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Leminski: voz com ressonância | Arquivo Gazeta do Povo
Leminski: voz com ressonância| Foto: Arquivo Gazeta do Povo

Ao analisar os poemas breves de Paulo Leminski (1944-1989), o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Paulo Franchetti escreveu que o autor curitibano ocupa, na poesia, sobretudo para os mais jovens, "um lugar homólogo ao de Raul Seixas na canção".

Franchetti foi direto ao ponto: Leminski, mais que um poeta, é tido como um guru, autor de obras que são consultadas por não poucos adolescentes de todas as idades que buscam, nas linhas e entrelinhas, algum tipo de resposta.

"Ameixas/ ame-as/ ou deixe-as", breve poema de Leminski, é um dos muitos "achados" que costumam ser declamados em alta voz ou digitados no Twittter por fãs do autor.

Mas Leminski é muito mais do que um criador de frases certeiras, nas quais rimas e trocadilhos funcionam como isca para leitores ávidos por pílulas de sabedoria e humor.

O professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Marcelo Sandmann convidou dez colegas, muitos deles vinculados a outras universidades brasileiras, para escrever textos a respeito da produção do artista multimídia. O resultado é o livro A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos sobre a Obra de Paulo Leminski, publicado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Sandmann diz que o objetivo da obra é jogar luzes sobre a multiplicidade criativa de Leminski.

"Há estudos sobre a poesia, a prosa, a crítica, as relações com a propaganda, as traduções, os vínculos com a obra de James Joyce, a cultura latina, o interesse pelo simbolismo, pela canção popular", diz Sandmann, completando que alguns dos textos tratam de aspectos bastante conhecidos, "às vezes num esforço de síntese, às vezes a partir de um enfoque renovado. Outros dão conta de assuntos que não haviam merecido ainda o devido aprofundamento".

Franchetti, da Unicamp, autor do ensaio "Paulo Leminski e o Haicai", chama atenção para a necessidade de analisar o artista curitibano a partir de toda a sua vasta produção. "Não creio que se deva avaliar o Leminski por partes. Ele sai muito prejudicado se o fizermos. Sua importância está no conjunto da obra, no mosaico que é o que nos deixou e funciona como um ícone dos anos em que viveu. Cada obra sua, considerada separadamente do resto, da figura pública, do gesto que a constituiu, perde bastante interesse. A vantagem desse livro é nos fornecer uma boa ideia do conjunto", diz Fran­­chetti, referindo-se ao grande mérito da publicação, que é oferecer um painel.

Os ensaios mais instigantes são aqueles nos quais os autores apresentam textos de fácil compreensão, e demonstram ter domínio sobre o que estão escrevendo. "James Paulo Joyce Leminski", assinado em parceria por Caetano Waldrigues Galindo, da UFPR, e Ivan Justen Santana, é o ponto alto do livro. A dupla diz que Leminski foi um leitor de James Joyce, e explica como o diálogo Joyce-Leminski se processou. Franchetti, ao analisar os poemas breves, e Sandmann, comentando as relações de Leminski com a música popular, também conseguem articular as suas ideias, e estabelecem comunicação com o leitor.

Já Adalberto Müller, da Uni­­versidade Federal Fluminense (UFF), e Maurício Mendonça Cardozo, da UFPR, ambos, em ensaios individuais, produziram textos herméticos. Müller peca pelo excesso de citação a fontes, enquanto Cardozo tenta ser lírico e apenas realiza um exercício de verborragia vazio: "Espetacular e espetaculoso nessa dramaturgia particular, suas proposições mais diversas encenam o eco forte e contundente de avant-garde paulistana, camPoundiana".

Mas, descontando os deslizes, o livro é relevante por colocar em discussão a obra de Paulo Leminski, como bem define Franchetti, "autor importante por mostrar que a literatura pode ter vigor por apresentar-se decididamente como próxima da vida".

Serviço:

A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos sobre a Obra de Paulo Leminski, Marcelo Sandmann (org.). Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 272 págs., preço a definir.

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