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Conheça algumas das montagens que levaram aos palcos textos de Arthur Azevedo |
Conheça algumas das montagens que levaram aos palcos textos de Arthur Azevedo| Foto:
  • As Três Viúvas de Artur, apresentada pelo projeto Aprendiz Encena, de Recife, no Festival de Teatro de Curitiba de 2007
  • Gouvêia e Lola, o pai de família e a cortesã de A Capital Federal, no espetáculo O Carioca
  • Ao centro, a atriz Hermila Guedes, em cena de As Viúvas de Arthur
  • Os Cariocas atualizou a obra de Azevedo com referências à ex-governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho
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Entrevista com a pesquisadora Larissa de Oliveira Neves

A coleção completa das crônicas teatrais escritas por Arthur Azevedo para o jornal carioca A Notícia, entre os anos de 1894 e 1908, deve ser lançada em breve pela Editora da Unicamp. A pesquisadora Larissa de Oliveira Neves, pós-doutora em Teoria e História Literária pela mesma universidade, é a encarregada do projeto, financiado pela Petrobrás, com apoio da Lei de Incentivo à Cultura.

As 680 crônicas – intituladas, em conjunto, O Teatro – sairão em formato de CD-Rom, acoplado a um livro comemorativo do centenário de morte do dramaturgo, contendo material iconográfico e um estudo introdutório sobre sua produção como cronista, escrito pela organizadora.

Grande conhecedora da obra de Arthur Azevedo, tanto de suas crônicas quanta das comédias, Larissa, em entrevista à Gazeta do Povo, rememora a intensa atividade teatral do fim do século 19, em meio à qual, diz ela, o autor de A Capital Federal foi o único que resistiu à passagem do tempo.

Gazeta do Povo – Qual é a importância histórica, para o teatro, da obra de Arthur Azevedo e de sua atuação como animador cultural?

Larissa de Oliveira Neves – Sua importância é imensa. Arthur Azevedo foi o primeiro homem de teatro brasileiro, porque além de dramaturgo e crítico teatral, participava ativamente da vida teatral. Podemos dizer que ele vivia para o teatro. Deixou um legado de mais de 200 peças, entre originais, traduções e adaptações. Suas peças são vivas, ainda hoje encenadas, adaptadas e apreciadas. Como animador cultural, suas iniciativas foram inúmeras. Realizava constantes campanhas para melhorar a vida da gente de teatro, pelo fim do preconceito contra a profissão, para a dignidade dos artistas e melhora nas condições das salas de espetáculos. Esteve à frente de festivais amadores, organizou os espetáculos brasileiros apresentados na Exposição Nacional de 1908. Lutou veementemente pela construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, edifício que, certamente, só existe em virtude da insistência do comediógrafo.

Pelo que se sabe, suas peças eram sucessos populares. Como era o contexto teatral da época? Havia uma proliferação de dramaturgos, teatros e atores?

A época de Arthur Azevedo foi marcada pelo advento do teatro cômico popular, que podemos chamar de nossa primeira "indústria cultural". Os principais gêneros dramáticos eram as operetas, revistas e mágicas, todos "importados" da França. As operetas foram, inicialmente, encenadas na língua original, para depois serem traduzidas, adaptadas, abrasileiradas. As revistas, mágicas e operetas originais eram escritas por autores brasileiros ou portugueses. Eram todos espetáculos bastante teatrais, com números de música e dança, além de grande importância conferida aos cenários deslumbrantes. Havia sim uma intensa atividade teatral, com vários teatros e companhias, público e atores (brasileiros e portugueses). Na dramaturgia, no entanto, fora o nome de Arthur Azevedo, não tivemos outro grande escritor. Os autores populares à época, Moreira Sampaio, Eduardo Garrido (português), Valentim Magalhães, estão hoje esquecidos.

O que caracterizava sua obra?

Sua obra se caracteriza pelo humor, pela crítica social realizada por meio da comicidade, pelos versos simples e cantantes. Ela pode ser sintetizada por um grupo de textos escritos na maturidade, as burletas (A Capital Federal, O Mambembe, O Cordão, A Viúva Clark), em que inseriu toda sua habilidade para o teatro musicado, ligado à comédia de costumes. São obras originais, de grande qualidade formal e temática. É importante também destacar o valor conferido em sua obra teatral a aspectos da cultura popular em geral, deixados de lado pelos escritores da época: a linguagem brasileira, as personagens inspiradas em tipos populares, as festas como o carnaval, entre outros.

Haveria alguns dados biográficos importantes para entender sua produção?

O contato com a população, com as festas e cultura tradicionais, está impregnado em sua obra. Além disso, teve fundamental importância uma viagem à França, realizada em 1883, onde assistiu a peças musicadas francesas, em especial às revistas de ano, tanto que seu primeiro sucesso no gênero aconteceu em 1884 (O Mandarim).

O que suas peças nos dizem, atualmente, sobre a sociedade brasileira de então?

Revelam muitíssimo: os costumes, o modo de vida, o tratamento entre as pessoas de diferentes classes sociais etc. Para o espectador de hoje, diversos textos mantêm a mesma comicidade e, além disso, tratam de problemas ainda hoje presentes, e com mais força, em nossa sociedade (os preconceitos sociais, os problemas urbanos, entre outros). Embora algumas peças tenham, realmente, perdido a atualidade, outras continuam vivas pela genialidade de seu autor.

Que legado Arthur Azevedo deixou para os gerações posteriores? Pode-se perceber sua influência em alguma vertente teatral atual?

Primeiramente, temos o legado deixado pelo teatro de revista, que se manteve em nossos palcos até meados do século 20. Depois, e mais importante, temos o legado do teatro cômico, que continua sendo um dos importantes ramos do teatro atual. Suas peças continuam sendo montadas, em adaptações ou nos textos originais, e dramaturgos contemporâneos declaram-se discípulos de Arthur Azevedo e Martins Pena, como os grande precursores da comédia no Brasil, a exemplo de Luís Alberto de Abreu.

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