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Literatura

Poesia em meio a vinagre e multidões

Impulsionados pelo sentimento inquietante que assola o país, escritores se reuniram para a criação de uma antologia de poemas independente

  • Isadora Rupp
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Poesia em meio a vinagre e multidões

A insatisfação tem sido a pauta do Brasil nas últimas semanas. Os protestos por várias capitais e cidades brasileiras, que eclodiram inicialmente por conta do aumento de R$ 0,20 nas passagens do transporte coletivo de São Paulo, ampliaram a pauta e agora abarcam as mais diferentes causas, apoiadas por diversos segmentos artísticos, no início, timidamente (leia mais no quadro ao lado). Em meio a esse momento e inspirados pelo sentimento de mudança, a área literária também quis incitar a reflexão sobre o assunto, e vários escritores do país se reuniram na criação de Vinagre – Uma Antologia de Poemas Neobarracos.

VÍDEOS: Assista ao documentário em curta-metragem e ao clipe do cineasta Luccas Soares

Disponível apenas na versão on-line (confira os endereços no serviço), cada volume tem cerca de 90 páginas e reúne poemas, haicais e ilustrações de diferentes autores de todo o país. Organizado coletivamente, mas iniciado pelo poeta Fabiano Calixto, autor de livros como A Canção do Vendedor de Pipocas (7Letras, 2013), as duas edições foram feitas em poucos dias e são um “gesto de solidariedade aos manifestantes.” “Tive conversas com os poetas Ana Rüsche e Pedro Tostes, e a partir de então, veio a ideia de fazer algo com o espaço que precisasse, grátis e que chegasse ao maior número de pessoas possível. Foi tudo muito rápido, para ajudar a aquecer o hálito das multidões.”

O poeta e professor de literatura da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcelo Sandmann, é um dos autores que participaram, com o poema “Estamos em Guerra, Meu Amor”. “Escrevi no dia 14 de junho, depois do show do Maurício Pereira no Teatro do Paiol. Ele havia falado muito de São Paulo e da importância da cultura que vem das ruas. No dia anterior, havia acontecido uma grande manifestação na capital paulista, com violenta repressão. Fiz o poema muito rapidamente, ao contrário do que costumo fazer”, conta.

“Um aparato, uma bomba reflexiva”. É assim que o escritor Ademir Demarchi (nascido em Maringá e hoje radicado em Santos), doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo e editor da revista Babel, define Vinagre. “São flashes das pessoas sobre o que está acontecendo, têm um efeito estético diferente e próprio da arte, que é o de estimular a sensibilidade, o pensamento.” O pequeno haicai de Demarchi (BOMBAS explodem/a turma em festa/porque tem passeata), diz o autor, tem relação com a sua experiência de militância política nos anos 1970/1980. “As bombas da repressão estimulam a manifestação, e a militância é sempre festiva, é encontrar um sentido na existência.”

A escritora e artista visual Jussara Salazar, autora de livros como Carpideiras (2011), fez uma ilustração usando o estopim do movimento: os R$ 0,20 a mais na passagem de ônibus. “Foi o que inicialmente aparecia como reivindicação, pareceu interessante o que se estabeleceu a partir de um detalhe pequeno, já que vimos muitas vezes as passagens subirem muito mais que isso, não desencadeando algum movimento expressivo. Esse fator inicial demonstrou maturidade por parte da população brasileira, a sutileza que inaugurou um novo momento.”

Acordou?

Apesar do bordão “O gigante acordou”, em alusão à pulverização das manifestações, os escritores acreditam que há fantasia na expressão. “O Brasil está o tempo todo acordado, há escritores escrevendo, artistas fazendo arte, pessoas morrendo em conflitos, tais como os índios em enfrentamentos com fazendeiros. Apenas não havia um movimento uníssono tão intenso como agora, pois a insatisfação com as coisas chegou ao limite”, acredita Demarchi.

Desabafo audiovisual

O cineasta Luccas Soares, 23, havia acabado de chegar ao Brasil quando as pessoas, sobretudo jovens, tomaram as ruas em protesto. Não pensou duas vezes antes de começar a registrar em vídeo as manifestações em Curitiba. Disso, surgiram dois trabalhos: o documentário em curta-metragem A Rosa Brilha, Mas Não pra Dilma, Né?, e o videoclipe #O Gigante Acordou, com Soares, em sua estreia como rapper, cantando junto com os rappers P.A. e P.H., amigos de longa data do bairro Boqueirão, onde nasceram.

A letra da dupla de rappers e Soares aborda a agenda ampla dos manifestantes no país: fala que o “aumento do busão só enfureceu a massa”, que “são milhões com a copa”, e que as pessoas devem ir à rua. “O clipe foi para chamar ainda mais as pessoas”, diz o cineasta, contando que o ídolo do futebol brasileiro e agora deputado federal Romário (citado na letra), compartilhou o vídeo em sua página pessoal do Facebook. “A gente quer mostrar que os artistas estão na rua, nós também somos o povo”, salienta Soares.

O documentário também foi produzido durante os protestos e Soares escolheu, principalmente, catadores de papel e moradores de rua para falar sobre as manifestações e mudanças que eles desejam para o país. “Quis registrar com outros olhos, o resultado foi incrível, nos surpreendemos muito com as declarações.” Até o fechamento desta edição, o curta teve mais de 22 mil visualizações e o videoclipe, 14 mil.

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