itaú Cultural no centro de São Paulo, é um modo singular de narrar a história cultural brasileira

  • Daniel Zanella, especial para a Gazeta do Povo
Escadaria do Espaço Olavo Setubal, novo museu do centro de São Paulo, é cercada por retratos naturalistas |
Escadaria do Espaço Olavo Setubal, novo museu do centro de São Paulo, é cercada por retratos naturalistas
 
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Novo museu trata da memória do Brasil

O pintor e aquarelista Bernhard Wiegandt (1851-1918) foi um desses aventureiros que vieram ao Brasil para ver com os próprios olhos as paisagens que alimentavam a imaginação (fértil) dos europeus. Apesar de ser de uma segunda leva de naturalistas – a primeira turma tomou de assalto o país após a vinda de mala e cuia da Corte Real Portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808 e a posterior abertura de nossos portos –, Wiegandt desbravou.

O jovem alemão foi das extremidades do Pará aos limites do Paraná, realizando algumas pinturas históricas, como Cataratas do Iguaçu, de 1878, o primeiro quadro a óleo do cartão-postal paranaense. Sua obra foi redescoberta há pouco tempo por um engenheiro dado à erudição, que, entre outras coisas, era também banqueiro. Hoje ela está devidamente contextualizada no novo endereço cultural do Itaú, o Espaço Olavo Setubal, no comecinho da Avenida Paulista.

Dividido em nove núcleos e dois andares, o Espaço, aberto para o público desde ontem, é composto de 1,3 mil obras, formando o que convencionamos chamar de Brasiliana: uma coleção de diversos materiais visuais e documentais relacionados à nossa história. De pinturas de Debret, Rugendas e Righini a registros sobre períodos obscuros, como a escravatura e a surreal tomada de Pernambuco por uns holandeses meio amalucados, o local desnuda um país que passou por transformações intensas e ainda hoje tem severas dificuldades para compreender (e reconhecer) seu próprio passado.

Raridades

Com o arriscado propósito de ser um museu permanente, ou seja, que não recebe novas exposições, apenas aquisições pontuais, o Espaço compilou um acervo original de mais de dez mil itens adquiridos por Setubal, entre telas, aquarelas, desenhos de artistas viajantes, gravuras, primeiras edições de obras canônicas da literatura brasileira e encadernações raras.

“Buscamos eliminar uma lacuna existente em nossa cultura. Se o brasileiro ou um estrangeiro quiser saber o que foi feito, em matéria de arte, no Brasil ou sobre o Brasil, agora ele tem uma referência”, alega Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, mantenedor do acervo.

Apesar da vastidão documental, o que poderia resultar num almanaque disperso, Setubal era reconhecido por ser um comprador de arte sistemático – seu primeiro quadro adquirido foi Povoado Numa Planície Arborizada, de Frans Post, óleo sobre madeira feito entre 1670-1680, um dos mais valiosos registros do nordeste brasileiro. Contudo, organizar seu universo de aquisições trouxe uma série de dificuldades aos curadores. Não à toa, tudo levou aproximadamente cinco anos para ficar pronto.

“Naturalmente, uma coleção particular que se torna uma exposição permanente sofre por não ter acesso a peças importantes de períodos ainda pouco estudados, além de não renovar a atenção periódica da mídia. Mas o que estamos oferecendo aqui é uma importante e significativa leitura de país”, define o curador da Brasiliana Itaú Pedro Corrêa de Lago.

Além do acervo documental, o museu apresenta uma coleção extensa de Numismática. São moedas, medalhas, condecorações e barras de ouro que narram, por uma perspectiva singular, a história do Brasil. “Nós temos o maior acervo corporativo da América Latina. As nossas 395 peças contam, ao seu modo, um trajeto econômico, mas também artístico. E nós temos uma moeda raríssima, que é a Peça da Coroação. Só existem 16 exemplares dela no mundo”, conta Vagner Porto, curador do acervo de Numismática.

Exposições evisceram a história do país

O percurso artístico-histórico do Espaço Olavo Setubal inicia-se com Brasil Desconhecido, a série de relatos quase alienígenas do contato dos primeiros artistas europeus com os índios, geralmente retratados como terríveis canibais, e vai até Brasil dos Brasileiros, quando a república se consolida e passamos a nos ressignificar.

Se em 1592, as gravuras portuguesas mostravam índios em uma curiosa ceia recheada por cérebros, línguas e intestinos, no Brasil do século 20 nos deparamos com o primeiro número da Revista de Antropofagia, com o Abaporu de Tarsila Amaral na capa, imponente, anunciando um novo ciclo estético.

Contudo, de todos os módulos, o mais profundo é voltado ao Brasil da Escravidão, com uma galeria de documentos e cenas da vida cotidiana brasileira. É algo entre a tristeza absoluta e um sentimento de morte. Trecho de uma carta de negócios entre comerciantes: “Vendo o escravo com todos os seus vícios e achaques, novos e velhos, físicos e morais, tal qual o possuo pela quantia de um conto e setecentos e onze mil réis”.

O jornalista viajou a convite do Itaú Cultural.

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