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O Brasil é um país imenso, mas culturalmente claustrofóbico. Ao menos nesses últimos longos anos de incessante (e insuportável) guerra cultural. Documentar esse capítulo da nossa história parece ser uma maçante repetição das mesmas tolices e arrogâncias.
Na última semana, três novos fatos foram noticiados que, vistos em conjunto, me parecem não apenas espelhar nossa degradação cultural, mas também permitir vislumbrar possíveis remédios, ainda que estejamos distantes de uma cura.
A vassoura virou advogado
Comecemos pelos músicos consagrados Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan processando a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC) por ter usado suas músicas num curso batizado "Aula Espetáculo: MPB, História e Feminismo", promovido pelo seu "Clube Antifeminista". Detalhe nada irrelevante: foi pedida autorização, formalmente concedida.
Agora, os artistas alegam que a autorização foi obtida sob "falsas premissas" e "omissão dolosa de informações": o pedido teria sido descrito como uso "didático e lúdico" para contar a história da MPB, mas a aplicação foi tratada como um desvio de finalidade. Note-se a hierarquia implícita nessa acusação: contar a história do feminismo na MPB seria didático; contestá-la, uma espécie de estelionato.
A distinção entre pedagogia e propaganda, aqui, coincide de forma suspeita com a distinção entre concordar e discordar do compositor. Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan tratam suas músicas como se fossem a Dona Florinda tentando evitar que seu filho, o Quico, se "misture com essa gentalha", substituindo a vassoura por um advogado.
Ainda que vençam na Justiça, jamais conseguirão obrigar que suas músicas sejam consideradas pelo público apenas nos termos em que desejariam. Deveria ser óbvio, e é. Mas toda Dona Florinda finge se enganar que seu Quico não voltará a brincar minutos depois com aquela mesma “gentalha”.
Roland Barthes, famoso teórico literário de esquerda, afirmava que, no instante em que uma obra é publicada, o poder sobre o seu significado deixa de ser de quem a escreveu e passa a ser de quem a consome. O autor “morre” para que o leitor nasça. No mercado da música, não é diferente.
Uma canção marcante é um bicho indomável e irremediavelmente promíscuo. Frequenta tanto o comício do partido quanto o churrasco do adversário. Tentar colocar uma coleira ideológica ou um selo de "uso exclusivo para progressistas" em um patrimônio afetivo da nação é, além de inútil, uma tentativa de cometer um “crime impossível” contra a transcendência da arte, por ser algo inerente a qualquer obra, boa ou ruim.
Ao tentar patrulhar a certidão ideológica de quem consome e comenta suas canções, a nossa elite musical comete o pior pecado que um artista pode perpetrar contra si mesmo: o de apequenar a própria obra, reduzindo hinos que marcaram gerações a um mero panfleto de assembleia estudantil.
Legião Urbana é de esquerda?
Enquanto os dinossauros da MPB acionavam seus advogados, Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo e detentor dos direitos da Legião Urbana, autorizou o uso de "Fábrica" na campanha de José Dirceu a deputado federal.
É o mesmo Manfredini que, em 2025, notificou o partido de Romeu Zema por usar "Que País É Este" num evento de pré-candidatura, e que em 2024 já havia pedido ao TikTok a derrubada de vídeos bolsonaristas embalados pela mesma canção. Ou seja: o acervo de Renato Russo está liberado para um lado da urna e trancado a cadeado para o outro. Como se vê, não faltam Donas Florindas neste país.
Marcelo Bonfá, baterista original da banda, é a única voz do episódio que escapa dessa lógica. Ele não reclamou que a música foi parar no lado "errado" do espectro, reclamou de vê-la convertida em cabo eleitoral e disse acreditar que o próprio Renato Russo rejeitaria qualquer uso ideológico do repertório, "que pertence ao povo e à nação brasileira".
Essa colisão de atitudes desenha o mapa da nossa claustrofobia cultural. Enquanto Chico, Gil e Djavan sofrem por perceber que suas melodias são amadas e dissecadas por quem pensa diferente deles, músicos como Bonfá lutam para salvar a própria alma da canção de ser engolida pela engrenagem da propaganda oficial. Um grupo quer o monopólio da virtude, o outro quer apenas o direito à independência estética.
A “gentalha” que lota o show
Para completar nosso mosaico trágico de erros, a jovem estrela sertaneja Ana Castela tirou uma foto nos bastidores de um show ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira. O bastante para que os fiscais ideológicos decretassem o seu imediato e impiedoso cancelamento.
O resultado da fúria inquisitorial? Até aqui, pouco ou nada. O perfil da cantora saltou para 25 milhões de seguidores, não há notícia de shows esvaziados nem de marcas em fuga, e os streamings continuam subindo. Pode ser cedo para um veredito definitivo, mas o padrão se repete: o Brasil que tenta cancelar é um Brasil que descobre, reiteradamente, que o público não pediu licença para gostar de quem quiser.
Mas há aqui algo mais interessante do que o mero fracasso de um esquadrão da virtude. Enquanto as primas-donas da MPB correm aos tribunais para se blindar do público que pensa diferente, Ana Castela não parece querer educar ninguém, nem posar de bússola moral da nação. Sua foto com Nikolas significa, no máximo, uma preferência político-eleitoral, sem impô-la a quem ouve suas músicas.
Pode até ter afastado quem dela discorde, é o risco que todo artista corre quando se expõe politicamente. Mesmo assim, o afastamento se dá menos pelo que expôs e mais pela tolice de quem não sabe separar o artista de sua obra.
Separando o artista da obra
No final das contas, é possível cantarolar a métrica refinada de Chico Buarque no trânsito, bater cabeça com o rock da Legião Urbana no fim de semana e ouvir Ana Castela no churrasco sem precisar assinar nenhuma ficha de filiação partidária ou ideológica.
E, no fundo, todo mundo sabe disso. Todo mundo sabe que o Quico brincará (e brigará) com o Chaves no episódio seguinte. A música, para o desespero de quem deseja trancá-la em caixas ideológicas ou rebaixá-la a jingle de ocasião, é irremediavelmente livre, inclusive das donas Florindas que abundam por aí.
Toda arte, ao menos aquela que não se presta a ser mera propaganda do que quer que seja, sobrevive aos comícios, aos tribunais, ao próprio criador, mantendo-se soberana no único lugar onde nenhum patrulheiro consegue confiscar: o coração de quem a aprecia pelo que ela é, e não pelo crachá ideológico de quem a criou.




