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Prólogo

Tudo culpa do Ary Barroso

  • Sandro Moser
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TOPO

Tudo culpa do Ary Barroso

Aloysio de Oliveira gostava de dizer que era homem de sorte. Tinha nascido “de banda para a lua”. E que a fortuna maior de sua vida, ele a devia toda para Ary Barroso.

O compositor mineiro de Aquarela do Brasil deu causa a um famoso episódio durante a filmagem do musical Alô Alô Carnaval dirigido pelo americano Wallace Downey em 1936.

No início daquela década, Downey produziu uma série de filmes que serviam de veículos para que o público pudesse ver nas telas dos cinemas seus artistas favoritos, que até então conheciam somente através dos discos e do rádio.

Uma fórmula de sucesso que tinha sido comprovada pelo recém-inventado cinema falado norte-americano com Bing Crosby ou com a dupla de dançarinos Nicholas Brothers.

Nesses filmes, em geral o roteiro era menos importante; uma pequena história, que ninguém entendia direito, apenas para ligar os números musicais.

Alô Alô Carnaval era o projeto mais ambicioso dessa leva. A cena final era um número em que Carmen Miranda cantaria o samba “Boneca de Piche”, de Ary Barroso, em dueto com o cantor Almirante.

Na última hora, porém, com o cenário montado e equipe a postos, Ary telefona a Downey pedindo o triplo do preço acertado anteriormente pelo uso da canção. O americano, pulou fora e incumbiu Almirante de resolver a questão achando outra música para o número. Este, por sua vez, lembrou de um jovem compositor baiano que conhecera na Rádio Nacional, recém-chegado ao Rio de Janeiro chamado Dorival Caymmi.

Caymmi foi levado à casa de Carmen, no bairro da Urca, e mostrou seus sambas, entre eles “O Que é Que a Baiana Tem”. Empolgada com a força da canção, Carmen – que era exímia costureira – confeccionou um traje de baiana e na noite seguinte gravou o tema no filme.

De quebra, a “pequena notável” incorporou o número ao espetáculo que estrearia dois dias depois, no Cassino da Urca , o conjunto vocal fundado por Aloysio sete anos antes.

O incidente mudou a história dos três personagens. Caymmi emplacou o primeiro de muitos sucessos. Carmen foi contratada por um produtor da Broadway que se encantou com o número da baiana. Por exigência da estrela, Aloysio e o Bando da Lua também partiram para os EUA . E a música popular brasileira nunca mais foi a mesma.

1.º ato: a glória com Disney e Carmen

O escritor F. Scott Fitzgerald (1896-1940) dizia que não há segundo ato na vida americana. O aforismo é belo achado para explicar o pragmatismo da cultura na “terra das oportunidades”. Mas não basta para explicar a vida do mais “americano” dos artistas brasileiros. A trajetória de Aloysio de Oliveira teve dois atos bem definidos.

O primeiro começou em 1929 quando criou, ainda adolescente com os amigos de infância do bairro do Catete, no Rio de Janeiro, o grupo vocal Bando da Lua. Durou até 1955, quando Carmen Miranda morreu.

O segundo começou no ano seguinte quando, de volta ao Brasil, atuou como produtor da Odeon e, a partir de 1960, do selo Elenco, e foi um dos artífices da consagração da bossa nova no mundo.

Sua aparição com o Bando da Lua já demonstrava que Aloysio não tinha vindo a passeio no incipiente showbiz brasileiro – o início de nossa era do rádio.

“[O Bando da Lua] foi o primeiro grupo vocal a introduzir harmonias alteradas nas marchinhas e sambas da época. A influência do bando gerou vários seguidores de nomes próximos, como Garotos da Lua e Namorados da Lua [de onde sairiam os cantores Lúcio Alves e João Gilberto]”, observa o jornalista e crítico musical Tárik de Souza.

Sob o comando de Aloysio, o Bando da Lua se destacava da fauna dos artistas da “era do rádio” brasileira pelo profissionalismo e organização.

“Quando o conjunto tornou-se realmente profissional, os integrantes resolveram montar estrutura e organização. Alugaram uma sala perto da Praça José de Alencar, que funcionava como sede, onde colecionavam todas as informações e registros sobre o grupo, como violões, guarda-roupa, discos, fotografias etc., e que também funcionava como ponto de reunião para ensaios.

Chegaram a ter três jogos de violões iguais feitos especialmente para o conjunto. Tinham ainda extremo cuidado quanto ao figurino. Chegaram ao requinte de possuir seu próprio equipamento de som”, explica o pesquisador Ricardo Cravo Albin.

Também era influenciado pela música norte-americana que chegava via rádio e cinema. Algo que rendia críticas de pessoas como o compositor e jornalista Orestes Barbosa que, em 1932, já chamava o bando de “americanizado”.

A reportagem procurou falar com o pesquisador José Ramos Tinhorão, famoso pela língua ferina e por um olhar extremamente crítico sobre a evolução da música popular, que inclui uma impaciência com a bossa nova.

Tinhorão disse que não gostaria de falar sobre Aloysio de Oliveira porque o jornal não poderia replicar os insultos e palavrões que o personagem merecia. O historiador limitou-se a dizer que a geração de músicos de Aloysio foi a primeira a “mascar chiclete”; a primeira da classe média brasileira que trocou a França pelos EUA como paradigma e isso se refletiu na música de maneira contundente, com a apropriação da identidade brasileira por uma forma pasteurizada e mais palatável ao estômago do novo colonizador cultural. Críticas que só se agravaram quando Aloysio assumiu a direção artística da Odeon em 1956.

Em sua autobiografia, De Banda Para a Lua (Record, 1975), Aloysio admite e se orgulha dessas influências e de ter sido um embaixador da música nacional para o mundo. Além de contar deliciosas histórias das viagens do Bando pelo mundo, e de suas várias conquistas amorosas.

Uma delas foi a própria Carmen,um romance que começou no Brasil, atravessou o Atlântico e nunca se resolveu muito bem. Aloysio foi sempre o amigo mais próximo, uma espécie de mentor de Carmen durante o período americano. Juntos fizeram milhares de shows, viajaram o mundo, participaram de uma dezena de filmes e conviveram intimamente. Ele foi uma das últimas pessoas a ver a cantora com vida durante a grande festa na véspera de sua morte em 5 de agosto de 1955.

Outra faceta marcante do primeiro ato da vida de Aloysio foi a proximidade e a influência sobre o cineasta Walt Disney. Quando o pai do Mickey Mouse foi destacado por Washington para, usando o cinema, estreitar as relações com as nações da América do Sul no pós-segunda guerra, Aloysio se tornou um colaborador próximo.

Além de atuar nos filmes Alô Amigos (1942) e Você Já Foi à Bahia? (1944), foi consultor na criação do personagem Zé Carioca (inspirado em seu colega de Bando, José do Patrocínio, e em outras figuras cariocas) e também foi o narrador oficial dos filmes de Disney na América do Sul.

2.º ato: a elegância da bossa nova na Odeon

Com a morte de Carmen, Aloysio de Oliveira ainda sustentou o Bando da Lua por mais um ano. Em 1956, porém, trocou Hollywood pelo Rio de Janeiro depois de receber o convite para ser diretor artístico da gravadora Odeon.

Rapidamente, Aloysio soube farejar o caminho que a música urbana brasileira tomaria na década seguinte. Em 1959, a Odeon produziu o disco fundamental da bossa nova, Chega de Saudade.

Era o primeiro disco solo do ex-discípulo João Gilberto, cantando de modo inovador algumas das melhores letras do amigo Vinicius de Moraes e com arranjos do jovem maestro e compositor de maior parte das faixas Tom Jobim. Um clássico.

“O diferencial de Aloysio neste e nos vários outros projetos de que participou foi sua criatividade e alta sensibilidade musical. Como era multitarefas e conhecia todas as manhas do ramo, Aloysio sabia fazer as apostas certas”, aponta Tárik de Souza.

Em um texto de 1966, o maestro Julio Medaglia sustenta a tese de que Aloysio arquitetou esteticamente a nova música brasileira na produção de Chega de Saudade.

“O impacto, a polêmica e ao mesmo tempo o interesse suscitados com o lançamento de Chega de Saudade não foram meramente acidentais. Nele se concentravam, da maneira mais rigorosa e dentro do mais refinado bom gosto, os elementos renovadores essenciais que a música popular brasileira urbana exigia naquele exato momento, em sua vontade de assimilação de novos valores”, diz Medaglia.

Ainda na Odeon, Aloysio apostou a maior parte de suas fichas na bossa nova e auxiliou na decolagem do gênero lançando disco de Sérgio Ricardo e de Sylvia Telles (com quem se casaria), mas também na modernização do samba, com a descoberta de Elza Soares.

Em 1960 transferiu-se para a gravadora Phillips, onde trabalhou por oito meses produzindo grandes álbuns com Maysa, Agostinhos dos Santos e outros.

Confirmando seu papel de embaixador da música nacional nos EUA teve papel fundamental na organização do famoso concerto de vários artistas brasileiros como Tom Jobim e João Gilberto no “Festival de Bossa Nova”, realizado no Carnegie Hall, em 1962, em Nova York. Um show que foi a centelha do fenômeno mundial da bossa como a nova música para ouvidos sofisticados.

Atento a isso, no ano seguinte, Aloysio decidiu empreender. Emprestou dinheiro, alugou um escritório no centro do Rio, contratou os estúdios da Rio-Som e fundou o selo Elenco.

O portfólio da gravadora incluía nomes da bossa nova como Tom, Sérgio Mendes e Baden Powell. Relançava com roupagem moderna alguns dos nomes mais interessantes da velha guarda como Cyro Monteiro, Dorival Caymmi e Aracy de Almeida. Também farejou o sucesso de novíssimos talentos (Maria Bethânia e Edu Lobo).

Não bastasse o conteúdo musical, a Elenco surgiu com uma proposta de design de capas que revolucionaria o mercado fonográfico no país.

Os “produtos” Elenco eram embalados com uma unidade estética que remetia ao bom gosto e à elegância com que eram produzidos.

Segundo Marcello Montore, autor de Elenco – A Cara da Bossa (Grifo, 2009), Aloysio seguiu as lições de Walt Disney e decidiu terceirizar as etapas de produção, convocando os melhores designers para cuidar das capas.

Contraste

A revolução visual foi liderada por César Gomes Villela. O conceito gráfico era inovador: sobre um fundo branco apareciam o logo da gravadora, o título do disco e uma foto do artista em alto contraste.

A impressão era feita em duas cores, preta e vermelha. Não era uma medida de economia de Oliveira e sim uma solução estética inovadora.

“Assim, os discos da Elenco deixaram de ser vistos apenas como mais um artigo de consumo e ganhou status de objeto de desejo, algo que dava prestígio ao seu proprietário”, explica Montore.

Em 1967, quando a bossa saiu de moda, Aloysio sentiu a crise. Viúvo de Sylvia Telles (que havia morrido num acidente de carro), vendeu o selo para a Philips e regressou para Los Angeles. Morreu, numa espécie de autoexílio, de um câncer que preferiu não tratar em 1995.

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