O poeta Régis Bonvicino construiu trajetória poética sem se guiar por modelos ou escolas| Foto: Rogério Assis/ Folhapress
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A trajetória do poeta Régis Bonvicino, de 55 anos, foi construída, poema após poema, livro depois de livro. Ele publicou dez títulos, reunidos em Até Agora. Do primeiro, Bicho de Papel (1975), ao mais recente inédito, Página Órfã (2006), Bonvicino aprimorou a sua maneira de escrever poesia. "Tenho dito que sou o anti-Rimbaud. Nada me veio pronto, nada me veio, digamos, do gênio inspirado. Você constrói uma poesia", diz Bonvicino, se referindo ao jovem poeta francês Arthur Rimbaud, considerado pela crítica um gênio pelo fato de ter escrito toda a sua obra até os 21 anos.

Bonvicino concedeu entrevista à Gazeta do Povo por e-mail e definiu a sua arte. "O meu trabalho é a busca da redefinição da própria ideia poesia. Quis redefinir e não apenas fazer poesia. Há pontos do começo que estão nas coisas mais recentes. Mas temo estar fazendo autoelogio, um problema sério no Brasil, onde os poetas se autoelogiam sempre (Ferreira Gullar, por exemplo)", comenta.

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O autor, que produziu poemas curtos e longos, diz perseguir a precisão, e não a concisão. "Tenho textos longos, precisos. Tenho também curtos, concisos. A imprecisão me atormenta. Tento fazer arte", afirma Bonvicino, que é fascinado por cinema e gosta de ouvir música clássica, jazz, rock-and-roll das décadas de 1950 e 1960. "Não ouço MPB há 25 anos pelo menos, acho-a chatíssima, paupérrima, exceto Jorge Ben, João Gilberto e alguma coisa da Bossa Nova", afirma.

Felicidade é fácil

Até Agora sai com o selo da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em edição de luxo: o miolo foi impresso em papel chamois (de tonalidade amarela, o que facilita a leitura) e a capa é dura. O poeta elogia a iniciativa do órgão público que, para ele, "tornou-se uma editora de ponta, de grande qualidade, reconhecida no Brasil e no exterior." Bonvicino observa que, não fosse a Imprensa Oficial, talvez a sua obra, que estava esgotada, permaneceria fora do mercado.

Ele critica as editoras comerciais. "Recebi um não da Editora da Globo, por exemplo. A Companhia das Letras prefere publicar Fabrício Corsaletti. Cada um sabe o que faz, não?", questiona. Bonvicino considera "curioso" o fato de editoras comerciais, como as citadas, venderem 50% de sua produção para o Estado. "Por esse motivo, elas (as editoras comerciais) também são estatais. O mercado de livros no Brasil é pequeno e errático. Não há capitalismo no mercado de livros brasileiro, subsidiado e influenciado pelos grupos, em disputa de poder", critica.

Questionado a respeito de um mistério do mercado editorial, segundo o qual "poesia não vende", Bonvicino discorda, e apresenta o seu argumento. "Drummond vende, Cabral vende, Leminski vende, os Campos vendem, Gullar vende, isso para mencionar poetas de primeira linha. O Até Agora está vendendo muito bem", diz.

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Por falar em Leminski, Bonvicino foi amigo e interlocutor do poeta curitibano, que aparece em alguns de seus poemas. Em "Canção (7)", Bonvicino escreveu o seguinte: "Basta de discípulos wishful thinking/ de Leminski inclusive/ Basta! do Leminski/ de não-discuto-com-o-destino". Trata-se de uma crítica aos fãs de Leminski, que reproduzem principalmente os poemas rápidos e curtos e ao próprio autor paranaense. "Mantivemos um diálogo e uma amizade, mas erámos muito diferentes. Sua poesia escrita nada tem a ver com a minha, suas buscas idem. Ele (Leminski) queria ser amado e eu queria ser odiado. Ele foi prosador e eu detesto escrever ficção (prosa)", finaliza Bonvicino.