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Cinema

A Morte de Robin Hood troca aventura por drama de redenção

Filme de Michael Sarnoski abandona o mito tradicional e aposta em culpa, envelhecimento e redenção

Hugh Jackman interpreta um Robin Hood envelhecido e marcado pela violência em uma versão que troca a aventura pela busca por redenção (Foto: Divulgação)

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Robin Hood sempre foi um personagem fácil de reconhecer e difícil de reinventar. Ao longo de décadas, o fora da lei que rouba dos ricos para ajudar os pobres já apareceu como aventureiro carismático, herói romântico, personagem cômico e figura mais amarga e vingativa. A Morte de Robin Hood, dirigido e roteirizado por Michael Sarnoski, que chega aos cinemas brasileiros, parte justamente da decisão de abandonar quase tudo aquilo que o público associa ao mito. Na versão protagonizada por Hugh Jackman, Robin não é um herói injustiçado, mas um homem marcado por uma trajetória de crimes e violência, confrontado nos últimos dias de vida com a possibilidade de mudar. O resultado chega aos cinemas brasileiros em 13 de agosto e encontra uma recepção crítica dividida.

A proposta de Sarnoski é apresentada desde o início de maneira bastante direta. Robin reconhece que as histórias contadas sobre ele são falsas e que sua reputação heroica não corresponde ao homem que foi. Depois de anos de crimes, ele aparece cansado e isolado, distante dos antigos companheiros. Um confronto com Little John, interpretado por Bill Skarsgård, termina deixando Robin gravemente ferido. Ele acaba acolhido em um priorado comandado por Brigid, vivida por Jodie Comer, onde começa uma recuperação que é menos física do que moral.

É nessa mudança de direção que o filme encontra parte de seus méritos e também de seus problemas. Em vez de transformar a história em mais uma aventura medieval, Sarnoski concentra a narrativa na tentativa de entender o que sobra de alguém depois de uma vida dedicada à violência. Robin passa a conviver com órfãos, doentes e outros marginalizados, estabelece uma amizade com um homem leproso e assume uma espécie de papel paterno para Margaret, filha de Little John. A antiga habilidade com armas deixa de ser o centro da narrativa. O que interessa é observar se um homem que passou a vida destruindo relações pode construir alguma coisa nos seus últimos dias.

As críticas reconhecem que essa mudança de perspectiva tem força. O jornal inglês The Guardian destaca a capacidade de Sarnoski de criar uma atmosfera particular, explorando os sons, as texturas naturais e as paisagens usadas para representar a Inglaterra medieval. A publicação também identifica talento nas sequências de ação e na construção visual do filme, embora considere frustrante que a energia dessas cenas seja concentrada sobretudo no começo. O Hollywood Reporter chega a uma conclusão semelhante ao elogiar a atmosfera, a fotografia, o desenho de som, a trilha e as mudanças de proporção da tela. Mesmo quando rejeitam o resultado final, os dois textos reconhecem que existe uma ideia cinematográfica por trás da experiência.

A atuação também está os elementos positivos, embora de maneira ambígua. Jackman abandona o registro mais convencional de herói e interpreta Robin como uma figura fisicamente desgastada, silenciosa e atormentada. Para o Hollywood Reporter, há intensidade suficiente para tornar o personagem muito diferente de seus papéis mais populares. O problema, segundo a publicação, é que essa intensidade acaba dificultando a conexão emocional com Robin. The Guardian considera que o ator funciona bem dentro do registro de um homem endurecido, enquanto observa que o roteiro oferece pouco material para que Jodie Comer desenvolva Brigid além de sua função na trama. O site Christianity Today, por outro lado, encontra no relacionamento entre os personagens um dos caminhos mais interessantes do filme: a comunidade religiosa deixa de ser apenas parte do cenário e passa a funcionar como espaço de acolhimento e transformação.

Essa leitura ajuda a entender uma das principais diferenças entre as críticas. Para o Christianity Today, A Morte de Robin Hood é, sobretudo, uma história sobre redenção. A publicação identifica referências cristãs na narrativa e chama atenção para as conversas sobre culpa, perdão, morte e possibilidade de mudança. Brigid apresenta a Robin passagens do Evangelho, enquanto outros personagens funcionam como interlocutores para sua tentativa de encontrar algum tipo de paz. A publicação considera especialmente significativo que Robin abandone progressivamente a violência e passe a cuidar de Margaret. Nesse sentido, o filme seria uma inversão do mito tradicional: a figura que antes resistia à autoridade religiosa agora depende de uma comunidade religiosa para tentar reconstruir a própria existência.

O problema é que a transformação não convence todos os críticos. Para The Guardian, o filme quer alcançar uma profundidade semelhante à de O Irlandês, de Martin Scorsese, ao mostrar um criminoso envelhecido diante do desperdício e do arrependimento de sua própria vida. Mas, segundo a crítica, Sarnoski não consegue produzir o mesmo impacto porque os personagens permanecem distantes demais. O passado de Robin e a relação com Brigid são revelados de maneira insuficientemente desenvolvida, enquanto a construção de uma nova família parece mais uma tentativa do roteiro de provocar emoção do que algo que tenha sido plenamente conquistado pela narrativa.

O Hollywood Reporter é ainda mais duro com o ritmo. Para a publicação, pouco acontece durante boa parte do filme, e o silêncio dos protagonistas não é acompanhado por diálogos capazes de sustentar a duração. A atmosfera, que poderia funcionar como ferramenta de imersão, acaba se tornando repetitiva. A crítica também considera que a violência do primeiro ato estabelece uma expectativa que o restante da história não pretende cumprir. A decisão de abandonar a ação e apostar em um drama contemplativo é conceitualmente coerente, mas a execução deixa a sensação de que falta material dramático para preencher esse espaço.

A Aceprensa concentra a crítica justamente na questão moral. Para a publicação, o filme começa com uma representação excessivamente violenta de Robin e depois tenta conduzi-lo a uma redenção que não se sustenta de maneira convincente. A ausência de conceitos morais mais claramente desenvolvidos — como culpa, perdão e amor — faria com que a transformação terminasse presa entre o sentimentalismo e uma visão mais niilista. É uma crítica próxima à de The Guardian, mas chega a ela por outro caminho: enquanto uma enfatiza o distanciamento emocional, a outra questiona a própria estrutura moral que deveria dar sentido à redenção.

Spoilers

O desfecho concentra essas dificuldades. Robin descobre que Brigid foi vítima de uma de suas ações passadas: ele havia provocado a morte do marido e dos filhos dela. Quando confessa o que fez, aceita que ela possa puni-lo. A situação, porém, toma outro rumo. Brigid interrompe o processo e afirma que a própria dor a transformou em alguém capaz de demonstrar compaixão. Robin então pede ajuda para morrer, e a personagem acaba atendendo ao pedido. A Christianity Today interpreta essa escolha de forma particularmente crítica, considerando que o filme abandona justamente a possibilidade de mostrar até onde poderia chegar a transformação de Robin. Para a publicação, o personagem encontra uma espécie de misericórdia, mas não chega a completar o caminho de arrependimento que a própria narrativa havia começado a construir.

Esse final também ajuda a explicar por que a recepção não se resume a uma simples rejeição. Há uma proposta clara, uma identidade visual definida e uma tentativa genuína de transformar uma lenda conhecida em um drama sobre culpa, envelhecimento e redenção. O que divide os críticos é a distância entre essa ambição e a execução. Sarnoski parece saber exatamente qual Robin Hood não quer apresentar, mas encontra mais dificuldade para construir, ao longo do filme, um personagem capaz de sustentar emocionalmente a versão que escolheu.

As notas disponíveis no dia de publicação deste texto refletem essa divisão. No Rotten Tomatoes, A Morte de Robin Hood registrava 66% de aprovação entre os críticos e 56% entre o público, com mais de 500 avaliações verificadas de usuários. No Metacritic, a produção tinha média 60/100 entre os críticos, classificada como “mista ou média”, e 5,5/10 na avaliação dos usuários. São números que não apontam para um consenso de fracasso, mas tampouco indicam uma recepção entusiasmada.

O que emerge das críticas é, portanto, menos uma condenação da tentativa de reinventar Robin Hood do que uma frustração com o que essa reinvenção consegue realizar. Sarnoski encontra uma maneira visualmente consistente de transformar o herói popular em um homem marcado pelo próprio passado e constrói momentos em que a ideia de redenção parece promissora. Mas a lentidão, a distância dos personagens e um arco moral que parte de questões fortes sem desenvolvê-las completamente impedem que a proposta alcance a profundidade pretendida. A Morte de Robin Hood parece mais interessante como tentativa do que plenamente bem-sucedido como resultado — um filme que encontra uma nova maneira de olhar para uma velha lenda, mas ainda não encontra uma forma igualmente convincente de fazê-la renascer.

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