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O impasse de Frans Krajcberg

O artista e a Fundação Cultural de Curitiba divergem sobre as condições de conservação e o destino das obras doadas à cidade

  • Luciana Romagnolli
Escultura suspensa por fio: descuido com o acervo de Frans Krajcberg, no espaço cultural que leva seu nome, motiva o artista a tentar reaver suas obras |
Escultura suspensa por fio: descuido com o acervo de Frans Krajcberg, no espaço cultural que leva seu nome, motiva o artista a tentar reaver suas obras
 
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O impasse de Frans Krajcberg

A situação do Espaço Cultural Frans Krajcberg, no Jardim Botânico, levou a um impasse complicado entre o artista, que doou 110 esculturas à cidade, e a Fundação Cultural de Curitiba, encarregada de conservá-las. O escultor polonês radicado no Brasil está convencido do descaso governamental com o acervo, e ameaça processar a prefeitura para reavê-lo.

Já há alguns anos, Krajcberg diz ter conhecimento do mau-trato com suas obras, mas a questão veio à tona com mais força na semana passada, a partir das imagens feitas pelo fotógrafo Orlando Azevedo, registrando a precariedade da manutenção do espaço. A pedido do escultor, ele foi à estufa na sexta-feira, dia 30 de maio. “Fiquei atônito com o que vi. É um espaço completamente abandonado, daquele que é sem dúvida o maior acervo de arte que existe no Paraná”, disse Azevedo à Gazeta do Povo.

O que viu, relata, foi descaso com a limpeza do policarbonato, a ausência da placa de identificação do espaço, esculturas descoladas e penduradas com fios. “A cidade ter esse patrimônio não cuidado é incompetência da tutela cultural. Qualquer cidade do mundo queria ter esse acervo”, opina.

Aos 89 anos, Frans Krajcberg se sente humilhado. Diz que não recebe notícias da Fundação Cul­­tural, e suas cartas enviadas à prefeitura teriam ficado sem resposta – o que Paulino Viapiana, presidente da FCC, nega. De acordo com o artista, a única vez que teriam entrado em contato com ele foi para propor um projeto, patrocinado pelo O Boticário, de construção de um outro local para suas obras, junto de uma “estação natureza” da empresa. O artista recusou.

Desolado com o que julga ser descaso com suas esculturas, Krajcberg não está mais disposto a negociar. “Chegou o fim da minha paciência”, diz. “Estão destruindo minha obra.” Ele quer suas esculturas de volta. “Vou processar a prefeitura”, avisa. Planeja vir a Curitiba no dia 15 de maio, contratar um advogado para isso.

Viapiana rebate que “a higienização e a conservação têm sido feitas periodicamente, mas o restauro foi sistematicamente negado por Frans Krajcberg”. As instalações do Espaço Cultural Frans Krajcberg, segundo ele, são inadequadas para a conservação do acervo desde a criação do local (não há controle de umidade nem de temperatura) , e por isso o estado das obras piorou com o passar dos anos.

Histórico

A relação de Frans Krajcberg com Curitiba começou pela exposição A Revolta, em 1995. Anos depois, Krajcberg aceitou uma proposta do então governador Jaime Lerner e prefeito, Rafael Greca, para fazer a doação de 110 esculturas. Pesou na decisão dele o fato de que Curitiba era tida como “capital ecológica”.

Em 2003, o decreto municipal criou o Espaço Cultural Frans Krajcberg, na estufa do Jardim Botânico. Pelo acordo, ficava a cargo da FCC a conservação do acervo e o restauro das peças, que só poderia ser realizado sob a autorização do artista. Quando Paulino Viapina assumiu a FCC, dois anos depois, providenciou um termo de doação das obras ao município.

Viapiana afirma que, ainda em 2005, a administração identificou necessidades de melhoria no espaço, que por abrigar peças feitas de matéria orgânica tem características museológicas particulares, de conservação complexa. Em 2006, o Iphan indicou uma consultoria especializada, que apresentou um laudo técnico orientando para a climatização e adaptação física do espaço, além do restauro de peças.

“Em 11 de novembro de 2008, conseguimos a liberação de R$ 306 mil do Fundo Municipal de Cul­tura, R$ 241 mil para o restauro das obras e R$ 65 mil para a readequação museográfica do acervo. Krajcberg não quis nem ver o documento, disse que ninguém mexeria nas obras dele”, diz Viapiana. Segundo o administrador, com a recusa do restauro, todo o recurso financeiro foi perdido. A segunda tentativa de acordo teria sido o projeto do Boticário.

O Espaço Frans Krajcberg foi fechado ao longo do ano passado, segundo Viapiana,“porque estava em situação muito ruim”. A reabertura se deu após “adaptações emergenciais”: pequenos consertos de iluminação e na parte elétrica, e a vedação de goteiras. “Hoje, estamos fazendo um projeto mais pé no chão, em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente, que esperamos concluir em um ou dois meses, para reforma do espaço, o que não precisa de autorização. Depois, vamos solicitar a autorização para o restauro das obras. Se ele não der, iremos à Justiça”, afirma.

Um lado nega as tentativas de contato que o outro diz ter feito. O município não pretende devolver as peças doadas. Krajcberg diz preparar os caminhões para retirá-las da cidade. Em torno de um acervo de beleza desoladora, armou-se um impasse que talvez só possa ser resolvido em uma disputa judicial.

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