Histórias de famílias de imigrantes da comunidade judaica de Curitiba são o fio narrativo do documentário de Cintia Chamecki| Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo
Com Cintia, Jaime Lerner visitou a casa onde passou a infância

Há 17 anos, a coreógrafa Cintia Chamecki arrumou as malas e partiu para Nova York. Não se enxergava, à época, como uma imigrante. Pretendia aprofundar seus conhecimentos de dança, viver novas experiências. Mas sem o intuito de criar raízes nos Estados Unidos: a possibilidade de retornar a Curitiba, cidade onde nasceu, sempre existiu. Mas foi se tornando mais distante com o passar do tempo.

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Na metrópole norte-americana Cintia, hoje com 41 anos, construiu uma nova vida e reencontrou um conhecido, o também curitibano Alan Brik, profissional da área de finanças com quem se casou e constituiu família. O casal tem dois filhos, Camila, de 11 anos, e Felipe, 9.

"Eles são americanos, mas também brasileiros. Pelo menos duas vezes por ano retornamos para visitar meus pais e meus sogros e o resto da família", diz Cintia, em quem o fato de os filhos estar crescendo em outro país, inseridos numa outra cultura, despertou uma inquietação.

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De origem judaica, assim como o marido, Cintia se deu conta de que havia feito o caminho inverso de seus antepassados, que imigraram da Europa para o Brasil, muitos fugindo do crescente clima de antissemitismo no período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Buscavam melhores condições de vida, mas tiveram de enfrentar dificuldades, como boa parte dos estrangeiros de várias etnias que chegaram ao país desde o século 19.

"Meus filhos têm tudo o que precisam, vivem com conforto, estudam em uma boa escola, mas para a minha e muitas outras famílias de imigrantes da comunidade judaica não foi assim", diz Cintia, que lembra de histórias narradas por sua avó materna, Ester Bebik. "Ela contava, mas nunca em tom de lamento, que, ao chegar a Curitiba, sua família dividia uma casa com outra família, com mais de dez pessoas. Na hora do banho, todos tinham de usar a mesma banheira, com a mesma água."

Reconstituição

Do desejo de resgatar essa e muitas outras histórias, para que pudesse contar a Camila e Felipe – e ao resto do mundo – nasceu o desejo de realizar o documentário Aqui Estamos, que tem como subtítulo Danken Got, "Graças a Deus" em ídiche, língua de origem germânica, adotada por judeus na Europa Central e Oriental.

O filme reconstitui o processo de formação e desenvolvimento da comunidade judaica de Curitiba, a partir de depoimentos de 15 de seus integrantes, que incluem desde o pai de Cintia, Zalmon Chamecki, até o arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que foi prefeito de Curitiba e governador do Paraná.

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No filme, Lerner revisita, em companhia de Cintia, a casa onde passou a infância, na Rua Barão do Rio Branco, que era, ao lado das praças Tiradentes e Generoso Marques e da Rua Alferes Poli, regiões da cidade onde a comunidade judaica residia e instalava seus negócios.

Entre 2009 e 2011, foram ouvidas em torno de 45 pessoas. A maior parte das entrevistas foi feita em um set criado no Centro Israelita do Paraná, situado no bairro Bom Retiro, em Curitiba. "Procurei deixar que todos falassem livremente o que quisessem, contassem suas histórias. Pretendíamos gravar cinco depoimentos por dia, estimados em duas horas cada, mas por vezes os entrevistados falavam muito mais."

Aqui Estamos (Danken Got) passa por vários momentos da trajetória dos judeus em Curitiba. Resgata o momento da chegada dos primeiros imigrantes, em fins do século 19. Conta que um número bem mais expressivo de famílias desembarcou na cidade no período entre as duas guerras, e uma terceira leva veio após 1945, quando foram revelados ao mundo os horrores do Holocausto. Todo um segmento do filme é dedicado a esse momento doloroso.

A produção tem codireção de Andrea Lerner, filha do ex-governador que também mora em Nova York, onde mantém com a irmã de Cintia, a também coreógrafa e cineasta Rosane, a companhia experimental de dança contemporânea e cinema, chameckilerner.

Vencedor do prêmio de melhor documentário pelo público no Festival de Cinema Judaico de Punta del Este (Uruguai) e já apresentado em mostras semelhantes em Curitiba, São Paulo e Miami, Aqui Estamos já tem distribuição garantida na América do Norte, por meio da Menemsha Films. O data de seu lançamento no Brasil ainda está a definir.

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