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Inspiração para a obra remete a hotéis de Balneário Camboriú | Divulgação
Inspiração para a obra remete a hotéis de Balneário Camboriú| Foto: Divulgação

Livro

As Fantasias Eletivas

Carlos Henrique Schroeder. Record. R$ 32. Romance.

Durante cinco anos, atrás de balcões de hotéis em Balneário Camboriú, o catarinense Carlos Henrique Schroeder viu um desfile de fauna humana. O emprego de recepcionista, usado para pagar a faculdade de Psicologia, obrigava-lhe a trabalhar quase sempre das 23 às 7 horas. Precisava lidar com traficantes, prostitutas e turistas de todo tipo. Quando a noite caía no balneário, Schroeder escrevia contos sobre os hóspedes. Mas não sentia vontade para publicá-los, porque sentia ter "sugado a essência" dos visitantes.

Schroeder define-se, hoje, como "um contista de alma". E mesmo lançando um romance, As Fantasias Eletivas (Record), não nega a influência do gênero curto. Primeiro porque nasceu do conto "Os Recepcionistas", sobre a tal experiência em hotéis. Segundo, porque a escrita de Schroeder busca um traço típico da narrativa breve: a concisão.

"Foi feito para ser uma tormenta de bolso. Não consigo ser prolixo, vou cortando e cortando até chegar à síntese da síntese", afirma o autor.

Mais do que só a experiência de recepcionista, Schroeder se inspirou nas particularidades das cidades turísticas. A solidão acabou se impondo como tema principal do romance. Em As Fantasias Eletivas, o leitor conhece a história de Renê, um recepcionista bronco que destruiu suas relações familiares, cuja rotina é alterada pela improvável amizade com a travesti Copi, uma escritora de contos criados a partir de fotos que tira.

"Em cidade turística tudo tem preço. Todo mundo vem com o sonho de curtir, mas é tudo a ilusão do turismo", diz Schroeder. "É um livro não só sobre a solidão, mas também sobre a escrita. A impossibilidade dos textos de Copi irem para algum lugar é o que ocorre com a maioria dos autores."

Quem conversa com Schroeder vê logo sua animação ao falar de Copi. Foi o personagem que ele mais gostou de criar. Durante a experiência como recepcionista, conheceu várias travestis que se prostituíam em Balneário Camboriú – e gostava de observá-los.

"São pessoas muito brincalhonas e diretas. Mas eu percebia nelas essa solidão como uma marca terrível. Eram seres também muito melancólicos. Você já viu travesti velho? É difícil. Muitos se matam ou tomam outro caminho. É uma situação meio trágica", afirma ele. "Se você observar, muitas pessoas usam o travesti de uma forma brutal, como se fosse uma boneca, sem pudor algum. É como se fosse apenas o uso de uma carne. A Copi tomou conta do livro, e o Renê virou uma testemunha da história dela."

Para criar seu personagem favorito no livro, precisou escutar. Conversou com travestis de sua cidade para poder escrever os diálogos entre os dois personagens. As conversas do bronco Renê e a escritora apresentam, assim, o encontro do mundo iletrado com a literatura.

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