
João Luiz Fiani esboçava um espetáculo-solo em homenagem a Lala Schneider para estrear em março de 2007, mas não houve tempo. Um mês antes, quando o diretor ainda ouvia as histórias contadas pela amiga de três décadas, morreu a dama do teatro paranaense, aos 80 anos. Lala seria a protagonista. Tornou-se personagem de uma homenagem póstuma, na peça que finalmente fará sua estreia, marcando as comemorações de 15 anos de atividade do teatro batizado por Fiani com o nome dela.
Risos e Lágrimas, espetáculo que entra em cartaz no sábado, tenta conter em aproximadamente uma hora e meia toda uma vida. "É difícil", percebe Fiani, diante do volume de informação biográfica que presenciou, ouviu e colheu de livros e entrevistas concedidas pela atriz.
Sua intenção primeira, quando ainda contava com a presença de sua ex-professora em cena, era criar uma peça de tom documental, em que Lala conversasse com a plateia. Diante da realidade da ausência da intérprete, o dramaturgo passou por um período de luto em que teve dificuldade de retomar o texto. Neste ano, sentiu-se enfim disposto a voltar ao projeto, completamente reformulado, e agora trabalhando em um registro mais afetivo emocional.
Entram em cena 20 atores. Três dos quais carregam a tarefa de interpretar a biografada, nascida na Rua João Negrão no dia 23 de abril de 1925, embora registrada no ano seguinte. Jéssica Granato, 10 anos, aluna da escola de teatro mantida por Fiani, assume o papel na fase da infância. Julia Wustefeld é a intérprete da adolescência e Carol Mamarela, da vida adulta. "A Carol em cena às vezes me assusta, porque ela fica muito igual à Lala", diz o diretor.
A amiga Odelair Rodrigues, fumante como Lala o que sempre deixou Fiani bravo é revivida por Jeiza Costa. Claudio Correa e Castro, Ari Fontoura e Aderbal Stresser (avô de Guta) também surgem em cena, como personagens, em uma trama que começa no momento do nascimento e termina com a morte da atriz, sem que a ordem cronológica se imponha nesse meio-tempo.
São contempladas passagens de vida difíceis e cômicas. O alcoolismo do pai; a demora até conseguir sua certidão de nascimento, o que impediu seu sonho de se tornar professora; o envolvimento com o teatro apesar dos avisos da mãe de que o pessoal da área poderia dopá-la e abusar da garota ; e as primeiras peças em que atuou.
De monólogo, o espetáculo acabou se transmutando em uma estrutura inspirada no teatro de revista, gênero admirado por Lala, com esquetes e a apoteose final, mas sem escadarias ou vedetes. "É um pouco Brecht também, aquilo de vir para a frente contar um pedaço da história, sem estrutura linear", diz Fiani, que conviveu diariamente com a homenageada nos sete anos em que o Vampiro e a Polaquinha ficou em cartaz, e é padrinho do filho dela.
A casa
O diretor comunicou a Lala que daria o nome dela ao seu teatro no fim de uma apresentação da peça Flô em Palácio de Urubus. Subiu no palco em meio às palmas finais e causou susto na atriz, que diria mais tarde ter pensado que Fiani tentava roubar seus aplausos. Mudaria de ideia com o anúncio da homenagem.
Prestes a completar 30 anos de carreira, Fiani relembra que a época era difícil para quem fazia teatro em Curitiba, pela falta de espaços para ensaio. Os únicos que haviam eram os públicos, e as montagens, que custavam dois meses de ensaio, não permaneciam mais de um em cartaz.
"Descendo a Rua Treze de Maio, vi o barracão para alugar. Peguei a chave na imobiliária e meti a cara. Éramos nove sócios. Bati de porta em porta para conseguir madeira, tijolo e granito, ganhamos muita coisa e levantei o Lala", conta.
O teatro Lala Schneider foi inaugurado em abril de 1994, com a peça Gnomo, escrita por Edson Bueno e dirigida por Regina Vogue, com Ranieri Gonzalez no elenco.
No espaço alugado desde então, onde se apresentam cerca de dez espetáculos por semana, em vários horários, A Casa do Terror é a campeã de longevidade vai e volta há 14 anos.
"Acho que o (teatro) Lala foi um divisor de águas em Curitiba, antes não havia teatro particular. Não temos nenhum subsídio para manutenção, somos independentes, a gente vive de bilheteria e tomamos cuidado quando uma peça estreia porque temos contas a pagar", afirma o administrador do lugar que costuma manter 80% da plateia cheia. "Às vezes não entendem por que a gente faz tanta comédia. Senão fecha", diz.







