Brasília Um dos maiores nomes do documentário do Brasil, Silvio Tendler é conhecido por retratar nas telas alguns dos principais personagens da História do Brasil. Foi assim com os presidentes Juscelino Kubitschek em Os Anos JK, uma Trajetória Política e João Goulart com Jango, sucessos de público que levaram, no total, quase 1,5 milhão de espectadores aos cinemas brasileiros na década 80. No currículo do cineasta, ainda há médias e longas-metragens sobre o escritor Castro Alves, o presidente Getúlio Vargas, o geógrafo Josué de Castro, o médico sanitarista Oswaldo Cruz, o guerrilheiro Carlos Marighella e o cineasta Glauber Rocha.
Tendler está no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro para lançar o inédito Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá, que será apresentado amanhã à noite no Cine Brasília. O documentário parte de uma longa entrevista com o importante geógrafo e intelectual brasileiro Milton Santos (1926 2001) para debater a globalização sob a perspectiva das periferias, seja o terceiro mundo como um todo, ou mais especificamente das comunidades mais carentes das cidades.
O diretor carioca tem 56 anos, sendo licenciado em História pela Universidade de Paris, mestre em Cinema e História pela École des Hautes-Études/Sorbonne. Tem, também, uma especialização em Cinema Documental Aplicado às Ciências Sociais na Sorbonne. Desde 1979, é professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, dando aulas de cinema. Em entrevista ao Caderno G, ele fala sobre o documentário de Milton Santos, o novo interesse pelo gênero documental no mundo e a recente geração de documentaristas do país.
Caderno G Conte como conheceu Milton Santos e por que decidiu fazer um documentário sobre ele.
Sílvio Tendler Em 1995, estava fazendo um documentário sobre Josué de Castro (importante geógrafo pernambucano, que publicou diversos trabalhos e estudos sobre a fome no Brasil). A filha e o neto dele me orientavam nesse trabalho e disseram que eu deveria ir até Paris entrevistar o professor Milton Santos, que estava morando lá na época e tinha um conhecimento muito grande da obra de Josué. Fui à Europa e fiquei absolutamente encantado com o pensamento do Milton, com a clarividência dele. Ficou do encontro uma idéia de fazermos alguma coisa juntos, fomos nos encontrando nos anos seguintes. O tempo foi passando, o processo de globalização foi se acirrando, e ele se transformou no principal porta-voz, não contra a idéia, mas contra esse modelo de globalização vigente, que ele chamava de globaritarismo. E eu tinha intenção de falar desse tema.
No final de 2000, preparava-me para entrevistá-lo no Rio de Janeiro, quando ele cancelou porque estava doente. Percebi que deveria fazer o filme naquele momento, peguei um assistente, uma câmera, encarei uma viagem de seis horas e fui até São Paulo para entrevistá-lo, no início de 2001. Foi um depoimento absolutamente brilhante. Naquele período, estava com poucos recursos financeiros e me angustiei. Perguntei a ele o que lhe dava a certeza que as coisas que falara teriam tanto importância. Ele disse: "Você. Com pequenos recursos e pequenos meios também se fazem coisas essenciais". Senti-me na obrigação de fazer esse filme. Ele morreu seis meses depois da entrevista. Depois disso, foram cinco anos de pesquisa e elaboração. Talvez este seja o meu filme mais complexo.
Por quê?
Cinema, como toda a arte, não se comporta nos manuais, que não dão conta de tudo que a arte permite. Certos teóricos, principalmente os norte-americanos, gostam de enclausurar a arte do cinema, predeterminando movimentos. Há uma concorrente, por exemplo, que critica a narração em off no documentário. Acho tudo isso uma bobagem, porque cada realidade é diferente da outra. Para contar uma história, você vai utilizar os artifícios de linguagem que achar necessário. Em Glauber, o Filme Labirinto do Brasil, descartei a narração em off, achei desnecessária. No documentário do Milton Santos retomei esse tipo de narração, pois há pensamentos muitos fortes dele que não estão gravados em uma entrevista.
Queria citar trechos disso sem colocar calhamaços de leitura ao espectador e por isso optei pela leitura deles pelo ator Milton Gonçalves. Trabalhei com outras vozes diferentes no filme: Fernanda Montenegro, Beth Goulart, Osmar Prado, Matheus Natchargaele. A entrevista com o Milton Santos foi a mais difícil de editar de toda a minha vida. A lucidez dele tornou muito difícil fazer qualquer corte. Por isso, desenvolvi uma linguagem autônoma, bem diferente de meus outros documentários.
Qual sua opinião sobre a aproximação dos gêneros documentário e ficção, chamada por alguns de docudrama e que está aparecendo com certa freqüência no cinema atual?
Para mim, o docudrama é uma encenação ficcionada, baseada em uma história real. Tenho uma experiência que se aproxima da ficção no documentário Castro Alves, no qual trabalhei em cima de textos e poesias dele, dramatizados por atores, pois tinha pouco material visual dele. Hoje, isso é uma realidade que vem se somando ao cinema documentário. Veja, por exemplo, o filme O Caminho para Guantánamo: ele é totalmente ficcionado, mas tem uma linguagem documental tão forte que a própria crítica descreve-o como documentário. Isso obriga a crítica a repensar o que é cinema. Não sou um defensor do purismo na linguagem documental, acredito que essa interação com a ficção é boa para o cinema, para o público. Cinema é realidade trabalhada pelo olhar do autor, não existe uma realidade em si, mas algo reelaborado.
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