José Antonio Pedriali foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Paru| Foto: Editora Record/ Divulgação

Londrina - Não é novidade o surgimento de um novo romancista, mas certamente é se ele tem 53 anos e o romance, além de maduro, mostra mão de mestre. O londrinense José Antonio Pedriali publicou em 1985 seu primeiro e até há pouco único livro, o memorialista Guerreiros da Virgem, sobre sua passagem pela organização Tradição, Família e Propriedade, a TFP. Agora, como para se vingar do atraso, o romance Fuga dos Andes é tocado com fineza narrativa e madureza política, a indicar uma evolução não só do escritor como do próprio romance latino-mericano, que se tornou gênero distinto com Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez e Manuel Scorza, entre outros.

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Como esses mestres, Pedriali arrisca-se na política, enfiando-se nas entranhas da organização peruana guerrilheira Sendero Luminoso e, ao mesmo tempo, na rede de informantes policiais montada para desarticular a organização. O conhecimento do au­­tor, num e noutro mundo desses mundos paralelos, é muito convincente e envolvente, evidenciando a expertise de quem foi repórter do jornal O Estado de S. Paulo, no Peru, no auge do senderismo.

Permeando o confronto entre o delírio ideológico dos senderistas e a esperteza fria dos policiais, vai também sendo traçado, com lirismo delicado e envolvente, o caso de amor entre o repórter protagonista e uma líder guerrilheira arrependida dos desmandos senderistas.

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É uma receita propícia para deslises narrativos, que Pedriali supera com admirável competência, manejando a linguagem com criatividade, sempre roçando na poesia sem perder o fôlego narrativo. Essa receita é enriquecida pela in­­serção de notícias, corroborando fa­­tos verídicos (o romance parte, por exemplo, do assassinato equivocado de oito jornalistas por camponeses, que julgavam estar ma­­tando senderistas que infernizavam as aldeias em nome da utopia comunista).

O painel de focos e visões divergentes se acentua e ganha pungente humanidade com o depoimento de um camponês ao repórter, inserido ao longo da narrativa, evidenciando a ingenuidade e o sofrimento daqueles que, conforme Camus, "sofrem a História". Essa terralidade crua ganha, entretanto, magia, por meio de pitadas de realismo fantástico bem dosadas e inseridas de modo a elevar todo o romance a uma redentora espiritualidade.

Também pungente se torna o ro­­mance entre o repórter e a ex-guerrilheira, com momentos de aguda e trágica poesia. Ao final, a sensação é de remissão, diante da evidência de que a arte redime até a má política, justiçando-a com humanidade e beleza. E o chamado romance latino-mericano, que parecia esgotado, renova-se vigorosamente, com uma fineza e uma maturidade também redentoras.

Ressalvado o pecadilho do autor, em algumas passagens, intrometer-se na narrativa com informações que podiam ser fornecidas ao leitor pelo protagonista repórter, a convicção que fica é que nossa literatura ganhou uma obra-prima.

Serviço

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Fuga dos Andes, de José Antonio Pedriali. Record, 397 págs., R$ 57,90.