
Breno Silveira é um sujeito corajoso. Depois de levar mais de cinco milhões de espectadores aos cinemas brasileiros com Dois Filhos de Francisco, o campeão da Retomada período da produção nacional que se inicia com Carlota Joaquina Princesa do Brasil (1995) ousou não apostar no certo. Seu segundo longa-metragem, Era uma Vez, que estréia hoje em Curitiba, não se parece em momento algum com uma tentativa de repetir o sucesso da cinebiografia de Zezé Di Camargo e Luciano. E esse é um dos trunfos do filme.
Era uma Vez, como o próprio título anuncia, oferece ao espectador um quê de fábula moral, com forte influência da tragédia Romeu e Julieta, já que o romance entre os protagonistas Dé (Thiago Martins) e Nina (Vitória Frate) evoca o clássico de William Shakespeare em vários aspectos.
Enquanto que, no caso do jovem casal de Verona, a rivalidade entre as famílias Montéquio e Capuleto os impede de viver felizes para sempre, no filme de Silveira, o fator impeditivo da paixão é o fosso econômico e social entre os amantes.
Dé é favelado, mora no Morro do Cantagalo, tem um irmão (Rocco Pitanga) envolvido com o tráfico e trabalha num quiosque à beira da praia, vendendo água-de-côco e cachorro-quente. Nina é uma "pobre menina rica". Apesar de viver em um apartamento na Avenida Vieira Souto, de frente para o mar de Ipanema, sua mãe morreu, é filha única e seu pai (Paulo César Grande) vive de aparências.
Na esteira de sucessos recentes da produção nacional, como Cidade de Deus (menos) e Tropa de Elite (mais), Era uma Vez confronta a vida no "morro" e no "asfalto". E, embora o filme peque ao recorrer a alguns clichês desgastados desse filão como sanguinolentos chefes do tráfico, bailes funk e corrupção policial , Silveira acerta a mão no que interessa. A história de amor entre Dé e Nina convence, emociona, mobiliza a platéia. Há química entre os atores e verdade na trama. Nesses aspectos, o diretor repete seus acertos de Dois Filhos de Francisco.
Tragédia
Feito sobretudo para o público jovem, Era uma Vez é muito bem realizado. A seqüência inicial flashback de um incidente na infância de Dé, que selou o destino trágico dele e de seus dois irmãos é espetacular.
Depois, o filme perde um pouco o ritmo, caindo nas armadilhas de uma história que pretende ser várias ao mesmo tempo: romântica, engajada e cheia de suspense. No seu terço final, contudo, Era uma Vez ganha densidade, tensão e seu desfecho, que assume o risco de ser absolutamente anticlímax, choca o espectador. Faz justiça a Shakespeare. E emociona de verdade.



