“The Crown”: uma das maiores realizações da Netflix no ano| Foto: Robert Viglasky/Netflix/Divulgação

Por mais tentadora que seja a vontade de botar fogo em 2016, um dos pontos positivos deste ano foi a televisão. No que mais toda uma nação exausta – com a garganta dolorida de tanto discutir e os dedos fatigados de trocar insultos nas redes sociais – poderia se apoiar, se esparramando no sofá coletivo e procurando algum alívio?

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Nunca para mim foi tão difícil selecionar apenas 10 das minhas séries favoritas do ano. Um brinde, então, à era do “auge da TV”, enquanto ela durar, e à tudo aquilo de aparentemente ilimitado que ela nos oferece.

1. “O.J.: Made in America” (ESPN)

Uma obra notável de pesquisa e síntese, esse documentário de 7 horas e meia de Ezra Edelman nos oferece um ensaio persuasivo sobre o tema da justiça norte-americana no tocante a questões raciais. Após 20 anos de ânimos exaltados (seja por revolta ou alívio) à mera menção do julgamento e veredito de O.J. Simpson, o toque de mestre de Edelman em lidar com os fatos e contexto foi a melhor coisa na TV este ano, notável pela capacidade de manter uma calma deliberada e quase assombrosa dentro de uma cultura consumida pela injustiça.

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2. “Veep” (HBO)

Após cinco temporadas (e a troca de um produtor executivo), era fácil presumir que essa comédia política mordaz não conseguiria dar conta de competir com o show de horrores da vida real que foi a eleição para presidente dos EUA. Mas “Veep” chegou com tudo e lançou Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) e seu breve mandato como presidenta em meio a uma completa crise do colégio eleitoral, que criou alguns dos momentos mais engraçados e pungentes da série até agora – e que combinam perfeitamente com a época em que vivemos. Eu, pessoalmente, ainda fecho com a Selina.

3. “The Americans” (FX)

A quarta temporada desse drama da era Reagan sobre um casal de espiões soviéticos que moram na Virgínia do norte (Matthew Rhys e Keri Russell) foi um momento pivô na série, que parece estar decidida a não deixar nenhuma unha para os telespectadores roerem mais. Agora que falta oficialmente apenas duas temporadas para a série terminar (e agora que ela enfim conquistou a atenção de um público maior), o nível de ansiedade só deverá crescer, conforme o FBI chega cada vez mais e mais perto de descobrir os nossos anti-heróis. Mando um destaque especial (e um pacote de manteiga de amendoim americano) para a Martha Hanson de Alison Wright, aonde quer que ela possa ser mandada agora.

4. “Transparent” (Amazon)

Os fãs dessa comédia/drama impecável de Jill Soloway amam a série principalmente por conta da jornada de sua protagonista Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor), conforme ela explora a vida como mulher. Mas a 3ª temporada de “Transparent” ampliou os seus temas ambiciosos de identidade dentro da família Pfefferman, tocando na época em que os pais de Maura fugiram do Holocausto. A série deixou de ser só sobre transexualidade, mas é também uma história profunda e narrada lindamente sobre a experiência judaica americana.

5. “The People v. O.J. Simpson: American Crime Story” (FX)

Quem teria acreditado, há um ano, que duas das melhores séries de 2016 teriam sido sobre o julgamento de O. J. Simpson de 1994-1995? Eu que não. Mas “The People v. O.J.” superou na hora o apetite dos espectadores pelo estilo de humor exagerado de Ryan Murphy (John Travolta no papel de Robert Shapiro?) e, no lugar disso, nos deu uma obra viciante de reencenações estruturadas com muita consideração – contando com uma ajuda imensa, é claro, das performances de destaque de Sarah Paulson e Sterling K. Brown como os promotores Marcia Clark e Christopher Darden, junto com a interpretação poderosa de Courtney B. Vance como o advogado de defesa Johnnie Cochran.

6. “Atlanta” (FX)

Essa comédia/drama onírica de Donald Glover tem uma atmosfera experimental e relaxada, às vezes seguindo pela tangente ou dando um aspecto inacabado. Num subúrbio predominantemente negro de Atlanta, acompanhamos Earn (Glover) em suas tentativas de lidar com a explosão da carreira de seu primo no rap e ajudar a cuidar da sua filha com sua namorada, com quem ele tem uma relação complicada de termina-volta-termina. “Atlanta” não é bem a obra de comentário social nítida que alguns espectadores podiam esperar, mas, como um mural complexo de uma comunidade, é muito mais impressionante do que isso.

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7. “Quarry” (Cinemax)

Um drama violento e moralmente ambíguo ambientado no mundo do crime dos anos 70, “Quarry” parecia a princípio ser igual a qualquer outra coisa na TV a cabo, mas a série é feita com tamanha maestria – e é tão rica em personagens e cenas memoráveis – que merecia uma atenção muito maior do que lhe foi dada. Logan Marshall-Green conseguiu me ganhar fazendo o papel de Mac, um fuzileiro que volta do Vietnã para sua cidade natal de Memphis e acaba arranjando trabalho como pistoleiro. Os oito episódios de “Quarry” constroem uma história envolvente, que é contada de forma emocionante. Fico ansioso para ver mais, porém o Cinemax ainda não deu um pio sobre a possibilidade de uma segunda temporada.

8. “The Night Of” (HBO)

Uma resposta digna à pergunta de como seria um episódio típico de uma série sobre a justiça (como “Law & Order”) se tudo fosse desacelerado a ponto de chegar na velocidade relativa, mais lenta, do sistema jurídico do mundo real, dando aos espectadores a chance de ruminar não apenas sobre o processo, mas também sobre as dimensões completamente humanas de um caso de assassinato visto de todos os ângulos. A abordagem direta de “The Night Of” (sem enigmas de subtexto para resolver ou pistas filosóficas para debater) é revigorante, e o suspense é bem medido. Além do mais, há performances incríveis de Riz Ahmed como o suspeito do assassinato, John Turturro como seu advogado de porta de cadeia e Jeannie Berlin como a promotora.

9. “The Crown” (Netflix)

Luxuosos e envolventes, esses 10 episódios que servem como introdução à vida da rainha Elizabeth II da Inglaterra, quando era jovem, na versão de Peter Morgan (e que funciona, de algum modo, como um prólogo para o filme de Morgan de 2006, “A Rainha”), são a realização do sonho de qualquer telespectador anglófilo – e um sonho bem caro, aliás, custando US$5 milhões por episódio. Claire Foy e Matt Smith estão excelentes como o casal real recém-casado, mas não chegam nem perto da performance brilhante e belicosa de John Lithgow como Winston Churcill, que atua aqui como um verdadeiro leão no inverno.

10. “Billions” (Showtime)

Os anúncios dessa série davam a impressão de ser um dos exercícios mais tediosos desse gênero de de dramas de Wall Street no estilo “ganância-é-bom”, mas “Billions” chegou carregado de surpresas, incluindo um roteiro repleto de diálogos densos e elegantes. Não faz mal também que metade do elenco tenha um domínio imenso da arte de atuar, como Paul Giamatti no papel de Chuck Rhoades, um advogado que é como Ahab obcecado com uma baleia branca na forma do herdeiro bilionário Bobby Axelrod (Damian Lewis). Maggie Siff fornece uma âncora firme como a esposa de Chuck, Wendy, que também trabalha como a executiva e terapeuta pessoal de Bobby. Vale a pena dar uma corridinha atrás dos episódios de “Billions” antes da estreia da sua 2ª temporada em fevereiro.

E seguem aqui outros 10 títulos, caso você esteja se perguntando quais as séries que ficaram de fora mas quase entraram na lista:

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“American Crime” (ABC); “Better Things” (FX); “Fleabag”(Amazon); “Game of Thrones” (HBO); “Good Girls Revolt” (Amazon); “Insecure” (HBO); “Silicon Valley” (HBO); “Stranger Things” (Netflix); “This Is Us” (NBC); e “Underground” (WGN America)

Hank Stuever é o crítico de TV do The Washington Post desde 2009. Ele entrou para o jornal como escritor para a seção de estilo, onde faz cobertura de uma variedade de temas de cultura popular (e impopular) em toda a nação.

Tradução: Adriano Scandolara