Nascido em Brasília e hoje em trânsito entre Curitiba e Morretes, Guilherme Gontijo Flores, aos 30 anos, apaziguou-se. Se antes escrevia “pelo sentimentalismo barato”, hoje passa longe do floreio | Henry Milléo/ Gazeta do Povo
Nascido em Brasília e hoje em trânsito entre Curitiba e Morretes, Guilherme Gontijo Flores, aos 30 anos, apaziguou-se. Se antes escrevia “pelo sentimentalismo barato”, hoje passa longe do floreio| Foto: Henry Milléo/ Gazeta do Povo

Livro

Brasa Enganosa

Guilherme Gontijo Flores. Patuá, 158 págs. R$ 30. Poesia.

Finalista do Prêmio Portugal de Literatura de 2014 na categoria poesia, Brasa Enganosa é um livro bem-cuidado e revelador, quase na íntegra, da personalidade criteriosa de seu autor. Nascido em Brasília, Guilherme Gontijo Flores é, antes de tudo, um estudioso. Professor e tradutor, é formado em Letras Português pela Universidade Federal do Espírito Santos (Ufes), mestre em Estudos Literários pela UFMG e doutor em Letras Clássicas pela USP. Dá aulas de Língua e Literatura Latina na UFPR, alternando-se entre Curitiba e Morretes, onde vive atualmente. Escritor estreante, descobriu-se antes em traduções de Rainer Maria Rilke, Sexto Propércio, John Milton e, principalmente, no monumental A Anatomia da Melancolia, do quase intransponível Robert Burton, de quatro volumes, ganhador do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e finalista do prêmio Jabuti. "A tradução me salvou. Eu escrevia desde a adolescência, mas era tudo muito ruim, ora pelo sentimentalismo barato juvenil, ora pelo ímpeto ‘inovador’ que me levava a um formalismo virtuose e vazio", confessa. Além disso tudo, é editor do blog coletivo e revista impressa escamandro (www.escamandro.wordpress.com), um dos grandes faróis da tradução no país. Em notas gerais, apesar da falta de verniz habitual aos calouros literatos – Gontijo mal tem 30 anos –, não veremos aqui um autor despropositado. Tudo, em Brasa Enganosa, obedece àquilo que podemos chamar, sem notas pejorativas, de sistematização orgânica.

Coletânea de poemas escritos entre 2008 e 2012 e dividido em oito temáticas, que oscilam das discussões sobre a oralidade às especulações existenciais sobre o amor, o livro caracteriza-se por seu rigor estrutural. Gontijo não tem ambições de romancista ou prosador, nem é um reformista. Interessa-lhe a profundidade do sentido, a lapidação, ao limite do hermetismo – seu trabalho é cheio de alusões a diversas áreas culturais –, fugindo da artificialidade do fazer poético. "Há mesmo uma tensão entre o excesso de referências (da minha vida de leitor compulsivo de poesia, professor de latim, tradutor, etc.) e essa necessidade de leveza (comunicativa e melódica). Meu maior esforço é tornar um poema aberto a todos os que se interessem (detesto a ideia de escrever apenas para poetas, como tantos fazem), ou seja, para impedir que ele se torne uma máquina de literatice, um joguinho inócuo entre iguais. Faço questão de deixar outras referências me atravessarem: canção, cinema, televisão, piada, etc. para entrarem no poema e talvez resgatarem-no à realidade", diz Gontijo.

Alegria, não felicidade

Os elementos da coloquialidade que aparecem em seu trabalho surgem para estudar os significados, ou, como diz o ensaísta Carlos Alberto Coelho, a poesia tal qual um idioma da percepção, como nesta cena: ENCONTRAR NA CARCAÇA DUM PÁSSARO/ destroçada por dois gatos bem nutridos// (gratuidade do ato/ crueldade – palavra inventada/ humana demais pra contar/ esse ato – sem pecado/ sem perdão). "O cotidiano é importante: não trato da felicidade, veja bem, mas de alegria, sim, uma coisa fugaz e que pode emergir da própria dor. Boa parte da tradição poética ocidental (ao contrário da oriental, por exemplo) deixa de lado a alegria e prefere tratar da dor da existência, mas vejo em alguns poetas uma noção que foge à maioria; dentre eles, lembro agora Horácio, Wordsworth, Ungaretti e Leminski. Quero que meu livro, ao seu modo, esteja perto deles", completa.

Brasa Enganosa, editado pela Patuá, concorre ao prêmio de R$ 50 mil ao lado de Observação de Verão Seguido de Fogo (Móbile Editorial), de Gastão Cruz, Vozes (Iluminuras), de Ana Luísa Amaral, e Ximerix (Cosac Naify), de Zuca Sardan, a grande "ameaça" a Flores – além do projeto gráfico da editora (as ilustrações são do próprio Sardan), o veterano escritor compôs algo bem incomum. O resultado do prêmio Portugal Telecom sai em novembro. De todo, o livro de Gontijo permanecerá como um bom retrato de poeta enquanto força de linguagem.

Não basta o rio

murmúrio

adocicado das águas

rumo certeiro transparência

do olho d’água

desaguar suave sua torrente

não adianta fonte pura

ou perpétuo devir dos rios

como se fosse foz

seu único destino

Não se aprende a amar

o desamar sim

se desaprende

mesmo

aconchegado no extravio do silêncio

sem palavras

sem consolo ou sentido abraçado

pela profunda presença do fracasso

quando

melhor seria um trago

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