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Alexandre França, Patrícia Kamis, Paulo Zwolinski e Preto: nova geração | Marcelo Elias/Gazeta do Povo
Alexandre França, Patrícia Kamis, Paulo Zwolinski e Preto: nova geração| Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo

Peças

Conheça alguns dos títulos publicados na coleção Núcleo de Dramaturgia Sesi Paraná:

Inéditas

(Em) Branco e Tempestade de Areia, de Patrícia Kamis.

(Você), de Alexandre França.

Inverno, de Preto (Pretto Galiotto).

Vista

Como se Eu Fosse o Mundo, de Paulo Zwolinski. estreou no Festival de Curitiba, com direção de Roberto Alvim. Negocia data para ser apresentada em uma das unidades do Sesc em São Paulo até o fim do ano.

Montagem

Antes do Fim, de Marcelo Bourscheid. A peça será montada pelo diretor Marcos Damaceno, coordenador do núcleo, e entra em cartaz em novembro no Teatro Novelas Curitibanas.

É preferível encenar um autor contemporâneo, com todos os seus defeitos, a encenar dez Shakespeares. Quem o disse foi Bernard-Marie Koltès (1938-1989), autor francês consagrado, mas com quem o público brasileiro ainda não está familiarizado. A provocação de Koltès serve para questionar a sintonia (ou não) dos palcos nacionais em relação à dramaturgia que se faz mundo afora nas últimas décadas.

O francês ponderou que os diretores costumam abusar do teatro de repertório, quando, na verdade, ainda que tenham equivalências, peças de Shakes­­peare, Eurípedes ou mesmo Brecht não falem da nossa vida tal como ela é hoje. Koltès lança ainda uma provocação: "Os autores de nossa época são tão bons quanto os diretores da nossa época".

Só diretores criativos o bastante para reinventar os modos de encenação seriam capazes de dar conta de textos que, tentando expressar algo novo, ignorem o que se entendia por dramaturgia antes. É por encenadores assim que Patrícia Kamis, Preto, Paulo Zwolinski e Alexandre França, representantes de uma nova geração de dramaturgos curitibanos, estão à espera.

Reunidos no Núcleo de Dramaturgia do Sesi Paraná, eles escrevem suas primeiras peças atentos ao movimentos mais ousados de dramaturgos estrangeiros como Koltès, Valère Novarina, Gregory Motton e Richard Maxwell (norte-americano que este ano apresenta no Festival Internacional de São José do Rio Preto o espetáculo Ode To The Man Who Kneels). Querem trazer um ar novo para o teatro curitibano, que julgam ter parado no tempo.

"A gente precisa urgentemente mostrar dramaturgias de linguagens diferentes das que estão sendo feitas aqui em Curitiba", opina Preto (que antes assinava Pretto Galiotto). Ele é autor da peça Inverno – uma das 17 produzidas durante o núcleo de dramaturgia e agora publicadas pelo Sesi. "Nosso teatro e nossa dramaturgia estão muito antigos. Temos pouca coisa nova, pouquíssimas singularidades. O ator tem que ser retreinado, os diretores têm que se atualizar."

Por ora, segundo ele, quem faz algo novo é rechaçado. E deve continuar assim até que mais peças com propostas contemporâneas consigam ser montadas. "As pessoas só vão perceber que isso que se faz é velho quando o novo chegar. Se não, vão continuar acreditando que é a única forma de fazer", diz Preto.

"Concordo que tem muita gente atrasada", ecoa Alexandre França, abrindo exceção para autores como Léo Glück e Luiz Felipe Leprevost. França já escrevia para teatro antes de ser confrontado por ideias mais atuais sobre a arte. Ele as aplicou na peça (Você), e ainda alterou uma obra anterior, Habitués. Na nova versão, que será encenada ainda este ano, sai a letra "s" final e um dos personagens passa a ser a consciência do outro.

Choque

Em março, durante o Festival de Curitiba, algumas das peças escritas durante as oficinas do núcleo foram postas à prova. A experiência com as leituras, dirigidas por Edson Bueno, Márcio Mattana, Márcio Abreu, Nina Rosa e Marcos Damaceno (o coordenador do núcleo), foi de "choque" – diz Patrícia Kamis. Entre os quatro dramaturgos jovens, é consenso que os encenadores tiveram dificuldade para "perceber" suas obras.

Como se Eu Fosse o Mundo, de Paulo Zwolinski, foi até o momento a única encenada. Roberto Alvim, o orientador da oficina de dramaturgia e responsável por disseminar as novas ideias entre o grupo, assumiu a empreitada, sem fazer concessões a velhas expectativas do que seria o teatro.

Depois de assistir à montagem, houve colega de profissão que reclamasse por não ter visto os rostos dos atores Patrícia Kamis e Thiago Luz. Era parte da proposta, diga-se de passagem, de uma iluminação na penumbra sem detalhes que distraíssem o espectador.

"Foi tirado tudo, reduzido a uma essência. Ninguém prestou atenção ao cabelo ou à roupa da Patrícia", argumenta o autor, rebatendo o comentário crítico. "Eles estão presos a conceitos teatrais que não são mais importantes do que o pensamento gerado ali", reforça Preto.

Espelho não

Em comum, esses autores têm o gosto pela subversão das formas. "Como o Alvim traz dramaturgias de ponta para a gente ler, vejo recorrente (mas não em todos) essa vontade de fazer escritas inovadoras", diz Patrícia.

Alvim também ensinou a eles que teatro não é espelho da realidade, mas uma das artes à disposição do ser humano para ampliar sua maneira de perceber o mundo.

Por isso, as convenções limitadoras são dispensáveis. Interessa a liberdade de cada um se expressar singularmente, propondo uma experiência distinta de estar vivo.

"O teatro tem que vir para mostrar que o ser humano é tanta coisa, e pode ser tanta coisa nova além do que se está acostumado", diz Preto. Certos disso, essa geração de dramaturgos testa a si mesma tentando encontrar a própria voz. Preto atesta: "O núcleo nos deu liberdade e confiança de escrever o que a gente sente e percebe."

Leia mais sobre os autores do Núcleo de Dramaturgia do Sesi Paraná no blog Palco: http://www.gazetadopovo.com.br/blog/palco.

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