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Entrevista

“Uma silenciosa superação pela competência técnica”

Ademir Pereira dos Santos, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP

Theodoro Sampaio: exemplo entre os negros que ascenderam socialmente no Brasil imperial e escravista | Divulgação
Theodoro Sampaio: exemplo entre os negros que ascenderam socialmente no Brasil imperial e escravista (Foto: Divulgação)

Estudos recentes fornecem elementos para superar a ausência de dados sobre os intelectuais negros e mestiços no Brasil. É o caso, por exemplo, da tese de Alexandro Trindade sobre André Rebouças (André Rebouças: da Engenharia Civil à Engenharia Social) ou, então, do recém-lançado livro Theodoro Sampaio – Nos Sertões e nas Cidades(Versal, 2011), escrito pelo doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP Ademir Pereira dos Santos. A obra detalha a vida do engenheiro baiano e mostra, por exemplo, seu papel em relação à colonização do norte do Paraná. Em entrevista ao Caderno G Ideias, o autor falou sobre o personagem central de seu livro.

Como você tomou contato com Theodoro Sampaio?

Estudei a produção técnica da Comissão Geográfica e Geológica (CGG) de São Paulo em meu mestrado, defendido em 1992 no programa de pós-graduação em História da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Sampaio chefiou a primeira expedição de levantamento topográfico e geográfico da CGG, criada em 1886. Ele elaborou um projeto de aproveitamento e urbanização do Vale do Paranapanema. Posteriormente, a região foi o portal da colonização do norte do Paraná. Analisei as proposições do então jovem engenheiro para os "terrenos desconhecidos habitado por índios". Suas ideias me fascinaram. Ele propunha ligar o Mato Grosso ao porto de Santos pelo Rio Paranapanema. Seu texto aliava erudição à objetividade que se espera de um engenheiro.

Qual o impacto do elemento racial sobre a formação e a carreira do personagem?

Sampaio é um exemplo de superação entre os negros que ascenderam socialmente no Brasil imperial e escravista. Era um "intelectual", mas não um "intelectual negro". Mas, como intelectual, também era um "negro" que, impondo-se pela competência, capacidade intelectual e de articulação política, contribuiu para superar o preconceito. Não era de sua natureza bradar e nem fazer proselitismo. Ele tinha consciência de ser a prova da capacidade dos mestiços e negros brasileiros.

Qual a trajetória pessoal de Theodoro Sampaio?

Ele foi tirado da mãe aos 4 anos e levado à cidade de Santo Amaro, na Bahia. Formou-se engenheiro civil em 1876, na segunda turma da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas iniciou sua vida profissional como professor e depois como desenhista ainda como estudante, no Museu Nacional. Formado, voltou a Santo Amaro, amparou a mãe e comprou a alforria de três irmãos. Ele obteve sucesso profissional cedo graças à sua capacidade como cartógrafo, desenhista de engenharia e também ao domínio da língua e do conhecimento técnico e científico da época. Afirmou-se em São Paulo e depois em Salvador como engenheiro e construtor. Constituiu firmas para executar grandes obras que projetou, como a rede abastecimento de água e coleta de esgoto de Salvador. Trabalhou por 60 anos como engenheiro e escreveu livros e artigos relacionados à Engenharia, Geografia, Etnologia e História, especialmente de São Paulo e da Bahia. Casou-se três vezes, teve 11 filhos e morreu aos 82 anos.

Você percebe, nas representações de Theodoro Sampaio, traços de embranquecimento ou invisibilização da cor?

Theodoro Sampaio é objeto de projeções socioculturais distintas. Às vezes é "embranquecido" e, não raro, também é "enegrecido". O importante é ir além desses dilemas. Afinal, ele fez de tudo para superá-los, dedicando-se com afinco a questões-chave para a construção do Brasil como país mestiço. Destaco, por exemplo, seu estudo sobre a importância da língua e da cultura tupi para a configuração do território nacional.

É possível chegar a alguma conclusão sobre a auto-representação de Theodoro Sampaio?

Theodoro é um raro exemplo de ascendência escrava mesmo. Percebe-se, no entanto, que ele fugia de explicações sobre sua origem. Há dúvidas sobre sua paternidade, e esse segredo ele levou para o túmulo – isso, apesar de ter sido amparado economicamente pelo pai. Ele pode ter sido filho do visconde de Aramaré, Antônio da Costa Pinto, a quem sua mãe servia como escrava doméstica, do irmão do visconde, Francisco da Costa Pinto, ou do capelão do engenho Canabrava, Manoel Fernandes Sampaio, que lhe deu o sobrenome. Essa condição e essa trajetória foram provavelmente, o principal motivo de sua inibição em relação à própria origem. Não há escritos seus sobre a questão racial e são raros os momentos em que toca em assuntos como o preconceito. Mesmo assim, ele se fez presente na constituição de um marco da organização do movimento negro no Brasil: o 2.º Congresso Afro-Brasileiro, realizado em janeiro de 1937 no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). Sob a sua presidência, o IGHB, que gozava de grande prestígio entre os governantes, profissionais e intelectuais baianos, abriu as portas para a reunião do movimento negro em gestação. Ao abrigar o evento, o IGHB legitimou a avalizou a luta organizada pela causa negra. O encontro chegou a propor a criação de uma entidade que congregasse os terreiros baianos, fazendo surgir a União de Seitas Afro-Brasileiras da Bahia.

Em sua avaliação, os conflitos e tensões vividos por Teodoro Sampaio relacionados à questão racial são comuns a outros intelectuais negros do período?

Jamais saberemos ao certo e só podemos imaginar o que significava ser negro e conseguir ascender à condição de intelectual em plena vigência do escravismo. Viver entre iguais é uma coisa. Viver e destacar-se como sábio entre os brancos e ser negro é algo bem diferente. Ele devia ser olhado com resignação e desconfiança por negros escravizados e por brancos escravistas – alguém "em quem jamais se pode confiar". O fato é que Sampaio obviamente discordava do determinismo racial e do cientificismo lombrosiano e suas variáveis, vigentes e comungados por intelectuais contemporâneos, principalmente em Salvador. Foi um dos primeiros a defender a mestiçagem como grande patrimônio étnico e cultural do Brasil. Atuou silenciosamente e de modo irreversível para que os negros fossem considerados, de fatos, iguais. Apesar de monarquista, empenhou-se como poucos na viabilização da República. Jamais deixou, porém, de ser um crítico da ineficácia dos governos e das elites econômicas diante do grande potencial representado pela mestiçagem.

Qual a importância de se resgatar a negritude de intelectuais brasileiros como Theodoro Sampaio?

Essa é uma demanda de nossa época, mas que sempre esteve presente como questão de difícil superação em nossa História. Sampaio, como André Rebouças, ascendeu a uma elite, um universo exclusivo de brancos em pleno regime escravocrata. Esses profissionais contribuíram para a aplicação do conhecimento científico à estruturação do aparato do Estado para que este viesse a garantir e oferecer serviços públicos com qualidade técnica e equidade. O capitalismo mostrou que não se interessava por este tipo de restrição.

Fotos reprodução

Da direita para a esquerda: Cruz e Souza, Lima Barreto, Alberto Guerreiro Ramos e Milton Santos

João da Cruz e Souza

(Florianópolis, 1861 – Antonio Carlos, MG, 1898)

Negro, filho de escravos alforriados, foi protegido pelo ex-senhor de seus pais, Guilherme Xavier de Souza. Recebeu educação formal, tendo aprendido francês, latim, grego, inglês e ciências naturais. Jornalista e abolicionista, é mais conhecido como poeta, sendo considerado o fundador do Simbolismo no Brasil. Suas obras mais famosas são Missal e Broquéis (ambos de 1893). Apelidos: "Dante Negro" ou "Cisne Negro".

Afonso Henriques de Lima Barreto

(Rio de Janeiro, 1881 – São Paulo, 1922)

Jornalista e escritor, autor de obras como Triste Fim de Policarpo Quaresma e Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Mulato, filho de um tipógrafo e de uma professora, descreveu vivamente as tensões associadas à condição racial dos negros e mestiços brasileiros durante a República Velha. É considerado o iniciador do jornalismo literário no Brasil (com a reportagem "O Subterrâneo do Morro do Castelo", de 1905).

Alberto Guerreiro Ramos

(Santo Amaro, BA, 1915 – Los Angeles, 1982)

De todos os intelectuais citados neste ensaio, é, junto com Milton Santos, o que mais se aproxima da contemporaneidade. Mulato, é considerado um dos principais sociólogos brasileiros do século 20, tendo contribuído para as discussões sobre a intelligentsia local. Autor de livros e ensaios em áreas como a das organizações, foi professor na Fundação Getúlio Vargas e nas universidades de Paris, Yale e do Sul da Califórnia.

Milton Almeida dos Santos

(Brotas de Macaúbas, BA, 1926 – São Paulo, 2001)

Negro, filho de professores primários, formou-se em Direito em 1948. É internacionalmente conhecido por seus trabalhos na área de Geografia. Exilado pelo regime militar, foi professor e pesquisador em instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Sorbonne e o Massachusetts Institute of Technology (MIT). Agraciado com doze títulos de doutor honoris causa, é considerado um dos principais geógrafos do século 20.

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