
O confronto entre Richard Nixon e John Fitzgerald Kennedy iniciou-se muito antes dos norte-americanos irem às urnas. O candidato republicano, que bateu o multimilionário ex-governador do estado de Nova York Nelson Rockefeller nas eleições prévias de seu partido, nunca escondeu suas ambições. Fã de John Wayne e dos westerns de John Ford, como Rastros de Ódio, Nixon se via como um paladino dos valores da "verdadeira América", tanto que foi nome fundamental na cruzada contra o comunismo deflagrada pelo senador Joseph McCarthy (1908-1957). Queria derrubar Kennedy, também opositor à ameaça vermelha durante a Guerra Fria, como um pistoleiro do Velho Oeste, em nome do cidadão ordinário, sem pedigree.
A principal diferença entre os dois candidatos não estava tanto nas diferenças que separavam as plataformas dos dois partidos enquanto os republicanos são conservadores, avessos a projetos sociais subsidiados com dinheiro público e defendem o Estado mínimo, os democratas têm suas raízes no sindicalismo e têm forte apoio das minorias. O contraste mais visível quando comparados os dois políticos, homens com menos de 50 anos, portanto jovens para o posto de presidente de uma das superpotências do mundo, era de estilo. Eles se apresentavam ao mundo de formas completamente diversas.
Na série de debates pela televisão, hoje objetos de estudo obrigatórios para qualquer profissional que atue na área de marketing político, Kennedy nocauteia Nixon. Preparado meticulosamente para o embate por uma equipe que já reconhecia na televisão um instrumento poderoso de propaganda política, JFK passou à opinião pública uma imagem ao mesmo tempo jovem, dinâmica e viril. Poucos anos mais velho, Nixon, que subestimou o impacto da tevê, parecia um senhor cansado, um "velho alquebrado" pela campanha, como diz o historiador brasileiro Antonio Pedro Tota, da PUC-SP, no livro Os Americanos (Editora Contexto). Embora continuasse sendo o favorito.
O embate nas urnas, contudo, foi bem mais apertado do que se supunha. Os historiadores Henry Steele Commager e Allan Nevins, no clássico História dos EUA (Edições Bloch), escrevem que "desde 1800, o resultado de uma eleição não era tão apertado". Os números provam isso: Kennedy venceu por uma diferença de 112 mil votos em um total de 68 milhões de cédulas contabilizadas. O equivalente à uma população um pouco menor do que a do município de Araucária, na região metropolitana de Curitiba.
A vitória de Kennedy no colégio eleitoral foi mais robusta: 303 contra 219. Commager e Nevins comentam que "alguns poucos mil votos em Illinois e no Texas fizeram a diferença entre a vitória e a derrota". Os historiadores acrescentam que não foi a estreiteza da margem de votos que surpreendeu, "mas a própria vitória" do candidato democrata. "Kennedy realizou a façanha quase sem precedentes de derrubar o partido governante numa época de paz e prosperidade; ele superou não só a pesada desvantagem do catolicismo, mas a imensa popularidade de Eisenhower", que se não chegou a se desdobrar na defesa de seu vice, também não lhe negou apoio.
Embora seja quase um lugar-comum afirmar que Kennedy venceu a eleição de 1960 "apesar de ser católico", o historiador britânico Paul Johnson afirma, no livro A History of the American People (editora Harper, sem tradução brasileira), que foi o catolicismo que fez Kennedy ganhar o pleito contra Nixon. "Enquanto Eisenhower obteve 60% do voto católico, Nixon recebeu 22%, menos que qualquer outro candidato republicano no século 20. Nos estados industriais do Norte, onde a diferença do número de votos entre os dois candidatos era muito pequena, a transferência do voto católico para um católico foi determinante", escreve o historiador.
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Predestinado ou fabricado?
Primeiro presidente dos Estados Unidos a nascer no século 20, John Kennedy teve uma ascensão meteórica no mundo da política. Os mais românticos e os admiradores incontestes o consideram um predestinado. Um líder nato, que nasceu para mudar a história dos Estados Unidos com sua postura ao mesmo tempo patriótica e liberal, muito sensível aos direitos civis. Essa imagem, no entanto, não é uma unanimidade.
Filho do magnata Joseph P. Kennedy, que foi embaixador norte-americano no Reino Unido entre 1938 e 1940, Jack, como era chamado por amigos e familiares, nasceu em um berço esplêndido, católico e irlandês.
Joe Kennedy, pai do futuro presidente, já tinha a política correndo no sangue, mas, apesar de ter atuado no serviço diplomático, preferiu legar aos filhos a missão de comandar o país vale lembrar aqui que o pai de Rose Fitzgerald, esposa de Joe e mãe de JFK, era filha de John F. "Honey Fitz" Fitzgerald, que foi duas vezes prefeito de Boston e deputado do estado de Massachusetts no Congresso norte-americano. Política, portanto, não foi uma novidade na vida de John, mas uma decorrência natural
Formado em Direito pela Universidade de Harvard, o pai de JFK fez sua fortuna crescer no mercado financeiro e investindo em imóveis e em indústrias emergentes. Sobreviveu ao crack da bolsa de Nova York, em 1929, porque sabia onde colocar seu dinheiro. Mas sabe-se hoje que parte da imensa fortuna dos Kennedy também teve origem no comércio ilegal de bebidas alcoólicas durante a vigência da Lei Seca (1920-1933), período durante o qual sua comercialização foi proibida nos EUA. O patriarca viajava à Escócia, onde comprava uísque, depois contrabandeado ilegalmente para a América. Muitos também ligam seu nome ao crime organizado e à máfia italiana de Nova York e Chicago.
Primeiro irmão
Não era John, mas seu irmão mais velho, Joseph Jr., que deveria ter ingressado primeiro no mundo da política. Piloto da Força Aérea, acabou morrendo em combate antes de ver o sonho do pai realizado. O ano era 1944 e o rapaz tinha 29 anos. Escorregou então para JFK o papel de "príncipe herdeiro", levado a cabo exemplarmente.
A ascensão de John ao topo do mundo não ocorreu ao acaso, ou em consequência de um esforço hercúleo e obstinado, como foi o caso do republicano Richard Nixon. Sua trajetória teria sido, segundo a maioria dos historiadores, milimetricamente calculada por Joseph, também responsável por colocar Robert e Edward (Ted), irmãos mais novos do futuro presidente, na mesma rota.
JFK formou-se em Relações Internacionais na Universidade de Harvard em 1940. Sua monografia de conclusão de curso intitulava-se Appeasement in Munich, sobre a participação britânica no Acordo de Munique, de 1938, no qual a Alemanha Nazista anexou o território da Sudetenland, até então pertencente à Checoslováquia, povoado por uma grande minoria de origem germânica. Ele, inicialmente, não pretendia fazer nada com o trabalho, no qual aponta a anexação como um prólogo da Segunda Guerra Mundial, mas seu pai o estimulou a publicá-la, em 1940, sob o título de Why England Slept. O livro tornou-se um best seller nos EUA, com cerca de 80 mil cópias vendidas.
Para o historiador inglês Paul Johnson, crítico feroz de John Kennedy, Why England Slept foi um dos grandes engodos na carreira do futuro presidente. No seu livro A History of the American People, ele defende que a monografia não foi escrita por JFK, mas por um ghost writer, e que o livro virou um sucesso de vendas porque Joe comprou dezenas de milhares de exemplares do livro, estocados em uma das propriedades da família. Johnson também afirma em seu livro que Kennedy só foi premiado com o Pulitzer Prize, em 1957, pelo livro Profiles in Courage, porque a família tinha a influente imprensa da Costa Leste do país nas mãos. Essa relação com a mídia teria sido fundamental na construção da persona pública de John. O livro, cuja autoria Johnson também questiona, é composto por breves biografias de heróis menos conhecidos da história americana.
Johnson, uma voz dissonante entre tantas que endossam a importância de Kennedy, vai mais longe: afirma que JFK serviu na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial e teria sido ferido na Batalha de Guadalcanal, na costa da Oceania, em 1943 dentro de uma estratégia orquestrada pelo pai. Tanto que foi condecorado por bravura, algo lembrado para a eleição de 1960. O que se sabe, contudo, é que o ferimento teria lhe deixado como sequela problemas na coluna vertebral que o incomodaram para o resto de sua breve vida.








