| Foto: Reprodução www.youtube.com

Números

65 TRAJES femininos e masculinos estão sendo confeccionados para La Traviata. São smokings e vestidos à moda dos anos 1920. Entre os adereços, estão colares típicos da época.

60 CANTORES se apresentarão no cenário criado por Carlos Kur. São 12 solistas e 48 do coro, que soltarão a voz acompanhados pelos músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná.

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Quando o palco do Teatro Guaíra se iluminar para a estréia da ópera La Traviata, no próximo sábado (18), nem todos na platéia poderão aproveitar tranqüilamente o espetáculo. Haverá gente preocupada com o figurino, outros atentos ao cenário e ainda aqueles que ficarão nas coxias, prontos a atender a qualquer emergência. São os profissionais que trabalham nos bastidores e, embora não mostrem a cara ao público, têm tanta responsabilidade pelo que acontece em cena quanto os cantores e músicos.

A reportagem do Caderno G passou uma tarde no teatro para conhecer um pouco da rotina de quem faz o espetáculo acontecer. A poucos dias da estréia, o clima entre os técnicos e artistas é calmo. A não ser quando algo sai errado.

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"Posso ficar desesperado? O alfaiate só cortou três smokings!", comunica o figurinista Eduardo Giacomini às costureiras Sueli e Neca. Eduardo está atarefado, mas diz que "tempo a gente arruma". É com esse espírito, de não se apavorar ao correr contra o relógio, que a equipe de La Traviata dá conta de preparar, em menos de um mês, o palco e as vestimentas que ambientarão o drama de Violetta, a Dama das Camélias.

A trama foi escrita em 1853 por Alexandre Dumas, transformada em ópera por Giuseppe Verdi e trazida aos anos 1920 pelo diretor Golat Ludek. O diretor já havia montado a mesma ópera em Praga e mostrou a Giacomini as fotografias dos figurinos usados na versão tcheca. O figurinista fez mais pesquisas em filmes e na internet, até chegar ao modo como as roupas eram construídas na década de 20, quando as mulheres enfim abandonaram os espartilho.

O estilo da época, personificado por Coco Chanel, propunha cortes retos, vestidos leves e o uso de colares compridos, que davam voltas no pescoço. Como o Guairão é amplo e a platéia fica distante, as bijuterias levam contas grandes, visíveis de longe. "Não adianta criar detalhes que só farão os cantores felizes e ninguém verá da platéia", diz o figurinista. "De perto, algumas peças são grotescas", confessa.

Os trajes masculinos são todos smokings, alugados ou encomendados a um alfaiate. Já os vestidos femininos ficaram nas mãos de sete costureiras. Quando os trajes estiverem prontos e o espetáculo estrear, Giacomini vai assistir da platéia ao resultado de seus esforços. E quando vir algum problema, avisa, sairá correndo para resolvê-lo.

A linha e a agulha

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Confeccionar 40 vestidos em menos de 30 dias, segundo o Giacomini, só foi possível pela ajuda de duas costureiras experientes. Sueli Carbonar e Terezinha Pereira, a Neca, manuseiam tesouras, agulhas e linhas nos bastidores do Teatro Guaíra há mais de duas décadas. A eficiência da dupla foi um dos impulsos para que os figurinos chegassem adiantados às véspera da estréia. Agora, elas terminam os vestidos bordando pequenas miçangas nas saias.

O trabalho minucioso foi orientado por Giacomini, mas o sorriso delas cresce ao contar que conseguem imprimir sua criatividade às peças. La Traviata não apresenta um desafio tão complicado para as duas. "O modelo era um só", resume Neca, sobre os anos 20. "Difícil são os vestidos de 1800, longos, com saias e mangas bufantes", concorda Sueli.

Elas dificilmente verão seus trabalhos da mesma perspectiva que o público. Sempre assistem dos bastidores, prontas a ajudar os cantores em uma troca de roupa e a socorrer quando um conserto for urgente. Mas, quando surge alguma cena mais esperada, Sueli e Neca escapam para a frente do palco e espiam. Afinal, a curiosidade é humana. E elas adoram o trabalho que fazem.

Defeitos que os outros não vêem

Carlos Kur veio do Uruguai e guarda ainda algumas palavras em espanhol, que se apressa em substituir pelo português. Formado em Belas Artes, o estudante que ambicionava ser o "novo Van Gogh" foi picado pelo tal bichinho do teatro, sem cura.

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O cenógrafo trabalhou em Montevidéu e Porto Alegre antes de chegar a Curitiba e ingressar no Teatro Guaíra, onde atua desde 1976. La Traviata não é um mistério para ele, que já produziu outras três vezes cenários para montagens da ópera. A diferença entre elas? "São como filhos, a gente tem uma pequena preferência por um, mas não fala", desconversa.

"La Traviata é uma produção normal, não muito luxuosa", diz. São três cenários: a casa de Violetta, o jardim de inverno onde ela e Alfredo vivem sua paixão e o salão da casa de uma amiga. Para a trágica cena final, a personagem volta ao primeiro ambiente. Embora o figurino traga o drama para os anos 20, as construções foram inspiradas em meados do século 19, como se o cenário tivesse sobrevivido ao tempo e já fosse antigo no momento da ação.

Os pedaços dos cenários ainda estão espalhados pelo palco. Dispersos, parecem muito longe de ficarem prontos. Mas Kur diz que não, que quando juntar as partes, o quebra-cabeças estará montado. Para aprontar tudo em um mês, 17 pessoas trabalham 11 horas por dia na construção e nas trocas de cenário durante os ensaios.

"Sempre estamos atrasados", diz Kur, com a segurança de quem vencerá o tempo e entregará tudo para a estréia. Ele vai assistir à apresentação da platéia. Como será o momento? "Ruim, porque vejo todos os defeitos que os outros não vêem", diz.

Apesar da preocupação, os aplausos finais serão para ele também.

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* * * * * Serviço: La Traviata. Teatro Guaíra (Rua XV de Novembro, 971), (41) 3304-7900. Estréia dia 18, às 20 horas. Terça a sábado, às 20 horas, e domingos às 18 horas. Até 26 de agosto. Ingressos a R$ 40 (platéia), R$ 30 (1.º balcão) e R$ 20 (2.º balcão). Dia 26 a entrada é livre.