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História

Zumbi e os heróis que estão no limbo

Ao contrário do líder do Quilombo dos Palmares, outros importantes negros brasileiros estão relegados ao esquecimento

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(Foto: Divulgação)

Vistos deste início de século 21, os intelectuais negros brasileiros do fim do Império e início da República ocupam um lugar sui generis na configuração formadora da visão de mundo brasileira. Em certa medida, se inscrevem na "Arcádia dos Gênios" a que nos referimos quando interpretamos a frase de Olavo Bilac sobre Machado de Assis. Ou, então, entram para a História oficial como "brancos". Parecem ocupar, enfim, uma posição que desestimula sua escolha como heróis ou símbolos do movimento negro brasileiro. No mínimo, estão muito atrás de Zumbi dos Palmares, figura histórica do século 17 escolhida por parte dos ativistas negros como seu representante heróico e simbólico.

A comparação entre os intelectuais negros do fim do século 19 e Zumbi pode ser útil para a percepção de como questões recentes participam da construção de representações do passado. Para Hilton Costa, pesquisador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Paraná (NEAB-UFPR), a diferença entre o líder de Palmares e os personagens examinados nestas páginas do Caderno G Ideias reside na capacidade simbólica de agregar visões sobre a questão racial. "Zumbi, tal como o percebemos hoje, é um fato político, um constructo de agregação de várias vertentes do movimento e das reivindicações negras."

Ao mesmo tempo, observa, a intelectualidade negra o fim do século 19 é múltipla e ambígua em relação às questões de raça – ou seja, jamais agrada a todas as vertentes do ativismo negro atual. "Isso, sem contar o fato de que suas biografias podem ser mais facilmente mapeadas. Zumbi agrega, até mesmo porque as informações a seu respeito são muito difusas." O pesquisador não descarta, porém, o valor simbólico dos nossos "negros gregos": "Eu até acredito que esses intelectuais são reconhecidos. Isso nos leva, mais do que tudo, à percepção de que não há um movimento negro no Brasil, mas sim movimentos negros".

Clivagem

O doutor em Sociologia pela Unicamp Alexandro Trindade segue pelo mesmo caminho ao analisar Zumbi, observando, por exemplo, seu papel na construção da identidade e dos ativismos negros. "As representações do Quilombo dos Palmares e de seu líder nascem com o Quilombismo proposto por Abdias do Nascimento, e estão associadas à identidade negra, à negritude. Essas representações, porém, não são consenso." Segundo ele, há uma clivagem entre os ativismos associados à desigualdade e à diferença racial. "Em torno da diferença estão aqueles que vão buscar a negritude, representações de um passado heróico e de resistência para formar uma autoestima, de caráter reivindicativo ou identitário. A outra clivagem vai ser reportar muito mais à denúncia contra as desigualdades, buscando, também, formas de maior ou menor aproximação com um ideal de negritude que é menos destacado."

Zumbi, observa Alexandro, começa a aparecer como símbolo da negritude na década de sessenta, ganhando força a partir de 1978, com a fundação do Movimento Negro Unificado. "Tanto que, ao longo dos anos oitenta, o 13 de maio foi perdendo espaço para o 20 de novembro – suposta data da derrota dos negros em Palmares – nas comemorações associadas à consciência negra no Brasil."

Fotos: Reprodução

Da esquerda para a direita: Luis da Gama; André Rebouças; Machado de Assis e José do Patrocínio

Luís Gonzaga Pinto da Gama

(Salvador, 1830 – São Paulo, 1882)

Mulato, filho de uma africana livre e de um fidalgo português, foi advogado e jornalista. É considerado um dos mais importantes ativistas negros brasileiros do século 19. Sua história é especialmente marcada pelo drama: ainda criança, teve a mãe exilada por participar da Sabinada (1837) e acabou vendido como escravo pelo pai. Enviado para São Paulo, tornou-se advogado. Nessa atividade, participou da libertação de centenas de escravos.

André Pinto Rebouças

(Cachoeira, BA, 1838 – Funchal, Ilha da Madeira, 1898)

Mulato, filho do conselheiro imperial Antonio Pereira Rebouças. Engenheiro militar formado pela Escola da Praia Vermelha em 1859, participou da Guerra do Paraguai. Em 1868, comandou as obras das docas do Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, debateu a modernização do país, a abolição da escravatura e a reforma agrária. Monarquista, acompanhou a família imperial no exílio. Desgostoso com a República, morreu em 1898 na Ilha da Madeira.

Joaquim Maria Machado de Assis

(Rio de Janeiro 1839-1908 )

Referido pelo crítico literário Harold Bloom como "o maior artista literário negro já nascido", Machado de Assis nasceu e cresceu no Morro do Livramento, próximo ao Centro e à zona portuária do Rio de Janeiro. Mulato, filho de operário e órfão de mãe, não teve educação formal. Autodidata, destacou-se como jornalista, crítico teatral, tradutor, romancista e contista. É um dos fundadores e foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

José Carlos do Patrocínio

(Campos dos Goytacazes, RJ, 1853 – Rio de Janeiro, 1905)

Mulato, filho de um padre e uma escrava. Criado na fazenda do pai, foi enviado aos 14 anos para o Rio de Janeiro, onde estudou Farmácia. Aproximou-se dos movimentos abolicionista e republicano. Jornalista, foi uma das principais vozes do Abolicionismo. É o fundador da Cadeira nº 21 da Academia Brasileira de Letras. Na República, opôs-se a Floriano Peixoto, tendo sido preso e desterrado por dois anos na Amazônia.

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