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Literatura

Um roqueiro bonachão

Em autobiografia, Erasmo Carlos detalha relação com família e companheiros da Jovem Guarda

Roqueiro nato, Erasmo Carlos aproveitou o que pôde da juventude, tanto no Rio como em São Paulo. Família e amigos sempre tiveram importância na vida do músico | Fotos: Divulgação
Roqueiro nato, Erasmo Carlos aproveitou o que pôde da juventude, tanto no Rio como em São Paulo. Família e amigos sempre tiveram importância na vida do músico (Foto: Fotos: Divulgação)
Erasmo em um ensaio de moda, ao lado de seu Rolls-Royce |

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Erasmo em um ensaio de moda, ao lado de seu Rolls-Royce

Ao terminar de ler Minha Fama de Mau, a vontade é de ligar para a casa de Erasmo Carlos e chamá-lo para um chope de fim de tarde. E a probabilidade de ele aceitar, acredite, seria grande. Em 360 páginas, o livro revela, mais do que se supunha, um roqueiro bonachão, generoso, sensível e sem um pingo de ressentimento.

Se é considerado por Rita Lee e outros grandes da música como o pai do rock brasileiro, para o próprio Erasmo o peso do título passa bem longe e em momento algum é razão para deslumbramentos. Parece que quem conta suas histórias não é um dos maiores compositores que o Brasil já conheceu, mas sim um garoto que reabre um livro de memórias que nunca fora esquecido. As recordações, vivas, são acessadas em uma linguagem rápida e leve.

Nascido em um bairro de classe média da zona sul do Rio de Ja­­neiro, Erasmo Esteves diz que vivia "pobre e feliz, em perfeita harmonia com gatos, um cágado, 15 periquitos e as outras pessoas que moravam lá".

Naqueles anos 1950, a juventude começava a respirar o rock-and-roll iconizado na figura de um Elvis Presley que brotava das rádios. Erasmo passava os dias recortando fotos de artistas e colecionando letras de músicas em inglês, por mais que nada compreendesse da língua naquele momento. E também passava gumex – "o avô dos géis" – no cabelo para ficar parecido com o rei do rock.

Se a mãe – "mãezinha", como diz no fim do livro – é parte importante na trajetória do artista e se desdobrava para pagar as contas com o salário que ganhava como assistente de enfermagem de um órgão do governo, o pai, ao contrário, recebe um solitário parágrafo na obra. Nilson Ferreira Coelho não assumiu a gravidez de Maria Diva Esteves. "Passei toda minha juventude achando que ele estava morto (...). Nos conhecemos quando eu tinha 23 anos e chegamos a nos encontrar com alguma frequência, mas nunca construímos uma relação de pai e filho. Fecha parênteses", escreve Erasmo.

Apesar de pequeno, o trecho é importante e, de maneira reducionista, pode ilustrar como o Tremendão lida com a vida. Porque se há algo relevante, ele se dedica e vai fundo – como quando aprendeu ao violão os acordes mi, lá e ré com o amigo Tim Maia. Mas, se não faz diferença, Erasmo esquece o que poderia vir a ser um inconveniente peso nas costas.

E, enfrentando o preconceito que surgia ao desfilar pelas ruas com um violão a tiracolo, Erasmo foi. Montou a banda The Snakes e participou dos Sputniks, grupo do qual Tim Maia era vocalista. Entre ensaios e composições, tornava-se cada vez mais amigo do agitador Carlos Imperial, que o inseria aos poucos na comunidade artística carioca e paulista. Roberto Carlos já dividia figurinhas e risadas com o Tremendão desde o momento em que tocaram "rocks americanos" em seu quarto. "Gostei dele. Era simpático, usava topete e costeletas e vestia calça Far-West com uma jaqueta vermelha tipo James Dean", descreve Erasmo.

Na mesma época, o futuro músico trabalhava como estoquista em uma loja de sutiãs. Sua verve para Dom Juan fica evidente em várias das páginas do livro e o fato de se ver em meio a lingeries, então, torna-se mais propensão do que coincidência. Também foi carregador de tijolos refratários até ser fagocitado definitivamente pela música. O primeiro passo foi escolher o nome artístico. "Não me sentia confortável ao ser anunciado nas quermesses", escreve. "Carlos" surgiu quando leu em um almanaque a energia que "emanava daquela combinação de letras". Deu certo.

Os contatos com pessoas influentes do show biz ajudaram a alavancar sua carreira. Mas ao mesmo tempo em que tomava uísques com Carlos Imperial, conhecia João Gilberto, compunha sucessos com Roberto Carlos, também comia os tradicionais biscoitos Aymoré e fazia brincadeiras adolescentes com políticos e amigos da alta sociedade. E deliciava-se.

Assim, a história de sucesso de suas mais de 600 músicas torna-se tão relevante quanto, por exem­­­plo, as apostas sem pé nem cabeça realizadas por ele e amigos. Imagine Erasmo Carlos, Tim Maia e Trindade (integrante dos Snakes) competindo para ver quem tinha coragem de enfiar a língua na água suja do meio-fio ou lamber pneus de automóveis.

O livro também dedica especial atenção aos quatro personagens principais de sua vida. Os filhos Gil, Gugu e Léo, e Norinha, com quem foi casado por 16 anos, surgem como suporte essencial para essa trajetória ascendente, que ganhou novo e ótimo capítulo, por exemplo, com o lançamento de Rock’N’Roll (2009), seu 26º disco, aos 68 anos de idade.

E nem quando escreve sobre sua trágica participação no primeiro Rock in Rio, em 1985, deixa o bom-humor de lado. Erasmo Carlos foi vaiado por uma turma de metaleiros sedentos para para ver Iron Maiden e Ozzy Os­bourne no palco. Alcides, seu secretário, bem que avisou sobre Ozzy. "Erasmo, fiquei sabendo que tem um cara aí que come morcegos". Mas Erasmo foi Erasmo. "Que nada, bicho. Ele só come as asinhas".

Serviço

Minha Fama de Mau. Eramos Carlos. Editora Objetiva. 360 páginas. R$44,90.

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