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Cena de Limite, de 1930, primeiro e único filme realizado por Mario Peixoto, morto em 1992 | Divulgação
Cena de Limite, de 1930, primeiro e único filme realizado por Mario Peixoto, morto em 1992| Foto: Divulgação
  • Limite: modernidade no uso da câmera e da edição

Nova York - Para o crítico francês Georges Sadoul o considerava "uma obra de arte desconhecida" e voou para o Brasil, em vão, na esperança de ver a versão completa. Orson Welles, que esteve em território brasileiro no início dos anos 1940 para rodar um filme, viu a versão completa e classificou a experiência de "fabulosa". Mais recentemente, foram David Bowie e Caetano Veloso que propagaram suas qualidades.

Ao longo dos anos, o filme brasileiro Limite, rodado em 1930 pelo diretor Mario Peixoto (1908-1992), tornou-se uma espécie de lenda entre os cinéfilos, um filme mais comentado do que assistido. Mas agora existe uma versão completa, recém-restaurada, que é um dos destaques do festival da World Cinema Foundation, que começou semana passda na Academia de Música do Brooklyn e segue por mais 15 dias.

"Limite é um trabalho muito significativo dentro do cinema mundial, ainda mais levando-se em conta que ocupa um lugar único na história da cinematografia brasileira e mesmo mundial", diz Kent Jones, diretor-executivo da Fundação. "É uma obra gloriosa, um trabalho de beleza visual rara e artesanal que é até maior que sua reputação".

No conjunto, a retrospectiva mostrará uma dúzia de filmes que a fundação sem fins lucrativos ajudou a restaurar desde que foi fundada pelo diretor Martin Scorsese em 2007. Na sua carta de princípios, a fundação se descreve como "dedicada a preservar e restaurar filmes esquecidos de todo o mundo", e de uma forma ou de outra, todos os 12 filmes que estão sendo mostrados na sala da BAMcinematek se encaixam nessa categoria.

Além de Limite, o festival apresenta produções do Egito, Turquia, Índia, Senegal, Coreia do Sul, Hungria, Marrocos, Taiwan, México e Cazaquistão, alguns em cor e outros em preto e branco. Em estilo, eles vão de Trances, documentário sobre o grupo de música de raiz marroquina Nass el Ghiwane, feito em 1981, ao drama The Housemade, filmado na Coreia do Sul em 1960, com conteúdo pesadamente psicológico e sexual.

Para estudiosos do cinema, alguns desses filmes têm valor histórico notável. É o caso de Wave, feito no Golfo do México em 1936, em uma vila de pescadores. Equipe teve o renomado Paul Strand na direção de fotografia e, na direção, contou com Fred Zinnemann (que mais tarde ganharia o Oscar por A Um Passo da Eternidade) e Emilio Gomez Muriel. Wave foi o primeiro filme de Zinnemann.

Muitos dos trabalhos restaurados carregam uma consciência social rara nas produções da indústria americana. "A linguagem cinematográfica desses filmes é diferente daquela que seria usada por um cineasta americano?", se indaga Jones. "Sim, mas o que de mais importante nós estamos dizendo para o público é que se tratam de bons filmes, merecedores de nossa atenção, que chegam com a recomendação de Scorsese e que tinham poucas chances de serem vistos pelo público, ao contrário de uma obra de Truffaut, Antonioni, John Ford ou Howard Hawks."

Limite, com seu visual poético e abstrato, será exibido na próxima quarta-feira. Entre os filmes apresentados no festival, é dele, provavelmente, a história mais longa e complicada. Peixoto estava com apenas 20 anos e havia retornado da Europa quando fez o filme. Era uma produção doméstica em que exibiu suas preferências pela vanguarda. Acabou encontrando muita rejeição quando tentou exibir o trabalho comercialmente.

"Os exibidores tiveram medo que se repetisse com Limite o que aconteceu com o balé A Sagração da Primavera, de Stravinsky", diz Saulo Pereira de Mello, diretor do Arquivo Mario Peixoto, no Rio de Janeiro, se referindo aos protestos que ocorreram em Paris em 1913 quando o balé criado pelo compositor russo fez sua estreia.

"Este era um filme de vanguarda. As pessoas de direita, que dominavam a vida cultural brasileira da época, detestaram o filme de Peixoto e os distribuidores o consideraram muito difícil para o público", diz Mello.

Peixoto, membro de uma das famílias mais influentes do Brasil no começo do século 20, nunca fez outro filme (ele morreu em 1992), preferindo migrar para a literatura e para o teatro. Limite foi se tornando um filme cult, que era visto em cineclubes e no meio universitário.

Por volta da década de 1950, cópias de Limite tinham sumido ou estavam tão degradadas que o filme corria o risco de desaparecer. Trabalhos de restauração feitos com base no que se acreditava ser a única cópia começaram em 1959 e prosseguiram por décadas, mais recentemente sob a coordenação da Cinemateca Brasileira, que, em 1988, classificou Limite de "o maior filme brasileiro de todos os tempos".

Uma nova geração de críticos e cineastas também foi até Peixoto, entre eles Walter Salles (Central do Brasil, Diários de Motocicleta). Salles descreveu Limite como "um filme de poesia transcendente e imaginação sem limites" e estabeleceu o Arquivo Mario Peixoto em 1994 para proteger documentos, correspondência e outros objetos relacionados ao cineasta, a quem ele ajudou financeiramente nos últimos anos de vida.

O enredo de Limite gira em torno da mitologia e tem uma aura de mistério, diz Mello. "Agora que está restaurado, é quase como um novo filme, e o público pode apreciar toda sua grandeza. Mesmo com todos os ornamentos da década de 1930, a modernidade do uso da câmera e da edição se sobressai, o que explica porque os jovens sempre foram atraídos por ele."

Tradução de Marleth Silva.

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