
Mirosmar José de Camargo, 46 anos completos em agosto, seria um personagem e tanto para o saudoso escritor João Cabral de Melo Neto. A exemplo do seu clássico Morte e Vida Severina, a trajetória deste filho de Francisco, nascido em Pirenópolis, em Goiás, reflete a realidade de sonhos, provações, privações e muita garra de boa parte dos brasileiros que almejam um destino melhor.
O que torna Mirosmar diferente de muitas "Severinas" e "Severinos" deste país é o final da história. De origem humilde, esse homem sonhador fez da música a sua alternativa para buscar novos horizontes e foi ela que o transformou em um dos nossos mais reconhecidos e admirados artistas. Acostumado a superar obstáculos, o cantor, nacionalmente conhecido como Zezé Di Camargo, está como ele mesmo define virando mais uma página importante na sua carreira.
O novo disco da dupla, que chega às lojas amanhã, começa com um texto simples, direto, mas muito emocionante de Zezé. Vale lembrar que, desde 1991, com o êxito nas rádios de "É o Amor", o músico com o mano e parceiro de dupla, Luciano, acumulam 19 álbuns sendo dois discos em espanhol e um duplo e 26 milhões de cópias vendidas.
De cara, o cantor diz: "Os últimos anos foram os mais difíceis da minha vida. Eu estava perdendo um pouco de mim, estava perdendo a minha alegria, eu estava perdendo a minha voz." Mas o tom do álbum, batizado simplesmente como Zezé Di Camargo e Luciano (veja box), não tem tom de lamentação ou de batalha perdida. Muito pelo contrário.
"Fiz uma cirurgia nas cordas vocais em maio e ficou esse mistério no ar, muita gente falando um monte de coisa. A resposta vem com esse CD, o texto é para mostrar o que aconteceu, dar uma resposta a nossos fãs e cada um pode tirar as suas conclusões", explica Zezé, em entrevista exclusiva por telefone ao Caderno G. De acordo com o músico e compositor, o CD, que traz 16 faixas, tem um outro significado importante. "Ele é um novo começo, uma nova etapa na carreira do Zezé Di Camargo e Luciano", completa.
O álbum em linhas gerais é a cara do Brasil. "Também optamos por uma apresentação gráfica mais clean, um pouco diferente dos últimos discos", reforça. A dupla explora todas as possibilidades sonoras presentes no nosso território do xote ao reggae. "Depois do filme (2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira, que levou mais de 5 milhões de espectadores aos cinemas), ganhamos o status de artistas nacionais, reconhecidamente representantes da música popular brasileira. Cantamos o Brasil em todos os seus formatos. Podemos ir do estilo do Armandinho, que veio aí do Sul, passando pelo gauchesco, o xote, vanerão, praiana e sem esquecer do nosso ponto de partida, a música sertaneja. Esse disco tem sanfona, viola caipira e as letras ricas em palavras românticas, que é a característica de Zezé Di Camargo e Luciano", analisa o artista.
Desafio
Gravar esse disco foi uma prova de fogo para Zezé Di Camargo. "Tentei gravar no ano passado, mas não gostei do resultado devido à minha voz e parei. Nessa minha insegurança, tinha 30 músicas para gravar e, como me recuperei bem, coloquei a voz em 15 e vi que o resultado foi bom. O CD acabou vindo assim, meio inesperado, pois o plano era o disco ao vivo e o DVD da turnê de 2 Horas de Sucesso (que devem chegar às lojas entre março e maio de 2009)", comenta o cantor.
O disco também tem um quê de homenagem. A dupla dedicou o álbum à cantora Sylvinha Araújo, que faleceu em junho. "Ela era uma grande artista e sempre fez backing vocal em todos os nossos discos, inclusive nesse, que ela gravou um ano antes. Tivemos sempre uma convivência ótima e ela chegou a participar de um DVD nosso, cantando comigo How Can I Go On (canção imortalizada pelo dueto de Freddie Mercury e Montserrat Caballé). É uma forma de lembrar sempra dela, dessa grande colega de canto", emociona-se Zezé.
Criação
Zezé Di Camargo tem três músicas de autoria própria (algumas com parceiro) no disco, fora a versão instrumental de "É o Amor". Para o músico, compor é um processo que não segue uma organização lógica. "Mas tenho um ritual meu, que é sentar na sala, com gravadorzinho de fita mesmo e violão. O mesmo jeito desde o início da carreira", revela.
Para as próximas semanas, começa a maratona intensa de divulgação do disco e as viagens com o novo show, que estreou em Recife no dia 7. A dupla cumpre temporada pelo Nordeste e depois leva a turnê para São Paulo (dezembro) e Rio de Janeiro (janeiro). "Ainda não é baseado no CD novo, mas aos poucos vamos incluir músicas dele e deixar para estrear a turnê quando as canções ganharem mais corpo e estiverem mais conhecidas do público", reitera Zezé.
A primeira música de trabalho, "O Que Vai Ser de Nós", já está nas rádios e, por enquanto, a dupla não planeja nada diferente. "Acho que com CD novo e shows, fica difícil planejar mais alguma coisa", diverte-se Zezé.
Em tempo: a dupla Zezé Di Camargo e Luciano é campeã em números. Por dois anos consecutivos, uma pesquisa do Datafolha apontou os irmãos como os artistas campeões da preferência nacional. Não é á toa que os músicos fazem cerca de 120 shows por ano, com público médio de 30 mil pessoas.







