Em turnê pelos Estados Unidos e Europa, onde participou do festival de Glastonbury (Inglaterra), Regina Spektor amplia seu alcance| Foto: Divulgação/Warner

Prateleira

Das gravações independentes ecléticas do princípio aos avanços para o pop foi um longo percurso. Confira a discografia básica comentada de Regina Spektor:

11:11

Independente, 2001. Importado.

Piano e voz, íntimos e autossuficientes, ambientam o disco em ares de cabaré (ouça "I Want to Sing"), sob a influência do jazz e do blues. A criatividade flui indomável, inclusive nos vocais, vigorosos, que exploram os graves. Abundam canções sobre amor e surgem personagens como Mary Ann, da faixa homônima. Destaque para o trio de abertura: "Love Affair", "Rejazz" e "Back of a Truck".

Songs

Independente, 2003. Importado.

"Oedipus", sobre a rainha grega que se tornou horrível por tocar o ho-mem que amava (alusão a Édipo e Jocasta), denuncia a letrista incomum, contadora de histórias. Impres-sões de uma realidade ilegitimável aparecem em "Daniel Cowman" ("No dia em que Daniel Cowman parou de existir/ O mundo deveria ter acabado na mesma hora/ ...Como pôde continuar?") e "Lacrimosa". Sombras pairam sobre este álbum, mas senso de humor e doçura esgueiram pelas frestas abertas ao piano, entre outras, em "Bon Idée" e na primeira versão de "Samson".

Soviet Kitsch

Independente/ Sire, 2003. Lançado no Brasil em 2007, pela Warner.

Regina Spektor continua a se amparar no duo voz e piano, embora já soe menos experimental. Em compensação, aguça sua ironia. Mira garotos cultos mas inaptos sentimentalmente ("Poor Little Rich Boy") e restos humanos de uma separação ("Ode to Divorce"), e não se furta de derramá-la nem sobre os dramas "Carbon Mono-xide" (sobre a morte de um pai) e "Chemo Limo" (uma mãe que prefere dar voltas de limusine a pagar a própria quimioterapia). Dobradinha irresistível é o diálogo sussurrado de "Whisper" interrompido pela potência punk de "Your Honor".

Mary Ann Meets the Gravediggers and Other Short Stories

Warner. Compilação, 2006. Importado.

O álbum duplo reúne canções selecionadas de seu repertório e vídeos de "Us" e de um "‘Survival Guide To Soviet Kitsch" (Guia de Sobrevivência para Soviet Kitsch).

Begin to Hope

Sire, 2006. Lançado no Brasil em 2007, pela Warner.

É o disco que tira Regina Spektor da obscuridade, projetada pelos singles "Fidelity" e "On the Radio". Sem perder a verve, as faixas ganham arranjos mais pop e solares, ainda que letras e notas ao piano deixem um gosto agridoce. A voz suavizada e melodiosa em "Samson" (de novo um mito: Sansão e Dalila) e "Another Town" (faixa da edição especial dupla, nunca lançada no Brasil) prenunciam os registros vocálicos mais agudos e adocicados de Far. Na contramão, "Uh-Merica", também do disco extra, é cantada sob o efeito de socos no abdômen; a paixão pelo jazz reaparece em "Lady"; e as origens russas, em "20 Years of Snow". "That Time" concorre ao título de a mais divertida do álbum.

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Perguntas sobre religião tombam sobre Regina Spektor desde o lançamento do single "Laughing with", em maio. Não por menos. A cantora, compositora e pianista americana de origem russo-judaica cravou 33 vezes a palavra Deus na canção, opondo situações em que é tratada como piada a outras nas quais ninguém se arriscaria rir. No hospital. Na guerra. Quando é tarde da noite e as crianças não voltaram da festa ainda.

As respostas passaram longe da certeza, seja ela devota ou cética. "Às vezes, sou sarcástica em relação a religião, às vezes sou medrosa. Às vezes, me sinto conectada e às vezes fico irritada. Estou permanentemente olhando de jeitos diferentes, como um caleidoscópio", contou ao The New York Times.

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A metáfora do artefato óptico que cria novas imagens a cada giro se ajusta com perfeição à artista de múltiplos recursos vocais, dotes expressivos ao piano e escrita criativa, senão excêntrica. Quem espiasse à época da estreia de 11:11 teria avistado um arranjo de cores e formas destoante do que se elaboraria tempos mais tarde em Begin to Hope (2006). Três anos após experimentar o gosto doce do sucesso de "Fidelity", Regina curva uns graus a mais seu caleidoscópio em direção ao pop, com o recém-lançado disco Far.

Amplia o público ao seu alcance. E já colhe os frutos: seu quinto disco estreou semana passada em terceiro lugar nos Estados Unidos.

Entregue às mãos de quatro produtores – Jeff Lynne (do Traveling Wilburys), Mike Elizondo (produziu Fiona Apple), David Kahne (The Strokes) e Garret "Jacknife" Lee (U2) –, os arranjos acobertaram o piano mais que de costume. Em troca, a bateria leve e marcada se encarregou de imprimir a levada pra cima em faixas como "The Calculation", sobre dois humanos que fazem incisões em seus corações e encontram pequenas pedras no miolo. Batidas uma contra a outra, geram faíscas apaixonadas.

Os agudos adocicados substituem os graves vigorosos de outrora. Far ganhou acabamento retocado, afável, reduzindo o espaço para respiros e arestas, embora surjam aqui e ali, para sacudir a previsibilidade.

Entre as mais belas, "Eet" insinua, num canto lento, a melancolia nostálgica tonalizada ao piano, até que a bateria surja elevando os ânimos. "É como esquecer as letras da sua música preferida/ Você não consegue lembrar, você estava sempre cantando junto/ Era tão fácil e as palavras tão doces...", entoa Regina, se servindo da "fofura" como verniz, não como um fim em si mesma. É compositora que tem o que dizer, lembra o The Guardian.

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A alegre "Folding Chair" se deixa tomar por uma batida dançante, convidativa como a proposta do primeiro verso ("Venha e abra sua cadeira dobrável perto de mim"), em um cenário praiano de romance, sobre o qual a cantora faz um intervalo para imitar o canto dos golfinhos. Regina típica: uma dose de nonsense.

O elemento ingênuo e o ritmo que fazem os ombros dançarem, numa batida hip-hop, reaparece em "Dance Anthem of the 80’s", uma das muitas faixas que eram velhas conhecidas dos fãs fieis que acompanham seus shows (Regina tem uma porção de composições nunca gravadas que infiltra aleatoriamente nas set lists). Visíveis são as digitais deixadas pelos produtores. A versão "demo" tinha uma força e uma urgência, transbordando do piano, que se abrandou na mixagem do estúdio, bonitinha e graciosamente ritmada pela bateria. Longe de perder de todo o charme.

Como não olha apenas para o umbigo, "Genius Next Door", "Man of a Thousand Faces" e "Wallet" se filiam à linhagem das histórias protagonizadas por vultos estranhos, como alguém que encontra a carteira de um desconhecido. Abrem-se às graduações sombreadas de desalento, assim como à reflexão sobre a existência em "Blue Lips". Esta, a história do vizinho-gênio, e "One More Time With Feeling" recuperam o brilhantismo de seu piano clássico tenso, para quem sentia falta.

Melhor ou pior, Far é diferente de tudo o que a cantora havia feito antes. Para uma artista que não soa como nenhuma outra (por mais que a comparem a Toris Amos, Nellie Mckay ou à discípula Kate Nash), não soar nem consigo mesma não chega a ser uma incoerência. Antes, é mérito da habilidade de não se ater a modelos. E expressar humores cambiantes, como são os da espécie humana.

Serviço

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Far, de Regina Spektor. Warner. Preço médio: R$ 34. GGGG