Micky Ward (Mark Wahlberg) e seu irmão e treinador, o atormentado Dickie (Christian Bele), em cena de O Vencedor| Foto: Divulgação
Luta histórica entre Micky Ward e Arturo Gatti
O verdadeiro Micky Ward: complexo

No ringue, só um lutador pode vencer. Mas se não fossem dois os heróis de O Vencedor, a curva dramática do filme não existiria. São dois irmãos, homens de trajetórias inversas, que ocupam o centro da trama – Micky Ward (Mark Wahlberg, de Os Infiltrados), o caçula, está subindo no mundo do boxe, no rumo de se tornar campeão; o mais velho, Dicky Eklund (Christian Bale, de Batman Begins), ao contrário, já desperdiçou sua chance, embora tenha no currículo um nocaute sobre ninguém menos do que a lenda Sugar Ray Leonard.

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Essa dualidade, que alimenta desde a tragédia grega até as histórias em quadrinhos, funciona com energia no drama dirigido por David O. Russell (de Três Reis), com roteiro armado por Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson.

Não é à toa que o filme vem acumulando prêmios – especialmente para Christian Bale e Melissa Leo (de Rio Congelado), que parecem apostas certas no Oscar de coadjuvantes, depois de terem vencido os Globos de Ouro e os prêmios do Sindicato dos Atores. Além dessas duas, o filme concorre em outras cinco categorias: filme, diretor, montagem, roteiro original e atriz coadjuvante também para Amy Adams (de Dúvida).

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O que está fora do ringue é tão importante quanto o que acontece dentro dele. O clã familiar exerce uma pressão formidável sobre Micky Ward. Apesar de ser um lutador em ascensão, ele tem de carregar essa família toda nas costas – o irmão drogado que se tornou seu treinador (Bale), a mãe possessiva, Alice (Melissa Leo), e um time de sete irmãs desocupadas e intrometidas. O pai dele, George (Jack McGee), faz o que pode, mas também costuma sucumbir a este quase irresistível poder.

Diante do declinante sex appeal, a matrona Alice compensa com mão de ferro o poder sobre os compromissos de Micky e sua renda – nem sempre em benefício do filho. Apesar de sua inegável experiência, Dicky é um treinador um tanto relapso – desaparecendo para "viajar" no crack. Sem vida própria, Micky encontra na desbocada Charlene (Amy Adams) uma namorada e uma força nova para reagir ao resto do clã.

A performance sutil de Wahlberg, que produziu o filme e foi um dos principais responsáveis por ele ter sido realizado, talvez não esteja sendo devidamente avaliada pelas premiações – que preferem atuações mais intensas, embora excelentes, como são as de Bale e Leo. Mas são as dúvidas, hesitações e o tumulto interior desse protagonista que ditam o ritmo de todo o resto. Micky carrega a pulsação do filme em cada golpe dado ou recebido. Mas Dicky é quem sempre tem o poder de alterar essa energia.

Baseado em personagens e situações reais, O Vencedor insere seu nome numa longa galeria de bons filmes sobre o boxe, renovando sua gama de contradições dramáticas. Mesmo quem não gosta do esporte, pode sintonizar-se com as emoções à flor da pele de uma família irlandesa e exagerada, que lembra muitas outras que conhecemos tão bem.