Capa da biografia sobre Leonardo da Vinci| Foto: Simon & Schuster/Divulgação

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Ele não cumpre prazos e tem um comportamento instável, que varia entre uma perambulação indisciplinada e uma hiperatividade grandiosa. Quando não está desenhando pássaros, ele faz planos inúteis para redirecionar rios, construir cidades e criar máquinas que voam. Quando ele consegue se focar em um trabalho, o faz com uma intensidade febril e desenha páginas e páginas de triângulos ou armas de guerra. O que é ainda mais perturbador é que ele disseca corpos – pessoas, porcos, o que estiver por perto. Ele é inquieto e se muda com frequência de cidade, por vezes não cumprindo os contratos feitos. 

É um tanto arriscado contratar Leonardo da Vinci, não? 

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Mesmo assim, ele criou duas das obras de arte mais icônicas da história do Ocidente: a "A Última Ceia" e a "Mona Lisa". Seu desenho "O Homem Vitruviano" é a representação clássica do espírito renascentista. E se não fossem pelas milhares de páginas com desenhos vanguardistas sobre geologia, geometria, luz, anatomia, astronomia, história bíblica, estratégia militar, hidrodinâmica, voo, neuropsicologia, oftalmologia e vários outros tópicos, suas pinturas sobreviventes não seriam as obras que são. Nem saberíamos tanto sobre esse homem peculiar, assombrado e maravilhoso, que estava tantos séculos a frente do seu tempo. 

Da Vinci volta a vida com toda a sua genialidade e esquisitice na ambiciosa biografia "Leonardo Da Vinci", escrita por Walter Isaacson e publicada nos EUA pela Simon & Schuster. Entre os outros biografados pelo autor estão Benjamin Franklin, Albert Einstein e Steve Jobs – homens inquietos que, assim como Leonardo, tinham personalidades divididas: em parte pioneiros solitários, em parte líderes inspiradores. O apetite duradouro e insaciável pelo conhecimento é um elemento que certamente os une. 

Retocando e melhorando seu trabalho durante anos, Leonardo pensava muito mais em qualidade do que quantidade. Ele carregou "Mona Lisa" consigo, por vezes em uma mula, durante 14 anos, adicionando aqui e ali pinceladas de tinta – até que as 30 camadas feitas por cima de uma cobertura branca em uma tábua de madeira virassem a visão tridimensional com olhos que parecem seguir quem a olha e um sorriso reprimido que provoca e zomba.

As dissecações obsessivas de Leonardo dos músculos dos lábios, assim como seus estudos sobre os olhos, foram essenciais para a criação do sfumato, técnica de pintura que resulta em contornos indistintos ao misturar cores e formas umas com as outras. Psicologicamente, as pinturas parecem sutis e vivas. 

A biografia de Isaacson, como sugere seus trabalhos anteriores, é fundamentalmente jornalística. Não existe um exibicionismo intelectual e, ainda que sua escrita seja boa, nunca tem ornamentos desnecessários. Mas não se engane: ele sabe do que está falando. Ele usa várias fontes da arte, história, medicina e outras áreas para chegar num retrato vigoroso de um dos retratistas mais famosos do mundo. Mas os fãs de Leonardo não vão achar revelações bombásticas nesse livro; o objetivo de Isaacson é fazer uma síntese bem pensada do seu personagem, o que ele atinge com sucesso. 

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Isaacson parece atraído pelos instintos de Leonardo, que relatava boa parte de seus pensamentos e descobertas. O artista carregava com frequência um caderno preso em seu cinto, para anotar perguntas, listas, fantasias e piadas e fazer desenhos daquilo que observava. Ele não se relacionava somente com artistas e músicos (ele tocava lira e flauta), mas também com cientistas, médicos e engenheiros, que frequentemente eram bombardeados de perguntas. Da Vinci chegou, inclusive, a colaborar com outros profissionais em pesquisas e projetos. 

O biógrafo, sempre procurando os aspectos humanos dos ícones que estuda, peneira o máximo possível da mística presente no uso da palavra "gênio". Com certo charme, ele termina o livro com lições preciosas que podemos aprender com Leonardo. Entre elas está "ser curioso, incansávelmente curioso", "procurar o conhecimento pelo próprio conhecimento", "começar com os detalhes", "descer pelas tocas dos coelhos". Não faz parte da lista, mas seria útil, ter "um talento visual inato que aparece entre uma em cada um bilhão de pessoas", o que impressionou Verrocchio, o artista florentino de quem Leonardo gostava muito. De qualquer forma, o voto de confiança de Isaacson em todos nós é motivador. 

Leonardo por Leonardo

É engraçado quando Isaacson ocasionalmente descobre que, apesar ou justamente por causa de sua pesquisa, ele também pode ter algumas opiniões próprias sobre a questão. O estimado historiador da arte Kenneth Clark, por exemplo, apesar de achar "A Última Ceia" a "pedra fundadora da arte europeia", considera o movimento dos personagens um tanto "congelado". "Eu não concordo", escreve Isaacson em uma reviravolta rebelde. "Olhe longamente para o quadro. Ele vibra com a compreensão de Leonardo que nenhum momento é delineado, congelado, contido em si mesmo, assim como nenhum contorno da natureza é delineado". Isso aí, Walter! Não deixe os especialistas te enganarem. 

Se a vida de Leonardo parece um épico de cinema, isso não escapou da atenção de Hollywood. A Paramount já comprou os direitos de adaptação do livro de Isaacson e o personagem principal deve ser interpretado por seu xará Leonardo DiCaprio. Veremos Maquiavel (tomara que seja interpretado por Joaquin Phoenix) fazendo suas conexões enigmáticas com César Bórgia e Leonardo. Veremos Francisco I, rei da França (Russell Crowe ou Hugh Jackman?) lhe oferecendo um patrocínio livre de obrigações nos últimos anos de vida do artista e estando presente no seu leito de morte. Ou não. Mas é uma história boa, tanto que o pintor francês Jean-Auguste Dominique Ingres não resistiu e a registrou no quadro "A Morte de Leonardo DaVinci". 

Nos momentos em que os registros históricos são escassos, entra a imaginação – e o próprio Leonardo não faria diferente. Aproveitando do próprio efeito sfumato que criou, Isaacson escreve: "Existe sempre com Leonardo, em sua arte e em sua vida, em seu nascimento e em sua morte, uma aura de mistério. (...) Como ele sabia, os limites da realidade são inevitavelmente desfocados, deixando uma incerteza que devemos abraçar".

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*Alexander Kafka escreveu sobre livros e artes para o Washington Post, Boston Globe e o Chicago Tribune.

Tradução de Gisele Eberspächer

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Publicado por Ideias em Quinta-feira, 19 de outubro de 2017
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