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O dia 4 de maio de 2007 vai marcar os 70 anos da morte de Noel Rosa (1910 – 1937). As homenagens, no entanto, começam agora, com o relançamento de uma caixa de CDs "definitiva" com a obra do Poeta da Vila. Noel Pela Primeira Vez chegou às lojas em 2000 e estava há mais de dois anos fora de catálogo. Graças a uma parceria da gravadora Velas com a fabricante NovoDisc, está de volta ao mercado. São 14 discos, que reúnem 229 canções e acompanham um livreto de 160 páginas com fichas técnicas, glossário dos termos usados nas letras e detalhes sobre os fonogramas.

É a obra de Noel na íntegra, reunida pelo professor de Biologia e pesquisador de música brasileira Omar Jubran. Durante cerca de dez anos, ele garimpou registros originais, remasterizou as faixas e correu atrás de recursos para a conclusão da empreitada (que vieram da Funarte e do Ministério da Cultura). A digitalização do material foi feita a partir dos antigos discos de 78 rotações, o que só confirma a importância musical e histórica do projeto. Cuidadoso, Jubran fez questão de manter intacto até o instrumento mais escondido de cada gravação.

O resultado são horas e mais horas de raridades, curiosidades e muitos clássicos. "Com Que Roupa?", "Não Tem Tradução", "Fita Amarela", "Palpite Infeliz", "X do Problema", "Feitiço da Vila", "Último Desejo", "Pastorinhas", "Conversa de Botequim"... Estão todos lá, às vezes em mais de uma versão. E o que dizer dos intérpretes? A começar pela amiga (e, posteriormente, "guardiã" da obra de Noel) Aracy de Almeida, a lista é enorme: Francisco Alves, Marilia Batista, Mário Reis, Almirante, Elizeth Cardoso, João de Barro. Sílvio Caldas, Orlando Silva, Carmen Miranda.

Mas o charme da caixa está, sobretudo, nas interpretações do próprio Noel. Sozinho ou em dupla, ele aparece soltando a voz econômica e precisa em diversos temas, com destaque para os bem-humorados "Mulata Fuzarqueira", "O Pulo da Hora", "Vou Te Ripar", "Picilone", "Gago Apaixonado".

Antes de Noel, a música brasileira era sisuda, dramática, pernóstica. Com ele, vieram a leveza, o humor e o tom de crônica social que garantem a contemporaneidade de boa parte de sua letras. Não por menos, é considerado o pioneiro de uma linhagem musical que inclui mitos como João Gilberto e Chico Buarque. "O Chico, para mim, é o grande herdeiro do Noel. Os dois trabalham, ao mesmo tempo, com uma sofisticação melódica e letras aparentemente simples, mas que dizem muito", opina o ator e cantor Marcio Juliano, idealizador do show Nöel, em cartaz em Curitiba desde junho.

Juliano conta que a melhor fonte de pesquisa para montar o repertório do espetáculo foi justamente a caixa relançada pela Velas. "Nosso objetivo era criar arranjos novos, mas com base nos originais. Nesse sentido, a caixa foi um presente para nós", diz o cantor, cujo show ainda terá duas datas até o fim do ano (dias 29 de novembro e 13 de dezembro, no Teatro do Paiol).

Nascido e criado no bairro carioca de Vila Isabel, Noel Rosa desde cedo mostrou sua inclinação para a música e a boemia. Chegou a começar o curso de Medicina, mas o largou para viver de suas composições e da atividade de violonista. Mesmo com os dois pulmões comprometidos pela tuberculose, não abandonou os bares da vida. Morreu antes de completar 27 anos. "O engraçado é que a gente pensa nele como alguém muito antigo. Mas era um jovem quando morreu", observa Juliano.

Como outros gênios que se foram cedo demais, Noel será sempre jovem. E, pelo menos até aqui, continua atualíssimo.

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