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Performance

Permissiva e Movediça

Manifestações do gênero performático ganharam notoriedade na década de 1970, mas, ainda hoje, por sua característica interdisciplinar, são utilizadas por artistas que desejam ampliar seu campo de ação

A sérvia Marina Abramovic explorou os limites dos relacionamentos em trabalhos como Relação no Espaço, em que seu corpo nu se choca ao do marido em velocidade crescente durante uma hora |
A sérvia Marina Abramovic explorou os limites dos relacionamentos em trabalhos como Relação no Espaço, em que seu corpo nu se choca ao do marido em velocidade crescente durante uma hora (Foto: )

Quando a performance foi sugerida como tema para um Caderno G Idéias, não se imaginava que delimitar esta expressão artística pudesse ser tarefa tão complexa. Ao pesquisar a bibliografia sobre o assunto e conversar com artistas e acadêmicos, é que se foi percebendo, como bem define um deles, Gustavo Bitencourt, que a performance "é um terreno de batalha, que pertence a todo mundo, a si próprio e a ninguém".

O termo "performance" foi cunhado na década de 1970, quando esta expressão artística independente passou a ser aceita como arte. Obviamente, já se faziam performances há muito mais tempo. A manifestação é considerada a "vanguarda da vanguarda" pela pesquisadora RoseLee Goldberg, autora do livro de referência A Arte da Performance – Do Futurismo ao Presente, de 1979, no qual escreve: "Sempre que determinada escola – quer se tratasse do cubismo, do minimalismo ou da arte conceitual – parecia ter chegado a um impasse, os artistas se voltavam para a performance como um meio de demolir categorias e apontar para novas direções".

Corpo, ação e público. Este é o tripé essencial da performance na opinião do artista plástico e DJ curitibano Fernando Ribeiro. Nela, o artista volta a sua atenção à utilização do seu corpo como instrumento, à sua interação com o espaço e com o tempo e à sua ligação com o público.

"A performance é basicamente uma arte de intervenção, modificadora, que visa a causar uma transformação no receptor", escreveu o teórico e performer Renato Cohen no livro A Performance Como Linguagem, primeira incursão brasileira sobre o tema. Outras pistas para entendê-la são dadas em seu texto: expressão cênica, linguagem de experimentação, forma híbrida, viva, que faz do artista sujeito e objeto de sua obras.

Arte híbrida

Não é preciso ir longe para compreender a "permissividade" da performance. O coletivo Couve-Flor Mini-Comunidade Artística Mundial foi criado em 2004 por artistas curitibanos independentes, com históricos profissionais diversos, que se encontraram na performance. "Historicamente, a performance tem sido mais associada às artes visuais, mas, dentro das universidades, por exemplo, dependendo da instituição, é uma matéria que pertence ao departamento de Teatro ou ao de Dança. E, no entanto, é um campo em si, com questões muito próprias", explica Gustavo Bitencourt, integrante do coletivo.

A performance abre espaço para inúmeras possibilidades. Pode ser um gesto simples, apresentado por um único artista ou um evento do qual participa muita gente. Pode ser feita na praça, na esquina, em um bar, no palco, no museu, no quarto ou mesmo em grandes espaços geográficos. Pode ser transmitida via satélite e vista por milhares de pessoas ou se resumir a um pequeno público. Pode ocorrer sem audiência e sem documentação alguma, ou pode ser registrada por meio de fotografias, vídeos e filmes.

Marina Abramovic

A autobiografia não é regra, mas é uma marcas de certas performances. A sérvia Marina Abramovic, uma das mais destacadas performers no mundo, ficou famosa por ações em que levava ao limite as relações entre a arte a vida, como a série realizada entre 1976 e 1988, em parceria com seu marido Ulay (o alemão Uwe Laysiepen). Para explorar as possibilidades dos relacionamentos, como a dor, a tolerância e a fugacidade, em Relação no Espaço, por exemplo, seus corpos nus se chocavam em velocidade crescente ao longo de uma hora. O fim da série veio com Os Amantes. No dia 30 de março de 1988, cada um partiu de um caminho, ela pelas montanhas, ele pelo deserto, até se encontrarem, em junho, numa ponte na província de Shaanxi, na China, onde puseram fim ao longo relacionamento.

Um adendo. Marina Abramovic participa da Bienal de Artes de São Paulo, em outubro, com uma palestra e a apresentação da videoinstalação The Artist Must Be Beautiful (A Artista Deve Ser Bela).

Se um grande espaço natural foi palco para a performance de Marina, há exemplos de projetos desenvolvidos em quatro paredes, sem nem ao menos contar com a presença de um corpo em cena. Em um de seus trabalhos, The Good Home (2006), o artista paranaense Laercio Redondo, que atualmente vive entre Rio de Janeiro e Estocolmo, na Suécia, realiza o mapeamento de um quarto em que se hospedou durante uma residência artística na Alemanha. A ação, gravada em vídeo, mostra o espaço quase vazio que, ao poucos, vai sendo preenchido por inúmeros objetos reveladores da presença física do artista. "Há a marcação de um corpo que não se vê. Não há audiência neste trabalho", conta.

O vídeo, em inúmeros trabalhos contemporâneos de performance, é o canal de comunicação entre o artista e o público – é a chamada videoperformance. "Mas o mero registro da performance não é videoperformance", assinala o artista da performance Fernando Ribeiro.

"Uma questão-chave para entender o meu trabalho é o afeto, o afetar e ser afetado, as trocas entre as pessoas", explica Redondo, que conta com colaborações de "músicos, bailarinos, gente comum, minha família". Para contar a história desses encontros, que possibilitam a interdisciplinaridade em seus trabalhos, ele se utiliza "da vida, de tudo o que está ao meu lado", explica, referindo-se aos objetos disponíveis no cotidiano.

Fernando Ribeiro, por exemplo, enrola-se em filme de PVC em uma de suas performances. O material, destituído de seu uso funcional, provoca reações inesperadas do público – mas desejadas pelo artista. "Como a performance tem como base o cotidiano, há uma interação maior com o público", diz. Ele explica que, mesmo que o público não participe fisicamente da performance, há sempre interação. "Não é preciso pegar na mão do público. A percepção de quem assiste a cena já é uma forma de interação."

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