
Uma das mais certeiras traduções do que pode vir a ser chamado de adulteen (meio adulto, meio adolescente) foi sintetizada pelo autor inglês Nick Hornby no protagonista do romance Alta Fidelidade, publicado na já distante década de 1990. Rob Fleming tem (cronologicamente) 35 anos, mas o seu comportamento que dialoga com referências musicais pop (adolescentes por excelência) denuncia uma escolha em permanecer em uma Terra do Nunca (a adolescência), que o Peter Pan pós-moderno se recusa a abandonar.
Fleming não é (apenas) fruto do engenho de dentro de Hornby. O personagem traz ecos de sujeitos da realidade, não só do continente europeu. Apesar do termo adulteen ser um neologismo recente, os estudos a respeito de adolescentes tardios ou, dito de outra maneira, de adultos que se comportam como adolescentes pipocam planeta afora pelo menos há uma década. Entre uma aula na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e outra sessão em seu consultório, o psiquiatra Antonio Jacintho detecta um dos fatores que decifra a esfinge adulteen: a negação da passagem do tempo.
"O adulto que deseja ser e agir como adolescente é alguém, no mínimo, com dificuldade para enfrentar o tempo. O tempo não precisa ser um algoz. O tempo pode ser um 'amigo'", afirma Jacintho. A reflexão do psiquiatra sugere imagens: não é apropriado sair de sunga em pleno inverno. Se cada estação tem o seu inferno (e suas respectivas delícias), um quarentão que insiste em rejuvenescer via cirurgias plásticas e roupas não-condizentes com a própria idade pode, por exemplo, representar, não um cover do personagem de Hornby, mas uma caricatura como o Tiozão da Sukita.
O escritor gaúcho radicado em São Paulo Marcelo Carneiro da Cunha joga um grão de discórdia na discussão. Aos 51 anos, 15 livros publicados alguns deles com personagens adulteens), ele acredita que o adulto não precisa se comportar como reza a tradição. "Não sou obrigado a usar gravata, ser sério de fachada nem representar um papel convencional", dispara o escritor, que também é um bem-sucedido publicitário. Cunha argumenta que, se o que define um adulto é o fato de assumir as conseqüências de todos os atos, um cinqüentão como ele pode, por exemplo, se reinventar da atitude, relacionamentos ao vestuário.
O verbo amadurecer
O carioca João Estrella, 47 anos, foi assumidamente um adulteen até os 35. Ele tem a sua trajetória desnudada no livro Meu Nome Não É Johnny, escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, posteriormente transformado em um dos grandes sucessos do cinema brasileiro recente. A ausência de limites levou João-Johnny ao mundo do crime. "De certa forma, a juíza que poderia tê-lo condenado a 30 anos de prisão, e condenou-o a 2, percebeu que havia nele chances de recuperação com a vivência e o amadurecimento", comenta Fiúza. Hoje, dez anos livre das grades, João acaba de ter o seu primeiro filho e, pela leitura do biógrafo, talvez ele tenha (definitivamente) deixado a adolescência no passado mais do que imperfeito.
A receita para gerar um adulteen varia. Pode ser pela ausência de limites, a exemplo da educação recebida por João Estrella, ou pela presença de pais superprotetores. O resultado costuma ser o mesmo: alguém com pouca maturidade emocional, garantem diversos especialistas de universidades brasileiras consultados pela Gazeta do Povo. "Não assumir compromissos, ou pular de uma relação para outra, numa espécie de 'consumo' de pessoas, também pode definir um adulteen", comenta a professora de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Terezinha Rech.
A inércia em permanecer na casa dos pais é outro sinal identificador de um adulteen. "Por que alguém vai sair da residência paterna, com roupa lavada, comida e quarto?", pergunta a psicóloga Andréa Ferrari, dividida entre o Centro Universitário La Salles e uma clínica em Canoas (RS). O estranho e irresistível hábito de consumir pode ser outro imã que prende rapazes e moças na barra da saia da mãe. "Ao invés de enfrentar contas, condomínio, luz e água, a tentação de comprar celulares, aparelhos digitais e roupas acomoda muita gente", completa o professor de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Sandro Caramaschi, de Bauru.
Por falar em consumo, o escritor e jornalista carioca Arthur Dapieve observa que, se o termo teenager talvez tenha surgido no século 18, a adolescência foi inventada, como filão de mercado, junto com o boom dos Beatles. "Tem culturas em que a criança ainda passa direto para a fase tida como adulta", enfatiza. Se na televisão, de programas a comerciais, o que se valoriza é o ser e estar jovem, talvez nada mais previsível, pensa Dapieve, que até mesmo não-jovens queiram permanecer na, de fato, "melhor idade" não a velhice, mas a adolescência sem fim.
O para sempre acaba?
Um poema de Paulo Leminski, dos anos 1980, já tratava deste irresistível sonho que é uma variante da busca pela fonte da juventude. "Quando eu tiver setenta anos/ então vai acabar esta minha adolescência/ vou largar da vida louca/ e terminar minha livre docência." Mezzo FM rebeldia, mezzo brincando para disfaçar a "verdade", o texto define o adulteen: "Vou fazer o que minha mãe deseja/ aproveitar as oportunidades/ de virar um pilar da sociedade/ e terminar meu curso de Direito/ então ver tudo em sã consciência/ quando acabar esta adolescência."
Se a condição de artista praticamente autoriza um adulto a emular um adolescente, como fazem os rockeiros (ver na página ao lado), os não-artistas até parecem ter vontade de ingerir pílulas para não envelhecer. Problema? Que nada? Doença? Até o cinema já absorveu o assunto, a exemplo do que a matéria Em Busca dos Garotos Perdidos revela na página 3. Ser um adulteen é apenas mais uma nuance deste presente em que padrões são rompidos, certezas esfaceladas e verdades relativizadas.




